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Se viver já parece uma aventura sem que tenhamos de fazer nada, esse aspecto meio farsesco da vida, onírico até, recrudesce nas horas em que somos confrontados acerca do que entendemos como virtude ou vício. Ninguém admite suas derrotas sem um mal-estar cujos efeitos podem ser amenizados mirando-se as vantagens de um possível recuo. Pelo desejo de um poder despropositado, indivíduos de todas as origens, sangues, culturas e estratos sociais matam-se uns aos outros, perpetuando a maldição do pecado original. O homem é mesmo o bicho mais trágico da Criação — e o que se sente mais cômodo nesse melancólico papel —, e também por essa razão temos tanto a aprender com Marcellus, uma das criaturas extraordinariamente brilhantes do filme de Olivia Newman. A diretora e o corroteirista John Whittington desdobram o best-seller homônimo de Shelby Van Pelt, de 2022, desvelando a fragilidade das relações e fazendo um alerta sobre o isolamento hediondo que advém do processo.

Escute as feras

Se o homem pudesse ser cristalizado numa imagem, seria a de uma coroa, símbolo da tirania em sua constituição mais diabólica, emulação imediata da superioridade divina frente à ignorância, à prepotência e ao consequente escombro moral. Marcellus dispensa qualquer aproximação com os poderosos do mundo dos homo sapiens, contentando-se com a companhia de Tova Sullivan, a faxineira do aquário de Sowell Bay. Para ser mais preciso, o que se dá entre os dois é uma espécie de terapia, em cujas prolongadas sessões Tova descarrega o peso de suas tantas aflições sobre Marcellus, um polvo-gigante-do-Pacífico, bravo e esperto como todo cefalópode, que escuta aquela litania sem reclamar e arvora-se, de acordo com a pobre servente, a dar pitacos. Newman recheia a introdução de passagens agridoces nas quais a protagonista humana conta ao espectador que é viúva e perdeu o filho, aparentemente vítima de um episódio violento, compenetrada em esfregar, polir, espanar e varrer o salão e, claro, tirar as impressões digitais do vidro que separa Marcellus da humanidade — ou que deveria separar.

Vida inteligente na terra

Depois de 1.400 dias de cativeiro, Marcellus desenvolveu técnicas para sair de seu nicho, passeando pelo aquário em busca dos restos dos hambúrgueres e batatas fritas descartados pelos visitantes, uma ousadia que Tova inveja. Ela nunca conseguiu superar a falta do marido e do filho, e se esforça para continuar morando sozinha na casa construída pelo pai há oito décadas, mas admite que está cansada demais. Na subtrama em que Tova aventa a possibilidade de ir para um asilo, a diretora inclui o núcleo de amigas da personagem central, septuagenárias ativas e tagarelas, no eficaz respiro cômico que antecede mais um segmento melodramático. Quando Tova cai da escada e fratura o tornozelo durante o expediente, Cameron, um trintão meio deslocado aparece em Sowell Bay e a substitui. O filme passa a vibrar na frequência da química de Sally Field e Lewis Pullman, e Marcellus fica meio esquecido, uma falta grave do roteiro — principalmente em se considerando a excelente dublagem de Alfred Molina na versão original. Aliás, resta um quê de desapontamento ao se saber que Marcellus é só computação gráfica. Seres excepcionais, com seus três corações e nove cérebros, mereciam a chance de brilhar de fato.


Filme: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes 
Diretor: Olivia Newman
Ano: 2026
Gênero: Drama/Mistério
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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