A bengala aparece antes da faca. Robert McCall chega a “O Protetor Capítulo Final” ferido, sangrando, recolhido por um policial e entregue a um médico numa cidade pequena do sul da Itália. Antoine Fuqua põe Denzel Washington, Dakota Fanning, David Denman e Eugenio Mastrandrea numa história direta. McCall, ex-agente do governo e assassino aposentado só no papel, tenta ficar quieto. Ao redor dele, moradores lidam com criminosos locais que cobram, ameaçam e mandam. A pausa dura pouco.
Washington sabe esperar. Senta no café, olha a praça, calcula a escada, aceita ajuda de quem ainda não sabe quem ele é. O passado não precisa voltar em bloco. Aparece no modo como ele apoia o corpo, no tempo que leva para subir, na demora antes de uma resposta. A idade entra no passo. Não como pedido de pena. Como peso.
Fuqua segura por alguns minutos a vontade de castigo. A cidade ajuda. Igreja, comércio, balcão, mercado, ruas estreitas. Rostos voltam. O estrangeiro ferido encontra um lugar para sentar, um médico que não pergunta demais, um policial que o leva até lá. Mas ali qualquer ameaça tem plateia. Um comerciante pressionado continua comerciante no dia seguinte. A praça não fecha depois da intimidação.
No café
McCall se prende à repetição. Chá, balcão, escadaria, conversas curtas. Washington fica bem nesse registro baixo. Fala pouco. Espera mais do que reage. A gentileza vem primeiro, mas nunca limpa a possibilidade de violência. Ele pode estar sentado, e a sala já sabe que algo foi medido.
Os mafiosos entram por outro caminho. Pressionam comerciantes, ameaçam famílias, encurralam o policial local. São brutais sem muito desvio. A raiva vem fácil. Depois de algumas aparições, porém, a cidade perde gente. Os moradores deixam de parecer donos de rotinas próprias e ficam esperando a próxima visita, o próximo aviso, o próximo corpo.
A Itália ao redor é bonita, quase arrumada. Costa, igreja, vitrais, café, gente decente, homens cruéis. O lugar tem calor, mas parece protegido por vidro. A sujeira cabe em poucos homens, reconhecíveis de longe. Isso facilita a marcha de McCall. Também achata o que poderia incomodar mais. A Camorra aparece menos entranhada no cotidiano do que alinhada diante dele, pronta para ser retirada.
Dakota Fanning chega por uma porta lateral. Emma Collins, agente da CIA, recebe uma pista de McCall e segue dinheiro, drogas, investigação internacional. A lembrança de “Chamas da Vingança” aparece antes que a personagem encontre espaço de verdade. Quando Emma se desloca por esse tabuleiro maior, a cidade italiana esfria. O telefone que liga McCall à CIA tira a atenção do policial ameaçado, da família exposta, do comerciante pressionado, do café onde todos reparam quem acabou de entrar.
Na escadaria
A ação vem seca e sangrenta. McCall avisa, observa, mata. Facas, armas de fogo, portas, carros e cantos apertados entram no serviço. A violência bate forte, mas nem sempre surpreende. Algumas mortes parecem confirmar o que já estava garantido desde que ele olhou para o adversário. O medo não está em saber se McCall vence. Está no que precisa ser arrebentado até que ele possa atravessar a praça de novo.
Washington impede que McCall vire só ferramenta. Há secura no rosto, calma incômoda, uma velhice que não pede desculpa. Quando ele anda devagar, o gesto pesa. Quando elimina homens como quem termina uma tarefa, o impacto cai um pouco. Os criminosos parecem assustados demais para que a cena deixe dúvida.
“O Protetor Capítulo Final” chega com jeito de despedida para McCall. O descanso, porém, exige remoção. Para ele se sentar outra vez no café, alguém precisa sair da praça. Para a cidade respirar, sua violência passa por escadas, quartos, ruas e carros. Fuqua não esconde a troca. Também não mexe nela por muito tempo. A próxima porta se abre.
Fica aquele homem ferido diante de uma cadeira ao sol. O terceiro “O Protetor” se espalha demais quando corre atrás da conspiração e pisa melhor quando retorna aos degraus. McCall não precisa defender o mundo inteiro. Precisa de um balcão, de um médico que o remende, de um policial acuado, de uma família ameaçada. Precisa subir a escada antes que a faca volte.

