Discover

“Da Toscana, com Amor”, dirigido por Laura Chiossone, é uma comédia romântica italiana ambientada na Toscana. Elisa, vivida por Matilde Gioli, tenta manter de pé a propriedade Le Giuggiole, uma antiga fazenda familiar que já não atrai hóspedes como antes e acumula problemas financeiros. Do outro lado está Lorenzo, interpretado por Cristiano Caccamo, um homem que herda as terras próximas e chega com a intenção de vendê-las. A presença dele muda a rotina do lugar, mexe com os planos de Elisa e ainda oferece à pequena cidade um novo assunto para fofocas, palpites e constrangimentos públicos.

A história começa com Elisa em uma posição ruim. Ela não administra um cenário idílico de catálogo turístico, mas um negócio que exige dinheiro, manutenção, paciência e um tipo especial de otimismo que beira a teimosia. A fazenda precisa de hóspedes, reformas e alguma estabilidade, mas a protagonista tem de lidar com contas, expectativas familiares e a sensação de que todos ao redor sabem melhor do que ela o que deve ser feito. Matilde Gioli dá à personagem uma mistura de firmeza e cansaço que ajuda o filme a escapar do açúcar em excesso. Elisa quer preservar a propriedade, mas também tenta preservar a própria autoridade.

Visitante pouco burocrático

Lorenzo entra nessa rotina como problema e possível solução, o que já entrega boa parte do charme da comédia romântica. Cristiano Caccamo interpreta o personagem sem transformá-lo em príncipe encantado de vitrine. Ele chega interessado em resolver a questão da herança e vender as terras, não em participar da vida emocional de uma cidade que parece funcionar com radar para solteiros. Só que, em “Da Toscana, com Amor”, ninguém atravessa a praça sem virar assunto. A partir do momento em que Lorenzo se aproxima de Elisa, os moradores começam a tratar qualquer conversa entre os dois como ensaio geral para casamento.

A pequena cidade observa, comenta, interfere e julga com a naturalidade de quem acredita estar prestando um serviço público. Parentes, vizinhos e conhecidos transformam encontros banais em pequenas armadilhas sociais. Um almoço pode virar interrogatório. Uma visita pode render especulação. Uma negociação sobre terras pode ser lida como sinal de romance. A graça está justamente nessa falta de cerimônia. O filme ri da pressão coletiva para que todo mundo encontre um par, mas também reconhece o quanto esse tipo de intromissão pode ser sufocante.

Inspiração literária

Amanda Campana ajuda a movimentar a rede de comentários e situações constrangedoras. Sua personagem participa desse universo em que informações circulam rápido demais e segredos duram pouco. A comédia não precisa de grandes confusões, mas de pequenos choques entre privacidade e vida comunitária. Em uma cidade assim, até o silêncio parece suspeito. Quando Elisa tenta manter o foco na fazenda, alguém sempre aparece para lembrar que sua vida afetiva também está, ao menos para os outros, em análise permanente.

O roteiro trabalha com elementos conhecidos, como diferenças sociais, orgulho ferido, aproximação involuntária, mal-entendidos e aquela resistência inicial que todo espectador reconhece de longe. Há referências à “Orgulho e Preconceito”, especialmente na ideia de uma mulher decidida a não ceder sua independência a um homem que chega cercado por dinheiro, terra e expectativas. A diferença é que “Da Toscana, com Amor” não tenta transformar essa referência em exercício literário pesado. O filme prefere a simplicidade. Elisa e Lorenzo se aproximam porque precisam lidar com questões práticas, e o romance nasce no meio de problemas bem terrenos: propriedade, herança, sobrevivência financeira e reputação.

Laura Chiossone conduz tudo com ritmo agradável. A direção não força sofisticação onde há uma comédia romântica assumidamente popular, mas também não trata o público como distraído. A Toscana aparece bonita, sim, mas não fica reduzida a paisagem de cartão-postal. Os cafés, as ruas e a própria Le Giuggiole funcionam como espaços onde os personagens se esbarram, negociam, se expõem e perdem um pouco do controle. A beleza do lugar contrasta com a dureza das decisões de Elisa. Afinal, manter uma fazenda charmosa custa caro, e nenhum pôr do sol paga boleto.

Escolhas narrativas

Matilde Gioli e Cristiano Caccamo têm uma dinâmica fácil, sustentada por atritos moderados e conversas que revelam mais do que os personagens gostariam. Elisa não quer ser resgatada. Lorenzo não parece disposto a virar herói. Essa escolha torna o romance mais simpático, porque a relação entre eles não surge como mágica para tudo. Ela se constrói enquanto ambos precisam decidir o que fazer com a terra, com o passado familiar e com a imagem que projetam para os outros.

Há, evidentemente, clichês. O filme aposta em pais tentando empurrar casamento, moradores fofoqueiros, frases previsíveis e situações que já apareceram em muitas comédias românticas. Algumas passagens poderiam ter mais ousadia, especialmente quando a história repete a ideia de que a vida amorosa de uma mulher adulta é assunto coletivo. Ainda assim, o conjunto se mantém agradável porque o elenco encontra naturalidade dentro do material. A leveza não apaga os conflitos, mas impede que eles pareçam maiores do que são.

“Da Toscana, com Amor” é o tipo de filme que sabe exatamente onde pisa. Conta uma história clara, com personagens reconhecíveis e um conflito que mistura afeto, dinheiro e orgulho sem perder o humor. Ao acompanhar Elisa tentando salvar Le Giuggiole enquanto Lorenzo ameaça mudar o destino das terras vizinhas, o filme mistura uma boa medida entre romance e realidade. A graça está aí: na constatação de que até o amor, na Toscana, precisa lidar com escritura, manutenção, hóspedes e uma vizinhança incapaz de ficar quieta.


Filme: Da Toscana, com Amor
Diretor: Laura Chiossone
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também