Uma construção arqueológica com forte caráter emocional, intrinsicamente familiar e autorizada, “It’s Never Over, Jeff Buckley” é uma tentativa quase curatorial da própria família, ou mais precisamente da mãe, de preservar a imagem do mito. Jeff Buckley foi um músico dos anos 1990 que alcançou fama e reconhecimento de forma vertiginosa, em parte impulsionado pelo peso do nome do pai, Tim Buckley. Ambos compartilhavam uma musicalidade sensível e um timbre semelhante, mas Jeff se incomodava com as comparações, acreditando que elas impediam que ele fosse enxergado em sua profundidade.
Como indivíduos a comparação não é possível, porque o próprio filme evita esse confronto. Não há um interesse real em investigar a trajetória do pai, tampouco em tensionar o caráter do filho. Tudo é filtrado por um único prisma: o da mãe, Mary Guibert, das namoradas e dos amigos. O olhar é inevitavelmente romantizado, que contribui para a mitificação da figura.
Saga da produção
O documentário, produzido por Brad Pitt, levou cerca de duas décadas para se concretizar. No começo, Pitt buscou autorização de Mary para desenvolver uma ficção na qual ele próprio interpretaria Buckley, mas a proposta foi recusada. Ela temia que uma dramatização transformasse Jeff em uma caricatura. A partir dessa rejeição, começou um longo processo de reformulação.
Durante anos, a diretora Amy Berg e Pitt trabalharam em uma abordagem que respeitasse os limites impostos pela família. Somente em 2019 chegaram a um formato considerado ideal, dando início efetivo à produção.
Construção
Através de entrevistas com colegas de banda, ex-companheiras e a própria mãe, além de gravações de secretária eletrônica e registros do próprio Jeff, o filme reconstrói sua infância. Filho de mãe solteira, rejeitado pelo pai, ele desenvolve um vínculo profundo com a figura materna, ao mesmo tempo em que encontra, no pouco contato com o pai, uma espécie de herança artística. Sua musicalidade foi uma espécie de legado inevitável.
Na adolescência, Jeff se revela obcecado por aperfeiçoar suas habilidades na guitarra e explorar sua extensão vocal, muitas vezes imitando vozes femininas como a de Nina Simone. Ele se via como um defensor das mulheres e impressionava pelo alcance de sua voz aguda, elástica, capaz de atingir notas pouco comuns para homens. Em um show de homenagem ao pai, após sua morte aos 28 anos, Jeff surpreende o público que ainda não o conhecia, marcando o início de sua inserção no meio artístico, que culminaria em um contrato com a Columbia Records.
Fama e morte
Seu primeiro álbum, “Grace”, vem de um processo criativo intenso e solitário. Buckley se isola, afasta pessoas próximas, incluindo sua namorada à época, Rebecca, e mergulha em uma pressão extrema consigo mesmo. O disco, ao ser lançado, recebeu aclamação, inclusive de nomes como David Bowie, que afirmou que esse era o melhor álbum já feito.
As letras densas, carregadas de emoção, e as melodias melancólicas, quase como choros declamados por sua belíssima voz, consolidam sua imagem artística. No entanto, o sucesso traz consigo um processo de desgaste. Jeff se torna uma espécie de gênio condenado, alguém à beira de sucumbir à própria sensibilidade e à pressão da indústria. E, embora profundamente ligado a figuras femininas, ele demonstra dificuldade em sustentar relações afetivas duradouras, como ele próprio declarou em sua “Lover, You Should’ve Come Over”.
Aos poucos, essa incapacidade de manter-se perto de alguém se transforma em dificuldade de se manter-se perto de si mesmo. A fama cobra um preço alto, e, para Jeff, esse preço se manifesta na fragilidade emocional. Enfrentando crises depressivas, ele se isola, desaparece, rompe vínculos importantes. Aproxima-se de artistas como Chris Cornell, da banda Soundgarden, e constrói amizade com Ben Harper. Ainda assim, mesmo cercado por admiração e reconhecimento, permanece inseguro, pressionado a produzir um segundo álbum que igualasse o impacto do primeiro.
O isolamento passa a assumir contornos mais sérios. As mensagens gravadas soam como despedidas, a morte fica recorrente em suas falas, quase como uma presença constante. Jeff experimenta drogas, desenvolve pensamentos paranoicos e chega a associar sua fama a algo macabro, como se fosse fruto de um pacto satânico. Com o tempo, passa a odiar o sucesso que ele mesmo havia buscado.
O documentário é limitado. Há uma sensação de suspensão temporal, de ausência de contexto histórico. Jeff se transforma em uma figura idealizada, construída a partir de lembranças cuidadosamente selecionadas, mais próxima de uma memória afetiva do que de um retrato plenamente humano. O que assistimos não é necessariamente quem ele foi, mas quem a mãe decidiu preservar.

