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Quando um padre cai morto diante dos próprios fiéis durante uma missa, “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out” abandona o luxo ensolarado de “Glass Onion” e mergulha numa cidade tomada por desconfiança, medo e boatos. Rian Johnson leva Daniel Craig, Josh O’Connor, Mila Kunis e Glenn Close por uma investigação que mistura assassinato, influência religiosa e disputas internas dentro de uma comunidade incapaz de esconder seus próprios segredos.

Benoit Blanc (Daniel Craig) chega ao caso depois que o padre é assassinado no altar da igreja de Nossa Senhora da Fortaleza Perpétua. A cena acontece diante de dezenas de testemunhas, o que transforma a investigação num problema público antes mesmo de existir uma linha concreta de raciocínio policial. A chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) tenta impedir que a cidade vire um tribunal improvisado, mas a circulação de rumores cresce mais rápido do que qualquer perícia. Cada morador parece ter uma teoria, um suspeito favorito ou uma história mal contada para oferecer.

Johnson conta essa primeira parte com habilidade. Em vez de correr para revelar pistas chamativas, ele deixa a tensão se espalhar pelos corredores da igreja, pelas reuniões fechadas da polícia e pelos pequenos encontros entre personagens que se conhecem há décadas. O filme entende que um assassinato cometido num espaço religioso produz um efeito diferente. Ali, ninguém teme apenas a prisão. Existe também o medo da vergonha pública, da ruína moral e da destruição de uma imagem construída durante anos.

Benoit Blanc muda o ambiente

Daniel Craig continua se divertindo bastante com Benoit Blanc. O detetive mantém aquele jeito elegante e aparentemente distraído, mas o filme usa essa excentricidade com mais controle. Aqui, Blanc fala menos do que nos capítulos anteriores e observa muito mais. Quando entra numa sala, ele não tenta dominar a conversa. Apenas escuta, interrompe alguém com uma pergunta atravessada e deixa o desconforto crescer sozinho.

Esse método funciona especialmente nas cenas com o personagem de Josh O’Connor, um jovem padre ligado à vítima. O ator interpreta alguém pressionado por todos os lados. A polícia quer respostas rápidas, moradores desconfiam dele e integrantes da igreja tentam controlar o que pode ou não ser revelado. Em vários momentos, o personagem parece prestes a perder o equilíbrio emocional, principalmente quando documentos internos da paróquia começam a desaparecer ou aparecem incompletos dentro da investigação.

Existe uma sequência excelente em que Blanc tenta conversar com funcionários da igreja enquanto um grupo desesperado tenta esconder arquivos administrativos num gabinete minúsculo. Johnson filma o caos de forma muito engraçada. Gente tropeça em caixas, muda versões da história em segundos e tenta parecer tranquila enquanto claramente está entrando em pânico. É um humor menos exagerado do que em “Entre Facas e Segredos”, mas muito mais afiado.

Uma cidade sufocada por versões

Mila Kunis encontra um bom espaço como Geraldine Scott. Sua personagem não possui o brilho teatral de Blanc, mas carrega o peso mais ingrato da história. Ela precisa administrar imprensa, moradores irritados, pressão política e uma investigação que ameaça atingir figuras importantes da cidade. Enquanto Blanc trabalha observando detalhes, Geraldine vive apagando incêndios administrativos para impedir que o caso saia do controle.

Glenn Close aparece como uma figura influente dentro da comunidade religiosa. Sua personagem conhece os bastidores da igreja, entende como certas alianças funcionam e percebe rapidamente o estrago que aquele assassinato pode causar. A atriz trabalha muito bem o silêncio. Em várias cenas, basta uma pausa ou um olhar mais longo para indicar que existe alguma informação sendo escondida.

O roteiro faz bem ao transformar a própria igreja num espaço de tensão constante. A paróquia deixa de ser apenas cenário e vira uma instituição acuada. Portas passam a ser trancadas, arquivos mudam de lugar e determinados funcionários começam a agir como seguranças improvisados. Há uma sensação permanente de vigilância, como se todos soubessem que qualquer conversa pode alterar o rumo da investigação.

Johnson também diminui a obsessão por grandes reviravoltas mirabolantes. O suspense cresce através de pequenas alterações de comportamento. Um personagem muda um depoimento. Outro evita entrar numa sala específica. Um registro aparece rasurado. Uma testemunha desaparece por algumas horas. O filme constrói sua tensão em cima dessas pequenas rachaduras.

Menos exibido e mais eficiente

“Vivo ou Morto” abandona parte do colorido exagerado dos filmes anteriores. A fotografia aposta em interiores escuros, corredores estreitos e salas administrativas abafadas. Isso aproxima o longa de thrillers policiais mais antigos, principalmente aqueles em que investigadores passam mais tempo conversando e observando pessoas do que correndo atrás de perseguições mirabolantes.

Rian Johnson também demonstra maturidade ao controlar o ritmo. O diretor sabe quando alongar uma conversa desconfortável e quando interromper uma informação importante para aumentar a curiosidade do público. Há momentos em que o filme segura certos detalhes por tempo suficiente para transformar simples diálogos em cenas de enorme tensão.

“Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out” não abandona completamente o espírito divertido da franquia. Benoit Blanc continua sendo um investigador capaz de desmontar uma sala inteira apenas com educação excessiva e perguntas aparentemente inocentes. Daniel Craig entende perfeitamente o tom do personagem e evita transformá-lo numa caricatura ambulante.

O mistério mais sóbrio, mais amargo e até mais humano do que os anteriores. Rian Johnson troca o espetáculo extravagante por personagens tentando salvar reputações, esconder erros e preservar espaços de poder dentro de uma cidade pequena demais para suportar tantos segredos ao mesmo tempo.


Filme: Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
Diretor: Rian Johnson
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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