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Deve ser tique de jornalista velho, mas ao me colocar na missão de destrinchar alguma nova história sempre borboleteio, tergiverso um pouco no labirinto zaranza de meu canhenho de contatos, minha coleção de confiáveis fontes.

Então esbarro em nomes que já se foram. Lastimo a ausência. Admito que não é bem um pesar bonito, daqueles com requintes de humanidade, do tipo que revivem o luto — é uma melúria carregada de egoísmo. Penso na falta que faz o morto em questão porque sabia que, daquele conjunto de numerais que eu telefonaria. extrairia mais do que uma conversa agradável recheada de conhecimentos ao mesmo tempo abrangentes e pontuais. Resolveria a matéria.

Nesta semana foi o Zuza Homem de Mello (1933-2020) quem me faltou. Escrevia eu sobre um desses personagens incontornáveis do cancioneiro nacional e me pus a fantasiar que o sabido musicólogo ainda houvesse. Ele atenderia à minha ligação com elegância, fineza, generosidade. Pelo seu falar, seria possível do lado de cá da linha visualizar os momentos em que o sorriso escapava por entre sua barba alvejada pelo tempo. Contar-me-ia alguma história pessoal, daquelas do fundo da cartola que não necessariamente teria a ver com o objeto principal da conversa por mim trazida — mas, como soía, sem dúvida seria coisa importante; obstinado, anotaria e, depois, faria sedimentar em outra ideia de pauta.

Foi numa dessas que soube, por exemplo, do resgate patrocinado pelo Zuza, com gravação em disco, da histórica apresentação da orquestra de Duke Ellington (1899-1974) no Theatro Municipal de São Paulo, na noite de 2 de setembro de 1968. A fita com o registro apareceu no clubinho de aficionados pelo compositor que se reunia, religiosamente a cada quinzena, de 29 de agosto de 1974 até o começo da década de seguinte.

Um dos mais entusiastas ellingtoniano do Brasil, Zuza era um deles, claro.

O arroubo provocado em mim foi tamanho que hoje, década e meia depois dessa conversa telefônica, lembro-me disto e não tenho a menor recordação de qual foi o motivo que me levou a discar os números da casa do musicólogo naquela ocasião. A história do disco ‘The Duke em São Paulo’ renderia algumas páginas no hoje praticamente extinto livro ‘O Theatro Municipal de São Paulo: Histórias Surpreendentes e Casos Insólitos’, que tive a sorte de publicar em coautoria com o meu dileto amigo Vitor Hugo Brandalise, tão talentoso para os teclados de letrinhas como era o, vá lá, Thelonious Monk (1917-1982) nas teclas do piano.

Por aqui, porque é sábado de uma semana daquelas, resta-me o funambulismo das lembranças. Já estou botando no toca-discos qualquer coisa do Duke Ellington para ouvir, porque são poucos os seres humanos de quem qualquer coisa é um muito que beira o tudo.

Ao Zuza.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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