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Cyrus Nowrasteh dirige “O Tesouro de Sarah” a partir de uma história real de apelo imediato. No Oklahoma do início do século 20, Sarah Rector, uma menina negra de 11 anos, insiste que há petróleo sob um lote de terra tratado por todos como imprestável. Quando o petróleo aparece, a descoberta não traz descanso. Atrai advogado, intermediário, perfurador, funcionário público, todo tipo de homem disposto a decidir o destino do terreno e do dinheiro antes da própria menina. Naya Desir-Johnson segura o centro do filme com firmeza, ao lado de Zachary Levi, Sonequa Martin-Green e Kenric Green.

O melhor do longa está em não perder de vista a matéria concreta desse conflito. Sarah vive numa casa em que a escassez organiza a rotina. A terra não entra em cena como símbolo, mas como lote seco, bem de família, promessa incerta. O petróleo também não muda de registro quando surge. Vem com torre de extração, papel para assinar, proposta mal explicada, visita interessada, conversa cordial demais. “O Tesouro de Sarah” funciona quando acompanha esse movimento de perto: quem se aproxima para ajudar, quem aparece para ganhar tempo, quem chega já fazendo conta em cima do que não é seu.

Terra e dinheiro

O racismo, no filme, aparece nesse mesmo plano. Não como discurso geral, mas como coisa prática. A família é barrada em certos lugares, ouve insultos, esbarra em homens brancos convencidos de que sabem melhor do que Sarah o que deve ser feito com a terra dela. O abuso não está só no confronto aberto. Está no papel passado de mão em mão, na facilidade com que outros falam por ela, na naturalidade com que o direito da menina vai sendo tratado como algo negociável. O filme acerta ao mostrar esse cerco sem transformar cada cena em explicação.

Bert Smith, personagem de Zachary Levi, ajuda a ligar Sarah ao mundo dos perfuradores independentes e dá alguma fluidez de aventura a uma trama que poderia se fechar demais no drama jurídico. A relação entre os dois tem utilidade e alguma química, embora o roteiro às vezes se distraia com Bert e desvie atenção demais da protagonista. Não chega a comprometer o filme, mas enfraquece um pouco o que ele tem de mais forte. A história de Sarah já bastaria por si, sem precisar repartir tanto espaço.

Sem precisar dizer tudo

A principal limitação de “O Tesouro de Sarah” aparece justamente quando o filme parece desconfiar da força da própria história. Resolve um problema e logo apresenta outro, puxa mais uma ameaça, chama mais um interessado, aumenta a pressão onde talvez bastasse deixar a situação se impor. Há também narração em off e passagens explicativas em excesso, como se a cena sozinha não fosse suficiente. É uma escolha que pesa porque o longa melhora bastante quando recua e observa. Sarah sentada entre adultos discutindo sua terra, os pais tentando protegê-la sem meios para isso, o poço funcionando ao mesmo tempo como promessa e risco: é aí que o filme ganha densidade.

Naya Desir-Johnson entende bem esse eixo. Sua atuação não força maturidade nem procura brilho fácil. O que chama atenção é o modo como ela permanece em cena. Sarah escuta, calcula, insiste. O corpo pequeno diante das máquinas, dos homens e dos contratos dá a medida do conflito. Ela continua sendo criança, e essa dimensão nunca desaparece. Sonequa Martin-Green e Kenric Green também ajudam a manter o filme ancorado na família. Como pai e mãe, não entram só para apoiar a protagonista. Estão ali para aconselhar, hesitar, reagir, tentar segurar uma situação que cresce rápido demais para o tamanho da casa.

“O Tesouro de Sarah” talvez pudesse ser mais áspero e confiar mais no peso seco dessa história. Em vez disso, prefere a forma de um drama histórico para público amplo, com conflitos claros, encenação limpa e emoção conduzida sem muita ambiguidade. Não há grande invenção formal, e nem sempre o roteiro foge do caminho mais previsível. Ainda assim, o filme se sustenta. Quando volta à terra, ao contrato, à perfuração, ao homem que chega oferecendo ajuda e já mede o que pode tirar dali, encontra seu melhor ritmo. E quando deixa Sarah no centro de tudo, sem excessos em volta, encontra também sua melhor razão de existir.


Filme: O Tesouro de Sarah
Diretor: Cyrus Nowrasteh
Ano: 2025
Gênero: Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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