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“Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” acompanha Tova Sullivan (Sally Field), uma viúva que trabalha à noite em um aquário de uma pequena cidade costeira, enquanto tenta lidar com a solidão, a morte do filho e uma rotina que se tornou seu último ponto de equilíbrio.

Em “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”, dirigido por Olivia Newman, Tova é uma mulher idosa que limpa o aquário local durante o turno da noite. O trabalho se resume a recolher sujeira, organizar corredores, limpar vidros e deixar tudo pronto para o público do dia seguinte. Mas, para ela, aquele emprego tem outro peso. É ali, longe das conversas da cidade e das lembranças mais dolorosas, que Tova consegue manter alguma ordem na própria vida.

Novato sem talento

A rotina dela muda depois de uma queda durante o expediente. Tova machuca o tornozelo, tenta continuar trabalhando mesmo assim, mas acaba afastada temporariamente. O aquário, então, contrata Cameron (Lewis Pullman), um rapaz sem dinheiro, sem rumo e com a van quebrada, que chega à cidade em busca de um homem que supostamente lhe deve uma quantia importante. Ele aceita o emprego mais por necessidade do que por vocação, o que logo se torna um problema.

Cameron não sabe cuidar do aquário, não entende a importância das tarefas e parece sempre um passo atrás do que deveria fazer. Tova, irritada com a falta de preparo do substituto, volta ao local para acompanhá-lo nas primeiras noites. A convivência entre os dois nasce do atrito. Ela cobra disciplina, ele tenta improvisar. Ela conhece cada canto do lugar, ele mal consegue cumprir o básico. A relação inicialmente é áspera, mas com espaço para afeto, humor e certa cumplicidade.

Criatura extraordinária

Enquanto isso, Marcellus, o polvo dublado por Alfred Molina, observa tudo de dentro do tanque. Ele vive há mais de mil dias no aquário e acompanha os humanos com uma mistura de inteligência, sarcasmo e cansaço. Marcellus se incomoda com visitantes barulhentos, crianças que batem nos vidros e funcionários desatentos. Também percebe a tristeza de Tova e, à sua maneira, tenta compreender por que aquela mulher parece carregar uma dor tão antiga.

A presença do polvo é o elemento mais curioso do filme, mas também um dos mais irregulares. Quando Marcellus comenta o comportamento humano, a história ganha leveza e um humor discreto. Há algo divertido em ouvir um animal tão sofisticado julgando a falta de educação dos visitantes, como se estivesse preso não apenas em um tanque, mas em uma longa experiência social de mau gosto. O problema é que o roteiro nem sempre sabe o que fazer com ele. Em alguns momentos, Marcellus parece essencial, em outros, fica reduzido a uma narração bonita, porém distante da ação principal.

Melancolia delicada

O centro emocional do filme está mesmo em Tova. Sally Field dá à personagem uma tristeza contida, sem transformar cada cena em sofrimento explícito. Tova é uma mulher prática, orgulhosa e resistente. Ela não quer ser tratada como frágil, não gosta de depender dos outros e esconde de suas amigas que pretende vender a casa para se mudar para uma instituição de assistência. Tova não está apenas envelhecendo, está tentando controlar a própria saída antes que alguém decida por ela.

Cameron também carrega suas feridas. Lewis Pullman interpreta o personagem como alguém perdido, impulsivo e um pouco irritante, mas nunca completamente vazio. Ele chega à cidade pensando em dinheiro, conserto de carro e sobrevivência, mas aos poucos passa a se envolver com o aquário, com Tova e com os segredos daquele lugar. Sua relação com a personagem de Sally Field se desenvolve no cotidiano: uma tarefa malfeita, uma bronca, uma conversa atravessada, uma noite de trabalho que obriga os dois a ficarem no mesmo ambiente.

Colm Meaney aparece como o dono da mercearia local e ajuda a compor o clima de cidade pequena, onde todos sabem alguma coisa sobre todos. Esse aspecto é importante porque Tova vive cercada por comentários, lembranças e suposições sobre o passado. A morte de seu filho ainda paira sobre a personagem, e o filme usa essa dor para construir o elo entre ela, Cameron e Marcellus.

Pontos altos e baixos

O ponto fraco de “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” está na forma como a história força algumas revelações. O drama começa com bons elementos: uma mulher solitária, um rapaz sem direção, um polvo observador e um aquário que funciona como abrigo emocional. Porém, conforme avança, o roteiro aposta em coincidências grandes demais para amarrar todas as pontas. A emoção existe, mas às vezes vem embalada em soluções previsíveis, quase como se o filme tivesse medo de confiar apenas na convivência entre os personagens.

Ainda assim, há qualidades difíceis de ignorar. A direção de Olivia Newman cria um ambiente acolhedor, e o aquário rende boas imagens sem parecer apenas um cenário bonito. Sally Field carrega o filme com enorme sensibilidade, Lewis Pullman traz energia ao papel de Cameron, e Alfred Molina dá a Marcellus uma voz serena, espirituosa e levemente superior, como convém a um polvo que já viu humanos demais para manter a paciência intacta.

“Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” observa seus personagens em gestos pequenos. Tova limpando corredores, Cameron tentando aprender um trabalho que não domina, Marcellus analisando tudo do tanque. Quando o filme tenta ser grandioso, perde parte da delicadeza. Quando aceita ser uma história sobre solidão, cuidado e encontros improváveis, encontra momentos sinceros. É um drama irregular, por vezes sentimental demais, mas guiado por atuações generosas e por uma ideia bonita: algumas vidas só voltam a se mover quando alguém, mesmo improvável, insiste em prestar atenção.


Filme: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
Diretor: Olivia Newman
Ano: 2026
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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