“A Outra”, dirigido por Justin Chadwick, começa quando a família Boleyn tenta transformar a falta de herdeiro homem de Henrique VIII em avanço social. Anne Boleyn, interpretada por Natalie Portman, é empurrada para perto do rei, vivido por Eric Bana, mas quem atrai primeiro a atenção dele é Mary, papel de Scarlett Johansson. A troca muda o plano do pai e do tio das irmãs: Mary já é casada, mas o interesse do rei torna esse casamento secundário; Anne perde espaço, depois volta a disputá-lo. O conflito nasce desse arranjo simples e cruel: duas mulheres entram na corte como aposta familiar, e cada escolha de Henrique altera casamento, gravidez, posição social e risco político.
O melhor do longa está nessa engrenagem inicial. A ação não depende de grandes discursos. Alguém calcula, alguém obedece, alguém é deslocado. O rei deseja Mary, então William Carey deixa de importar na prática. Mary engravida, então seu corpo passa a carregar uma expectativa que não pertence só a ela. Anne é afastada, depois retorna com outro domínio do ambiente da corte. Cada passo muda a posição de uma irmã diante da outra.
A aposta da família
O pai das Boleyn e o Duque de Norfolk funcionam como operadores de um negócio familiar. Eles não tratam Anne e Mary como filhas em busca de casamento, mas como acesso possível ao rei. Essa escolha dá ao drama sua linha de causa e efeito: Henrique precisa de um herdeiro; a família precisa de status; as irmãs precisam sobreviver dentro de decisões tomadas por homens.
Mary ocupa primeiro o lugar que deveria ser de Anne. O filme ganha algum interesse quando deixa essa inversão produzir consequências práticas. Mary não escolhe livremente o novo lugar na corte. Ela já tem marido, mas a presença de Henrique reorganiza o quarto, o leito, a rotina e as alianças. A gravidez, em vez de encerrar a disputa, abre outra etapa. Enquanto Mary fica limitada pela gestação, Anne ganha chance de ocupar o espaço deixado pela irmã.
Esse deslocamento funciona porque não exige que Mary e Anne sejam apenas rivais. Elas dependem da mesma família, circulam no mesmo palácio e são medidas pelo mesmo critério: sua utilidade para a sucessão. Quando uma sobe, a outra perde acesso. Quando uma se aproxima do rei, a outra fica vulnerável. A relação entre as duas passa por afeto, ressentimento e cálculo, mas o filme tende a organizar tudo em movimentos muito diretos, quase sempre ligados à pergunta sobre quem controla Henrique e quem será descartada depois.
Política comprimida
A segunda parte apressa os fatos históricos. O casamento de Henrique com Catarina de Aragão, a pressão por anulação, o conflito religioso e a formação de outra ordem institucional aparecem menos como processo político e mais como extensão do desejo do rei por Anne. Essa escolha mantém o foco nas irmãs, mas cobra preço. O contexto Tudor vira uma sequência de obstáculos para o romance, para a gravidez e para a legitimidade, quando poderia pesar mais nas decisões de cada personagem.
Justin Chadwick trabalha com a corte como espaço de acesso restrito. Salas, corredores, quartos e leitos importam porque determinam quem chega perto do rei, quem espera, quem ouve uma ordem e quem fica fora. O figurino e a direção de arte não são apenas decoração quando ajudam a marcar essa hierarquia: a roupa indica presença pública, a cama concentra risco, o palácio transforma relações familiares em assunto de Estado. Quando o filme se apoia nesses elementos, a disputa fica clara sem precisar de explicação adicional.
O problema surge quando a condensação histórica força atalhos. A criação de risco político ocorre rápido demais em alguns trechos. Anne passa de peça familiar a possível rainha, e o filme precisa atravessar religião, casamento, herança e punição sem sempre dar tempo para que cada mudança respire. O drama não perde sua linha principal, mas reduz a escala do conflito: a crise de um reino cabe, muitas vezes, em uma briga de acesso ao quarto do rei.
As atuações acompanham essa divisão. Natalie Portman assume uma Anne que insiste, recua e calcula diante de cada mudança de posição. Scarlett Johansson sustenta uma Mary menos ativa, presa ao casamento, ao leito e à dependência do favor real. Eric Bana faz de Henrique uma presença que move os outros, embora o personagem raramente ganhe dimensão própria além do desejo, da irritação e da necessidade de herdeiro. Essa limitação não destrói o filme, mas define seu alcance: Henrique é o centro do poder, não o centro dramático.
“A Outra” funciona melhor quando aceita a lógica do melodrama de corte. O pai negocia, o tio pressiona, o rei escolhe, a irmã preterida volta ao jogo, a esposa legítima permanece como obstáculo. O encadeamento é claro. A mulher que parece protegida pelo favor real descobre que esse favor dura enquanto produz vantagem. A que parece fora do jogo volta quando entende como a corte recompensa controle, aparência e espera.
A crítica ao filme passa por esse ponto. Como drama histórico, ele simplifica demais a política de Henrique VIII. Como disputa familiar, encontra uma linha visível: a ascensão das Boleyn depende de transformar parentesco em estratégia e gravidez em moeda. O fechamento mais honesto não está em uma conclusão sobre a Inglaterra ou sobre Anne, mas na imagem recorrente de mulheres entrando e saindo de quartos onde outros decidem seu valor.

