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Victor Frankenstein (Oscar Isaac) trabalha sozinho, cercado por instrumentos, anotações e uma convicção difícil de abalar. Ele acredita que pode vencer a morte com técnica e persistência. Em “Frankenstein”, essa ambição ganha forma quando ele finalmente consegue dar vida a um corpo construído peça por peça. O que começa como um feito extraordinário rapidamente se transforma em um problema. A criatura não responde como um experimento, mas como alguém que tenta entender o mundo sem qualquer preparo.

Interpretado por Jacob Elordi, o ser criado por Victor não surge como ameaça, mas como uma presença confusa, quase infantil em seus primeiros movimentos. Ele observa, tenta imitar comportamentos e busca algum tipo de conexão. O problema é que sua aparência causa rejeição instantânea, e isso define o rumo da história. Cada tentativa de aproximação resulta em medo ou violência, o que empurra a criatura para uma posição cada vez mais isolada.

Problema incontrolável

Victor, que antes controlava cada etapa do experimento, passa a correr atrás do próprio erro. Ele tenta orientar a criatura, impor limites, entender suas reações. Nada funciona como planejado. O laboratório, antes símbolo de domínio, vira apenas o ponto onde tudo começou a dar errado. A partir do momento em que a criatura sai daquele espaço, o alcance do problema cresce e foge das mãos do cientista.

Há um certo desconforto em ver Victor tentando justificar suas escolhas. Ele não abandona a ideia de que fez algo grandioso, mas também não consegue ignorar o impacto do que colocou no mundo. Essa ambiguidade mantém boa parte do filme. Ele não é um vilão clássico, tampouco alguém digno de defesa fácil. É um homem que foi longe demais e agora precisa lidar com algo que não entende completamente.

A presença de um terceiro elemento, vivido por Christoph Waltz, ajuda a deslocar o conflito para além da relação entre criador e criatura. Esse personagem observa, questiona e, em certos momentos, pressiona Victor a responder por seus atos. Ele funciona como uma espécie de olhar externo, alguém que percebe o tamanho do problema antes mesmo do próprio cientista admitir.

Terror discreto e personagens complexos

O filme também encontra espaço para um tipo de horror mais silencioso. Não há pressa em transformar a criatura em uma ameaça convencional. O incômodo vem justamente do oposto: ela tenta ser aceita, tenta existir de forma simples, e falha repetidamente. Isso cria uma tensão desconfortável, porque o espectador entende o motivo das reações ao mesmo tempo em que percebe a solidão daquele ser.

Del Toro mantém seu interesse por personagens deslocados, figuras que não encontram lugar no mundo e acabam pagando por isso. Aqui, essa ideia aparece de forma mais contida, menos estilizada do que em outros trabalhos do diretor. Ainda assim, há cuidado na construção visual e na forma como a narrativa acompanha o desgaste emocional de Victor e da criatura.

Teimosia de Victor

Existe até um certo humor amargo em alguns momentos, especialmente na insistência de Victor em tratar tudo como um problema técnico. Ele tenta corrigir como se estivesse lidando com uma máquina defeituosa. A realidade insiste em mostrar outra coisa: ele criou alguém, não algo. E isso muda completamente as regras do jogo.

À medida que a situação se complica, as opções diminuem. Victor precisa agir, mas cada decisão parece pior que a anterior. A criatura continua ali, tentando encontrar sentido em um mundo que a rejeita desde o primeiro instante. Não há soluções simples, nem saídas confortáveis. O filme segue nesse impasse, sustentando a tensão sem recorrer a atalhos.

“Frankenstein” é um filme sobre responsabilidade, mas contado através de ações concretas, escolhas erradas e consequências que não podem ser evitadas. Quando Victor decide criar vida, ele abre uma porta que não sabe fechar. E a criatura, ao atravessar essa porta, passa a existir em um espaço onde ninguém está disposto a recebê-la.


Filme: Frankenstein
Diretor: Guillermo Del Toro
Ano: 2025
Gênero: Drama/Fantasia/Ficção Científica/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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