A van para em Nova Jersey com cães demais para uma abordagem comum. Douglas Munrow está ferido, vestido em traje de drag, e a polícia tenta entender o que ele leva naquele veículo além dos animais. Em “Dogman”, Luc Besson entrega esse homem a Caleb Landry Jones, cercado por uma matilha que serve de família, abrigo e arma. Jojo T. Gibbs aparece como Evelyn, a psiquiatra chamada para ouvi-lo, e Christopher Denham surge no passado de Douglas, numa casa onde o pai usa cães e filhos como matéria de brutalidade.
Douglas fala e a infância entra na sala. O pai mantém cães ligados a rinhas. O menino tenta protegê-los. O castigo vem no canil, fechado com os animais, como se fosse possível expulsá-lo da casa e deixá-lo entre grades. Besson não economiza feridas. O irmão hostil, a violência, a perda de parte de um dedo, o corpo marcado, as pernas sem movimento pleno. A cada lembrança, a sala com Evelyn perde espaço para mais uma origem.
Um cachorro leva uma prova física às autoridades. Douglas passa por instituições de acolhimento. Salma aproxima o menino do teatro, da leitura e de Shakespeare. Quase nada fica sem explicação. A maquiagem, o palco, o apego aos cães, a raiva, a delicadeza, os furtos. Tudo recebe uma marca de nascimento. Às vezes bastaria Douglas sentado ali, diante de Evelyn, naquela roupa, com os cães ainda pesando do lado de fora.
Entre grades
Os cães ganham força quando deixam de servir apenas ao consolo. Eles obedecem a comandos, circulam por corredores, buscam objetos, entram em casas de gente rica, levam joias. Depois que Douglas perde a estrutura formal de um canil, instala sua vida com os animais em uma escola abandonada. O lugar parece abrigo, esconderijo e posto de comando. Salas vazias, corredores, cães passando de um lado para outro. A fantasia de controle de Douglas precisa desse chão.
Caleb Landry Jones não tenta tornar Douglas discreto. Ele murmura, se encolhe, canta, ameaça, comanda os animais. Às vezes chega perto do maneirismo, mas a contenção provavelmente mataria o personagem. Douglas vive entre cadeira de rodas, escola abandonada, furtos feitos por cães e apresentações de drag. Jones deixa o incômodo aparecer. Melhor do que aparar tudo até caber numa psicologia limpa.
Besson também empilha. O investigador de seguros Ackerman se aproxima dos furtos. El Verdugo aparece como ameaça criminosa. Homens armados chegam ao esconderijo. O interrogatório continua, o trauma familiar continua, o cabaré continua, o thriller de assalto entra pelas janelas das casas ricas. A matilha atravessa tudo, às vezes com mais clareza que os personagens humanos.
Quando os cães entram numa casa para roubar, cercam uma ameaça ou respondem a um comando de Douglas, a cena não precisa pedir desculpa por ser absurda. Ela acontece. Um cão carregando algo, uma porta vencida, uma joia levada, um corredor ocupado por patas. O filme fica menos pesado quando para de explicar Douglas por alguns minutos e deixa os animais cumprirem uma tarefa.
No palco
Douglas sobe ao palco para cantar Édith Piaf, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe. O cabaré não vem como alívio. A luz, a maquiagem e a música de Éric Serra expõem o personagem de outro jeito. O vestido, a voz, o corpo ferido e a plateia bastariam. Besson, muitas vezes, não deixa bastar. A trilha engrossa, o melodrama insiste, a cena passa a se defender antes que alguém a ataque.
O acúmulo pede piedade demais. A infância brutal pede. A deficiência pede. A solidão com os cães pede. O palco pede. A marginalidade pede. Douglas também rouba, arma defesas, enfrenta criminosos e usa a matilha como extensão de sua vontade. Esses atos deixam o personagem mais áspero do que a versão protegida pelo sofrimento. Besson prefere cercá-lo de justificativas, uma depois da outra.
Há uma zona ruim na maneira como certos grupos entram em cena. Gangsters latinos aparecem perto da caricatura. Deficiência, queeridade, pobreza, violência doméstica e crime se juntam em Douglas como se cada diferença precisasse aumentar o espetáculo. O olhar de Besson tem fascínio. Fascínio não basta. Em alguns momentos, a diferença vira vitrine, e a vitrine vem iluminada demais.
“Dogman” passa perto do ridículo várias vezes. Em outras, abraça esse risco e segue. A escola abandonada, a van, o canil, a sala com Evelyn, as joias roubadas por cães, os números de palco, tudo fica no mesmo amontoado. Jones segura mais do que o roteiro lhe entrega. Os cães também. Besson pesa na origem, pesa na música, pesa na proteção de Douglas como mártir armado de matilha.
A van da primeira cena continua melhor do que muitas respostas oferecidas depois. Um homem ferido. Um vestido. Cães demais. A polícia tentando transformar aquilo em ocorrência. “Dogman” explica mais do que precisa, mas não apaga completamente essa entrada. A porta fica aberta, com latidos do outro lado.

