Durante muitas décadas, a humanidade enxergou a velhice sob lentes de estereótipos. A idade avançada sempre foi associada à fragilidade, à inutilidade, à infantilização, e, em alguns casos, à sabedoria quase mítica. Mas esse olhar vem sendo transformado. A internet ampliou vozes que antes eram mediadas por terceiros. Pessoas com deficiência, neurodivergentes, idosos e diferentes minorias passaram a ocupar o centro das próprias narrativas. Ainda é um processo em curso, com avanços e contradições, mas já é possível perceber uma mudança encorpada na forma como essas experiências são retratadas.
“Thelma” é uma comédia de ação que dialoga diretamente com esse contexto. Lançado em 2024, o filme foi escrito e dirigido por Josh Margolin e nasce de uma experiência pessoal do cineasta com sua avó, que quase foi vítima de um golpe telefônico, um tipo de crime bastante comum, inclusive no Brasil. São ligações em que criminosos se passam por parentes para pedir dinheiro com urgência. A história se passa nos Estados Unidos, mas poderia acontecer em qualquer lugar. A familiaridade com esse tipo de fraude aproxima o espectador da trama.
E se alguém reagisse?
Se as principais vítimas desses golpes costumam ser idosos, muitas vezes vistos como “ingênuos”, Margolin parte de uma pergunta simples: e se alguém decidisse reagir? No filme, Thelma, uma senhora de mais de 90 anos, recebe uma ligação de um golpista que se passa por seu neto e consegue arrancar dela 10 mil dólares. Ao descobrir que o jovem está seguro, ela procura a polícia, mas percebe que as chances de recuperar o dinheiro são mínimas.
Em vez de aceitar o prejuízo, Thelma decide investigar por conta própria e ir atrás dos responsáveis. Mesmo sob a vigilância constante da família, especialmente do neto Daniel (Fred Hechinger), ela encontra uma forma de escapar e iniciar sua jornada.
Uma aventura improvável
A partir daí, “Thelma” assume abertamente a estrutura de um filme de ação, ainda que em menor escala e com muito senso de humor. A protagonista, inspirada por ícones como Tom Cruise na franquia “Missão: Impossível“, segue um caminho cheio de obstáculos. Na aventura, ela recruta Ben (último papel de Richard Roundtree), um velho conhecido que, apesar da resistência inicial, acaba se envolvendo na missão, especialmente depois que Thelma pega à força seu scooter motorizado.
Humor sem caricatura
Thelma e Ben não são ridicularizados nem tratados como caricaturas. Suas limitações físicas existem e são parte essencial da narrativa, mas não os definem. O humor nasce das situações e da forma como eles lidam com os obstáculos, e não da idade em si.
A dupla enfrenta dificuldades reais, mobilidade reduzida, reflexos mais lentos, dependência de recursos simples, mas compensa tudo isso com persistência, criatividade e uma dose considerável de teimosia. A jornada alterna momentos de tensão leve com situações genuinamente engraçadas, sem perder o respeito pelos personagens.
Uma protagonista tardia e marcante
À frente de tudo está June Squibb, em seu primeiro papel como protagonista no cinema após uma longa carreira como coadjuvante. Sua interpretação é o eixo do filme. Precisa no timing cômico, mas também carregada de humanidade. Ela constrói uma personagem que não busca simpatia, mas conquista o público pela autenticidade.
Com um roteiro enxuto, direção segura e atuações bem calibradas, “Thelma” é uma comédia que vai além do entretenimento. Ao brincar com códigos do cinema de ação e reposicionar uma protagonista idosa no centro da narrativa, o filme consegue ser leve sem ser superficial, e atual sem parecer didático.

