No fim dos anos 1970, Reinaldo Moraes vivia em Paris com uma bolsa de estudos, morava sozinho e tentava escrever “Tanto Faz”. Numa dessas temporadas de estudante estrangeiro com dinheiro contado, foi com amigos até o endereço de Julio Cortázar. Encontraram o escritor saindo de casa. Houve uma conversa breve, entre o acaso e a admiração. Cortázar passou um telefone e disse que ligassem depois. Moraes contaria esse episódio anos mais tarde. Ali estava um jovem brasileiro vivendo de bolsa, andando por Paris, escrevendo o primeiro romance e medindo, na prática, a distância entre os livros que admirava e o livro que ainda não conseguia terminar.
A bolsa resolvia a estadia. O resto era Paris e o tempo. Quarto alugado, caminhada, café, biblioteca, leitura, espera. “Tanto Faz” começou nesse compasso. Antes das histórias de bar e das noites que depois entrariam na figura pública, havia esse paulistano sozinho na cidade, com dinheiro curto e o primeiro romance ainda sem forma firme. Havia também uma rotina de demora, de dias gastos entre deslocamentos curtos, leituras longas e páginas que custavam a andar.
Foi também nesse fim dos anos 1970 que Reinaldo Moraes se encontrou com Ana Cristina Cesar. Ele vivia em Paris. Ela vivia em Londres. A frase que ficou dessa história aparece em “Luvas de Pelica”. “A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.” O verso ficou preso àquele período. Paris não era só a cidade em que “Tanto Faz” começava. Era também lugar de encontro, desejo e formação literária, um espaço em que leitura, vida e começo de obra ainda estavam muito misturados, antes que cada uma dessas coisas tomasse rumo próprio.
Reinaldo Moraes nasceu em São Paulo, em 1950. Estreou em 1981 com “Tanto Faz”, lançado pela Brasiliense na coleção “Cantadas Literárias”, uma das marcas editoriais da abertura cultural dos anos 1980. Em 1985 publicou “Abacaxi”. Mais tarde, os dois livros seriam reunidos em volume pela Companhia das Letras. No começo, “Tanto Faz” circulou de mão em mão entre escritores, jornalistas, leitores universitários, gente de cinema e gente de redação. Havia ali uma prosa mais veloz, mais coloquial e menos disciplinada do que a de muita ficção brasileira do período. O nome de Moraes correu primeiro pelos livros. A figura pública veio depois, acompanhada por outras histórias, por outras passagens de bastidor e por um modo de presença que também passou a circular.
Paris e os Primeiros Livros
“Tanto Faz” já traz um narrador brasileiro em Paris andando pela cidade, entrando em café, ouvindo conversa, mudando de assunto com rapidez. “Abacaxi” continua nesse passo, embora já desloque o cenário e faça outras coisas com o mesmo impulso. Anos depois, Moraes lembraria aqueles dias como decisivos para o romance, junto da releitura de “Memórias Sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade. A frase encurta, corta, mistura gíria, piada, sujeira verbal, mudança de registro. Nada ali fica largado ao acaso. O narrador vê, fala, tropeça, retoma, muda o rumo do que estava dizendo e segue. A fala parece solta, mas a frase vai recolhendo desvio, interrupção e mudança de assunto sem perder o passo.

Em “Tanto Faz” e “Abacaxi”, a fala já carrega a rua, a marca de classe, a intimidade e o mal-estar. Muitas vezes, a cena se arma na conversa. O leitor ouve antes de ver. O espaço demora a se definir, mas a relação entre as pessoas já está posta, com seu constrangimento, sua agressividade e seus pequenos recuos. Antes que o lugar se feche por completo, a fala já distribuiu posições, já mostrou quem aperta, quem recua, quem tenta se defender e quem agride sem rodeio. O ambiente entra depois, quando a tensão entre as vozes já tomou conta da situação.
Depois de “Abacaxi”, Reinaldo Moraes ficou 17 anos sem publicar romance. Nesse intervalo, traduziu Bukowski, Burroughs, Jean Cocteau e Edmund White, trabalhou com jornalismo cultural e escreveu para televisão e cinema. Quando retoma a ficção nos anos 2000, traz atrás de si a experiência da tradução, da redação, do roteiro e do estúdio, além das novelas “Helena” e “Bang Bang”, dos filmes “Tainá” e “Dom” e da imagem da capa de “Todos os Olhos”, de Tom Zé. Quando volta ao romance, já não escreve do mesmo lugar. Traz atrás de si tradução, redação, roteiro, estúdio e outras exigências de linguagem e de tempo.
A Volta de “Pornopopeia”
A retomada começou com “A Órbita dos Caracóis”, em 2003, e seguiu com “Umidade”, em 2005. Mas foi “Pornopopeia”, em 2009, que devolveu Reinaldo Moraes a uma circulação mais visível. Num perfil publicado no ano seguinte na “Piauí”, Mario Sergio Conti leu o romance como a reaparição de uma linhagem do malandro em chave contemporânea. O livro ampliou o alcance do nome de Reinaldo Moraes, chegou a leitores que não o acompanhavam desde os anos 1980 e recolocou “Tanto Faz” e “Abacaxi” em circulação. Com “Pornopopeia”, “Tanto Faz” e “Abacaxi” voltaram a circular para leitores que chegavam a Reinaldo Moraes por outro livro e por outro momento da carreira.

Em “Pornopopeia”, sexo, álcool, piada suja e ressaca estão em toda parte, mas o livro anda pela fala do narrador. É ela que conduz os desvios, as arrancadas, os tropeços e as retomadas, misturando gíria, trocadilho e referência literária no mesmo impulso. São Paulo entra aí, no bar, no apartamento, no táxi, na conversa esticada madrugada adentro. O narrador exagera, mente, se corrige, torna a mentir e, quando parece perdido, tira da própria fala mais assunto e mais frase. Nos livros seguintes, São Paulo muda de figura. Em “Maior Que o Mundo”, pesa mais o trabalho, o desgaste e o trajeto diário. Em “Estrangeiros em Casa”, feito com Roberto Linsker a partir de caminhadas por bairros paulistanos, ela aparece ligada ao ato de percorrer, observar, conversar e anotar. Numa entrevista sobre o projeto, Moraes resumiu esse procedimento em quatro verbos. Caminhar, olhar, conversar, anotar.
Em entrevista ao “Rascunho”, Reinaldo Moraes comentou o trabalho diário nos romances posteriores a “Maior Que o Mundo”, então apresentado como o início de uma trilogia. Na mesma conversa, aproximou Kabeto, desse livro, de Zeca, narrador de “Pornopopeia”. Os dois têm pontos de contato no excesso, na deriva, no humor, na inadequação e no atrito com o mundo à volta, mas a diferença aparece logo. Mudam a idade, o dano acumulado, o peso do trabalho e a maneira de atravessar a cidade. Certas coisas voltam, mas a voz é outra, o ritmo é outro e o personagem já está em outro lugar. O que em Zeca vinha em disparada, em Kabeto aparece mais gasto, mais preso à rotina e ao corpo.
Goiânia, Bar e Personagem
Se Paris ajuda a localizar onde a escrita começou, Goiânia ajuda a ver como a figura pública do autor circula fora dos livros. Numa passagem pela cidade para ministrar uma oficina de escrita criativa ao longo de um fim de semana, em 2016, Reinaldo Moraes deixou uma sequência de episódios que ainda reaparece nas conversas de quem esteve com ele. Segundo lembram o escritor Ademir Luiz, o editor da revista “Bula”, Carlos Willian Leite, e o editor Mário Zeidler Filho, a visita acabou virando uma maratona de bar, conversa e madrugada atravessada sem sono. A noite virou manhã. Em dado momento, já na casa de Mário Zeidler Filho, quando se preparava para seguir para o aeroporto, Moraes teria pegado o quadro que havia recebido de presente, uma tela enrolada, lançado o objeto ao editor e dito a frase que ficou. “Fica com esse Picasso pra você.”

A história continuou circulando porque juntava duas coisas que, nos relatos sobre ele, quase nunca aparecem separadas. De um lado, a resistência de quem atravessava a noite inteira acordado e ainda seguia falando, bebendo, improvisando, querendo esticar a roda. De outro, o gesto rápido e teatral, entre o boteco e o palco, com que transformava qualquer episódio em caso. Na passagem por Goiânia, a oficina foi só uma parte. O resto correu pela madrugada, pelos bares e pela conversa sem hora de terminar. A frase do “Picasso” continuou circulando depois da visita e acabou virando, ali, um jeito de nomear a arte ruim, o quadro sem graça, a peça de gosto duvidoso, a coisa que pede admiração e recebe deboche.
Quem reconta essa noite lembra de um homem já maduro que atravessava a madrugada falando, bebendo e puxando assunto como se a hora não tivesse muita importância. Lembra também do cansaço dos outros, da conversa que não acabava, da ida direta para o aeroporto, do quadro lançado de uma mão para outra e da frase que ficou. O que se conta sobre ele em Goiânia não substitui os livros nem explica os romances. Fica ao lado deles.
No caso de Reinaldo Moraes, livro e anedota nunca ficaram totalmente separados. A de Goiânia é uma dessas histórias.

