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A vida exige que tiremos muitos coelhos da cartola — muitas vezes ao mesmo tempo — para não ficar a reboque de circunstâncias que surgem-nos como desafios flagrantemente perigosos em cuja essência estão mistérios indevassáveis que nosso espírito não alcança. Feito este comentário, a incorreção política, a inteligência, o charme de “Golpe de Mestre” deixaram saudade. George Roy Hill (1921-2002) compõe um verdadeiro espetáculo da comédia ancorado em dois atores plenos, que encaixam num humor subversivo tiradas que remetem o público aos anos 1970, era de experimentação em diversas frentes da cultura pop. Desambiciosamente, Hill urde uma trama que não demora a prender a atenção do público, transformando o roteiro de David S. Ward num vaudeville, ritmado, caótico, cômico, trágico, absurdo. A crítica também se rendeu.

Os safados

Em 1936, Chicago parecia ainda maior, mais hostil, muito mais ameaçadora. A Grande Depressão de 1929, após a quebra da Bolsa de Nova York, bagunça a economia dos Estados Unidos, e cada um se vira como pode, inclusive os criminosos, os tubarões e as arraias-miúdas. John Hooker está no segundo grupo, e defende o seu levando a termo esquemas aparentemente simplórios, quase pueris, mas que são uma mina de ouro. Na introdução, ele, jovem, loiro e de olhos azuis, e Luther Coleman, o comparsa vivido por Robert Earl Jones (1910-2006), um negro já entrado em anos, tiram cinco mil dólares de outro malandro valendo-se apenas da persuasiva lábia — e da vontade de se dar bem que tinha o prejudicado —, e assim poderia garantir um pecúlio, não gostasse de viver perigosamente e pusesse tudo na roleta. De qualquer forma, Hooker é feliz.

Detalhes que contam

O diretor recheia o filme com um milhão de tomadas do cotidiano alucinado e alucinante da Cidade dos Ventos, com seus indefectíveis táxis e ambulâncias, gente que vem e vai num alvoroço bem ajustado às urgências do capitalismo e o mosaico barulhento que emerge de tudo isso e inebria a plateia. Hooker faz e acontece, pinta e borda, enverga ternos de tuíde, smokings e chapéus Manhattan como ninguém e arrasa corações de garotas como Billie, a mocinha durona de Eileen Brennan (1932-2013). Boa parte do longa é só de Robert Redford (1936-2025), mas no instante em que ele topa com Henry Gondorf não fica pedra sobre pedra. Esses cavaleiros de um apocalipse composto de delinquência, grana fácil, desejo, sexo e a sobrenatural habilidade de manipular as emoções alheias chegam ao mais fundo dos sentimentos mais ocultos e menos cômodos da alma suja e perdida do espectador. Paul Newman (1925-2008) consegue o impossível e supera Redford, mas o que nasce daí não é uma rixa, e sim uma amizade de mais três décadas. A propósito de tempo e recordes, aos 28 anos, Ward ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original por essa sua visão saborosamente tresloucada de uma ferida americana — Hill levou a estatueta de Melhor Direção; Edith Head (1897-1981), o troféu de Melhor Figurino e “Golpe de Mestre”, claro, foi escolhido pela Academia o melhor filme de 1973. Que falta faz tudo aquilo que já não pode mais ser…


Filme: Golpe de Mestre
Diretor: George Roy Hill
Ano: 1973
Gênero: Comédia/Crime/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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