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Não há dúvidas de que Franz Kafka é um dos autores mais lidos, imitados e celebrados no mundo inteiro. Ironicamente, ele queria que seus escritos fossem destruídos pelo seu amigo Max Brod, que foi mais amigo do mundo e o desobedeceu. Otto Maria Carpeaux afirma que o nome de Kafka se tornou proverbial: “coisas e situações complicadas e absurdas são chamadas ‘kafkianas’”. Justo! Não é simples entender a mente do escritor sem um pouco de loucura prévia ou um espírito de deslocamento essencial. Carpeaux continua, sabiamente: “É difícil dissipar a nuvem de equívocos em torno desse escritor misterioso”. Há, para os textos de Kafka, um número quase infinito de interpretações. Kafka escreveu sua bíblia e a entregou para que o mundo edificasse suas igrejas em torno dela e o conhecimento fosse dissipado segundo o desejo do leitor, do intérprete.

É nessa esteira que recebemos a excelente peça do ator e diretor Caio Blat, com dramaturgia de Rogério Blat, que adapta para o teatro três contos de Kafka: “Primeira dor”, “Um artista da fome” e “Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos”. Atenção especial para o último dos três, que orienta toda a peça. Com o sugestivo título “Subversão Kafka”, os atores atualizam o texto do escritor para os dias atuais e as tecnologias ligadas a eles e, respeitosamente, fazem uma leitura primorosa que, talvez, seja uma exceção aos milhares de críticos do escritor tcheco com suas interpretações particulares e, eventualmente, presunçosas. A ideia é avaliar a memória, o desmedido apego das pessoas aos astros pop e o desdém pelos reais talentos. Não é a qualidade que determina a fama, mas um evento aleatório, instantâneo, independente do esforço do artista em executar sua arte. Tudo é momentâneo e perecível. A peça se sustenta na expectativa da apresentação de uma grande cantora, de uma sociedade de camundongos trabalhadores e desinteressantes. Enquanto isso não acontece, outros eventos invadem o palco: um trapezista depressivo e um dedicado jejuador, conhecido como artista da fome. Aliás, um artista da fome apresentado para estudo entre muitos que existiram em alguma época.

Caio Blat
Caio Blat e Ricardo Blat unem teatro e literatura em “Subversão Kafka”, montagem que revisita três contos de Franz Kafka com olhar contemporâneo

Olhando para os contos de Kafka, inúmeras interpretações são possíveis. Josefina canta, mas é impossível para o povo camundongo ter certeza se o que ela exprime com seus ruídos estranhos é realmente música, uma vez que o narrador de Kafka declara que o povo do qual ele faz parte não é naturalmente musical. E, ainda, consegue afirmar: “Quem não a ouviu não conhece o poder do canto.” O narrador atribui a Josefina a função de cantora, “nossa cantora”. Kafka é extremamente complexo, não escreve na superfície. Cria um problema deslocado da lógica comum e, justamente por isso, absurdo, e dele retira um entendimento da condição humana à exaustão. Coloca seus protagonistas em situações inverossímeis para dali mostrar a capacidade do indivíduo de contestar sua função no mundo, sua incapacidade de lutar contra o poder absoluto de uma lógica inacessível da vida. Veja, música é arte! Para um povo centrado no trabalho, como é o caso, música é algo supérfluo. São, de alguma forma, ingênuos, mas possuem uma “esperteza prática”, que é, justamente, sua natureza totalmente voltada para o trabalho. Josefina, não! Ela é a única que ama a música. O povo entende que “com o seu passamento (de Josefina) a música desaparecerá da nossa vida”. Existe, para além da formação, que o povo não possui, um sentimento musical. Todos os seres são, mesmo que de maneira inconsciente, musicais. Parece existir esse interesse no texto de Kafka. Josefina não canta, mas, por causa dessa ideia, o mito de sua habilidade causa um grande efeito. Esse fenômeno gera uma dependência; o sentimento por algo abstrato, muito além da compreensão do povo, é capaz de criar a empatia com Josefina, e a relação é autoconsistente, retroalimentada, como em geral acontece com o ídolo e seu público. Assim, o narrador entoa: “Para compreender a sua arte é necessário não só ouvi-la como também vê-la”. Josefina tem uma multidão! A sua multidão. Indiferente à sua qualidade ser real ou não, ela tem os aplausos, os adoradores, que a admiram segundo suas regras.

A peça dos Blat entende bem isso. Transforma a presença de Josefina no desejo de vê-la em tempo integral e de ouvir seu canto sinistro. E ela devolve, por egoísmo ou necessidade, o amor de seus adoradores, especialmente os ingênuos, com suas idiossincrasias de ídolo, que é o que o povo espera. Assim, os absurdos lamentosos, os distúrbios da fama, os caprichos de sua beleza autônoma e de seu suposto talento, que, em seu entendimento, é tão superior ao dos outros, por conta de sua arte, fazem com que ela acredite que não deveria trabalhar. Não porque não quer, mas isso seria um empecilho para sua perfeita desenvoltura artística.

Kafka vai mais fundo porque o problema de Josefina não é apenas musical. É artístico. O conto questiona aquilo que transforma uma habilidade comum em fenômeno coletivo. Nesse sentido, o texto toca um ponto delicado da própria literatura: todas as pessoas letradas são capazes de escrever uma história. Admiramos, em geral, aquelas que foram capazes de tornar essa ação algo definitivamente superior. O rigor ortográfico, a capacidade estilística elegante e a distinção da história contada são elementos diferenciadores. Nesse sentido, Kafka faz uma análise muito peculiar e verdadeira do talento. Sobre o ato de quebrar uma noz, por exemplo. Todos são capazes de fazê-lo, não existe uma arte nisso. Se alguém fizer isso inúmeras vezes, apenas o ato de repetir, de igual maneira, torna o evento inútil do ponto de vista artístico. O narrador diz: “Momento em que poderia até ser útil ao efeito se ele fosse menos hábil em quebrar nozes do que a maioria de nós”. Isso sobre um quebrador de nozes profissional. E ele continua, a sequência é que importa: “admiramos nela aquilo que de modo algum admiramos em nós”. Kafka instrui que, para qualquer humano, ver o erro em algo que poderia ser perfeito nos faz detectar a nossa incapacidade de fazê-lo melhor. Talvez seja essa a razão da adoração desproporcional a uma cantora ruim, ou não cantora, como Josefina.

O fato é que, do apego do povo pela sua musa, surgem os mais espertos, que entendem a fragilidade do canto e, mesmo assim, impulsionam sua execução. Eles parecem compreender que o mundo se torna mais estável quando o povo deposita sua fé em alguma figura. E eles podem se beneficiar de tal situação. Josefina também é uma vítima. O ídolo se torna mais convincente quando passa a acreditar integralmente na própria construção. Há, também, na tese de Kafka, uma distorção no comportamento do artista, a julgar pelo seu domínio de algo que apenas ele tem controle e conhecimento. O restante do mundo torna-se menor. E, afinal de contas, qual arte, qual ciência estaria acima de todas as outras para que um representante dela fosse eleito um ser superior? Cada artista tem a melhor opinião de si mesmo. Mesmo que ela seja um equívoco. O narrador, como parte de um grupo iluminado, percebe. Ele é a personagem importante da história. Kafka desprezou seus escritos e pediu para Max Brod queimá-los, talvez para se afastar do “demônio” da extrema arrogância que poderia se instalar.

Existe um paradoxo que a peça explora com exuberância artesanal. Se todos os ratos assobiam, característica natural de sua espécie, por alegria, causada, também, pela arte de Josefina, e sentem paz por isso, inclusive, se se apartam, então silenciam. “A sua audiência não assobia.” Ficam felizes e assobiam. O entusiasmo do povo se manifesta justamente da forma que ameaça a singularidade de Josefina. Um dilema. Um dilema kafkiano. Então podem interpretar, sob o risco de terem seus olhos abertos e suas ideias esclarecidas: “É seu canto que nos enleva ou a quietude solene que envolve a fraca vozinha?” Potencialmente eficaz e complicado. Anular-se é a saída para a paz e, consequentemente, para a felicidade? A encenação dos Blat compreende bem essa tensão e a traduz em cena sem excessos alegóricos. Na verdade, não há grande diferença entre o astro e seus fãs. Senão o tempo, a quantidade dirá o quanto isso é efêmero. Em um texto sobre o escritor, Gabriel Barros diz: “Tecnicamente um mundo sem os textos de Kafka seria o mesmo mundo que existe com os escritos dele”. Josefina, apesar de existir um sentimento de salvação por meio dela, não mudará o mundo. Não mudará nem a si mesma.

Finalmente, a fabulosa peça de Caio Blat termina com um apontamento impagável e genial. O narrador afirma que Josefina passará, uma vez que o povo, “nosso povo”, não tem o hábito de cultivar a memória, o que Kafka chama de “história”. Subversão esplêndida e melhoria do sentido em um texto excepcional e praticamente perfeito.

Solemar Oliveira

Doutor em Física, professor universitário e pesquisador com trabalhos publicados em periódicos acadêmicos nacionais e internacionais. Também atua como prosador, poeta, crítico e ensaísta. Autor dos romances “Desconstruindo Sofia” e “A Confraria dos Homens Invisíveis”, além do livro de contos “A Breve Segunda Vida de uma Ideia”, destacado entre os melhores de 2022. Seu livro “As Casas do Sul e do Norte”, publicado pela editora da Revista Bula, recebeu o prêmio Hugo de Carvalho Ramos, uma das mais tradicionais láureas literárias do Brasil.

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