O erotismo é, possivelmente, filho de Eva. Nada mais justo que atribuir à primeira mulher do Gênesis bíblico a poderosa relação entre o erotismo e a religião. Para Georges Bataille, “O erotismo só pode ser considerado se, considerando-o, é o homem que é considerado. […] não pode ser considerado independentemente da história das religiões”. É Bataille quem também diz: “A atividade sexual de reprodução é comum aos animais sexuados e aos homens, mas, aparentemente, apenas os homens fizeram de sua atividade erótica, ou seja, uma busca psicológica independente do fim natural dado na reprodução”.
Para os humanos, o corpo, para além de exercer sua função natural, com todos os seus órgãos trabalhando para a sua manutenção e maturidade sexual, com o fundamental objetivo de preservação da espécie, tem todas as suas partes, potencialmente, isoladas ou ao mesmo tempo, a serviço do sexo. O corpo humano se torna, na experiência humana, um campo privilegiado do erotismo e fim da atividade erótica. Mesmo que Eva não tivesse comido o fruto proibido (uma metáfora para a descoberta sexual), ela e seu par, Adão, teriam sido impelidos ao sexo, uma vez que a visão e a proximidade de seus corpos fariam o papel natural de atração. Deixados no jardim juntos, com atribuições muito equilibradas e atividades iguais, a rotina de suas ações e a liberdade para realizar quaisquer coisas, mesmo que a culpa os atrapalhasse do fim óbvio, fariam com que eles fossem, em algum momento, tentados a se tocar e a sentir o universo do erotismo impulsionado pela atração corporal.

É justamente nesse ponto, em que o erotismo se dissocia de sua função natural e se torna experiência, que o romance “Olhos Azuis, Cabelos Pretos”, de Marguerite Duras, se instala. Ela explora o erotismo em todas as nuances e elabora um complexo cenário para explicar a condição humana nos limites do sentimento e do desejo. No café à beira-mar, uma jovem é atraída por um jovem solitário simplesmente porque ele está triste e chora. Eles conversam, ela também chora. A cena, por si só, é comovente, mas também guarda um erotismo latente. Sabemos que dois que se encontram assim, em um livro, só podem ser personagens de uma história romântica ou, nesse caso, erótica. Choram mais enquanto estão juntos. Nenhum jamais viu o outro antes, e isso é importante, pois sentem que podem chorar juntos, e o choro é a metáfora para a ausência de controle. Vítimas de suas necessidades e da expectativa de alegria no outro, qualquer outro que sustente o desejo, eles dão vazão às suas incertezas chorando. O jovem propõe à jovem que ela vá morar num quarto de sua casa; ele procura uma mulher para dormir ao seu lado. Oferece pagar pela companhia, para que ela fique nua, deitada, no centro do quarto, sobre lençóis brancos espalhados pelo chão e iluminada por uma lâmpada amarela e fraca de um lustre.
Aqui entram as funções de Adão e Eva no tênue fio inevitável do erotismo. Durante dias, a jovem visita o jovem em seu quarto quase vazio, deita-se nos lençóis, cobre seu rosto com um véu. Eles não têm intimidade, não se tocam, não se beijam, observam os seus olhos azuis, cabelos pretos, e os signos dos corpos. Ela é intrinsecamente maravilhosa, Duras deixa claro. Ele é um homem esbelto e interessante. Tratam-se mal, porque o desejo tem dessas crueldades. Ele é sádico, como um prenúncio de Sade: “Não há melhor meio de se familiarizar com a morte do que aliá-la a uma ideia libertina”, e “não há libertino um pouco ancorado no vício que não saiba o quanto o assassinato impera sobre os sentidos”, quer morrer e, talvez, matar. Ele é sádico não por violência explícita, mas por desejar a experiência limite em que o erotismo toca a morte. Mas, assim como o par dos primórdios bíblicos, o isolamento, como em um experimento mental indicado pela literatura, faz com que os dois sejam impelidos um ao outro e aos seus corpos. O erotismo é a força magnética capaz de induzir o humano ao sexo sem ressalvas e aos prazeres individuais que independem de sua função natural primeira. O corpo nu nos lençóis de Duras, o rosto coberto pelo véu lascivo, é a força magnética para a ação. A vitalidade da juventude de ambos fará o resto.
Marguerite Duras é incrivelmente sensível. Seu texto é poesia e teatro. O que Duras constrói não é uma progressão narrativa, mas uma repetição de situações, como se o desejo precisasse voltar sempre ao mesmo ponto para se sustentar. Ela simula uma peça escrita na forma de romance e coloca os atores para narrarem episódios, o que é inusitado e sofisticado. O seu estilo é impecável, e as imagens, formidáveis. Mas existe um trunfo nessa edição brasileira: a tradução. Muito competente, Adriana Lisboa cria um livro único, porque tem talento de sobra para transpor para a nossa língua os elementos líricos do estilo maduro de Duras. O resultado é fantástico. Um livro perfeito.
Para todos os gêneros, o livro de Duras funciona. A história é um intrincado triângulo amoroso (ele é gay e sente ter perdido o homem por quem se apaixonou, a quem pertencem os olhos azuis cabelos pretos do título) embutido numa narrativa densa e complexa. Em nenhum momento Duras esbarra em fórmulas fáceis de gêneros literários consolidados e de entretenimento, como os romances policiais ou de suspense. A história é dramática na medida certa e, para além disso, trata de temas caros à psicologia. Nele, a morte é uma metáfora para apaixonar-se. Morre quem percebe que ama alguém. E o choro é a vazão do sentimento de desespero pelo fato de não poder fazer uma escolha.
Em Duras, o erotismo não se consuma, mas também não se suspende. Ele permanece como tensão, como uma força que não precisa do ato para existir. Entre o véu, o choro e a distância dos corpos, o desejo se instala como aquilo que escapa à escolha e à vontade, algo anterior à própria linguagem. Se, no Gênesis, o fruto inaugura a culpa, em “Olhos Azuis, Cabelos Pretos” é o olhar, ou a impossibilidade dele, que inaugura o desejo. E talvez seja esse o ponto mais radical de Duras: mostrar que o erotismo não nasce do toque, mas daquilo que falta a ele.

