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Baseado na peça de Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, “Alabama Monroe“ é um drama belga de Felix van Groeningen que, após assistir ao espetáculo, disse ter chorado por horas. O longa-metragem passou por muitas mudanças no enredo para conseguir ser adaptado para as telas: de diálogos à personalidade da protagonista, Elise (Veerle Baetens). O filme acompanha diversas linhas temporais, mostrando o começo, meio e fim do casal formado por ela e Didier (interpretado na peça e no filme por Heldenbergh).

A história não é narrada de forma linear e começa com o casal recebendo a notícia de que sua filha, Maybelle (Nell Cattrysse), está com câncer. O tratamento é complicado e a menina fica bastante debilitada. Então, o filme volta ao início da história, mostrando o começo da relação entre Elise e Didier.

A chegada de Maybelle

Aproximados pela paixão pela cultura estadunidense, Didier canta em uma banda de country, enquanto Elise é tatuadora. Suas inúmeras tatuagens com nomes de rapazes mostram que Elise preza por liberdade, paixão e rebeldia. A química com Didier é instantânea e intensa; logo, eles passam a ter encontros constantes. Mas a notícia da gravidez chega como um furacão para Didier, que morava em um trailer em seu rancho, com uma casa inacabada no quintal. Sem planos para o futuro, uma criança era tudo que ele não esperava.

No entanto, após sair de forma intempestiva no meio de uma discussão com Elise, ele retorna com alguns amigos para finalizar a casa, afinal, uma criança não pode crescer em um trailer. Logo, Elise, que estava apenas de passagem na vida de Didier, permanece, e ele ganha uma tatuagem na pele da jovem. Elise, que também demonstra talento musical, entra na banda, e tudo passa a girar em torno da paixão pela música country.

Perda irreparável

Quando Maybelle nasce, é recebida por todo o grupo de amigos e vira uma espécie de mascote. O filme vai e volta no passado e no presente, mostrando como a relação de Didier e Elise aconteceu de forma orgânica, natural, construída com paixão real, atração mútua e gostos em comum. Maybelle chega para complementar esse amor, em uma história quase perfeita. Praticamente nada poderia dar errado, até que dá. O diagnóstico de Maybelle aos seis anos de idade é devastador. Elise passa a dedicar todas as horas do seu dia aos cuidados da filha, enquanto Didier busca estar presente ao máximo também.

Todas as alternativas disponíveis são testadas, mas Maybelle fica enfraquecida pela carga intensa dos tratamentos médicos e não resiste. Ela morre, deixando o lar incompleto e o casal dilacerado. O sofrimento é quase insuportável. Didier fica arrasado, mas tenta manter o equilíbrio e seguir a vida. Elise fica presa ao luto. Não consegue superar a perda inestimável da filha. O conflito provoca um abismo irreparável no casal, que não consegue mais se comunicar.

Sobreviver ao luto

Enquanto Didier busca racionalizar seu luto, culpando autoridades pela falta de avanço nos tratamentos e a ciência pela incapacidade de curar sua filha, Elise ainda tenta se conectar com Maybelle por meio do fio de fé que lhe resta, buscando alento espiritual e sinais na natureza. A forma como Elise lida com isso provoca repulsa em Didier. Ela fica completamente desalentada sem o apoio dele. Eles não conseguem se entender, nem sentir o luto da mesma forma. A perda da filha também mata a conexão que existia entre o casal.

O longa-metragem é devastador e, em alguns momentos, parece querer provocar o sofrimento no espectador. Mas, ao mesmo tempo, é sensível e relacionável. Afinal, as pessoas encaram o luto de várias formas, e o filme retrata isso. Também expõe as dificuldades enfrentadas por um casal que perde um filho. Muitos jamais conseguem se recuperar do trauma.

Se por um lado a atuação de Baetens é a alma do filme, é Heldenbergh o fio condutor da história. É ele quem mantém tudo em movimento até o final. “Alabama Monroe“ conseguiu se projetar para fora da Bélgica, alcançando um público mundial. Posteriormente, Groeningen lançou “Belgica“ e “Querido Menino‘“, que também tiveram grande alcance de público.


Filme: Alabama Monroe
Diretor: Felix van Groeningen
Ano: 2012
Gênero: Drama/Musical/Romance/Tragédia
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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