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O amor pode ser como os perfumes, que evolam sem que se perceba, conquanto sempre deixem seu rastro de fragrâncias ora adocicadas, ora cítricas, quase azedas; como as cores, luminosas feito o sol numa tarde de verão, ou tão lúgubres e escuras que tingem de morte o que deveria sembrar apenas o existir mesmo. Dias de caos dão lugar às noites frias em que a cama parece um deserto branco de lençóis que a fadiga do corpo ajuda a vencer. No entanto, sempre chega a hora em que a solidão renuncia a suas eventuais delicadezas e põe de fora as garras, sabendo exatamente por onde começar seu ataque. Relações são quase sempre pautadas por crises, e não é incomum encontrar gente que diga ser adepta de um súbito gelo a fim de que a chama do amor arda outra vez, com mais força. Sempre buscado, o sentimento amoroso é uma quimera ora plausível, ora absurda e como uma produção típica Hallmark, “Meu Casamento Preferido” bate na tecla da fantasia, evocando um aspecto de conto de fadas, situando-a no contexto de uma sociedade marcada por desencontros — apenas um espelho baço da vida como ela é. Mel Damski capta a imagem batida de amantes que envenenam-se numa realidade tirana e acham-se um na outra, um conto de fadas pós-moderno que alfineta a idealização dos relacionamentos e a maneira como as pessoas buscam calor na solidão deste insano século 21.

A fórmula do amor

Enredos com um fundo moralizante, de onde espera-se que o público tire lições para sua vida, fazem relativo sucesso graças à maneira como de uma premissa individual chega-se, guardadas as medidas das coisas, a inferências universais, cujo alcance vai muito além do óbvio. O cotidiano, a realidade, o chão do mundo ficam pequenos, faltos de sentido se encarados à luz das histórias vesanamente líricas do cinema. Damski verte o roteiro de Keith Calabrese, Gregg Rossen e Brian Sawyer numa fábula escapista sobre um romance que sai da névoa do irracional e toma corpo durante os preparos da cerimônia que irá sacramentar o enlace de duas pessoas. A dura lógica cartesiana de Tess Harper, a mocinha interpretada por Maggie Lawson, é suavizada pelo charme desafetado de Michael, de um Paul Greene competente em afastar caricaturas. O diretor acha um jeito de elaborar arcos dramáticos com leveza, e tira todo proveito que pode de seus atores, afinados e bonitos. Dá certo.


Filme: Meu Casamento Preferido
Diretor: Mel Damski
Ano: 2017
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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