Gabriel García Márquez

Os 15 melhores começos de livros da literatura universal

Dando sequência à série de melhores trechos de livros, pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook que apontassem quais eram os melhores começos de livros da literatura universal. Cinquenta e cinco livros foram citados, destes, selecionamos os 15 que obtiveram mais citações, são eles: “Moby Dick”, de Herman Melville; “Notas do Subsolo”, de Dostoiévski; “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa; “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth; “A Lua Vem da Ásia”, de Campos de Carvalho; “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger; “O Amanuense Belmiro”, de Cyro dos Anjos; “A Metamorfose”, de Franz Kafka; “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói; “O Ventre”, de Carlos Heitor Cony; “Lolita”, de Vladimir Nabokov; “O Jardim do Diabo”, de Luis Fernando Verissimo; “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; e “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.

Moby Dick
(Herman Melville)
Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso —, tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurar-me de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco.
Notas do Subsolo
(Dostoiévski)
Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para res­peitar a medicina. (Tenho instrução su­fi­ciente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não que­ro me tratar é de raiva. Isso os se­nho­res provavelmente não compre­en­dem.
Grande Sertão: Veredas
(Guimarães Rosa)
Nonada. Tiros que o senhor  ouviu foram de briga de ho­mem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do cór­rego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mo­cidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, er­roso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebi­tado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: deter­mi­naram — era o demo.
O Complexo de Portnoy
(Philip Roth)
Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao fim das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela.
A Lua Vem da Ásia
(Campos de Carvalho)
Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pen¬samento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.
O Apanhador no Campo de Centeio
(J.D. Salinger)
Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins — não é isso que estou dizendo — mas são sensíveis pra burro.
O Amanuense Belmiro
(Cyro dos Anjos)
Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, um nono, argumentando que outro copo talvez trouxesse a solução geral. Éramos quatro ou cinco, em torno de pequena mesa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.
A Metamorfose
(Franz Kafka)
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intran­quilos, em sua cama meta­morfo­seado num inseto monstruoso. Estava dei­tado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, mar­rom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavel­mente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremu­lavam desamparadas diante dos seus olhos.
Dom Casmurro
(Machado de Assis)
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
Anna Kariênina
(Liev Tolstói)
Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa si­tuação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles.
O Ventre
(Carlos Heitor Cony)
Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tor­tura seria interessante se eu a explo­rasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustra­ção de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.
Lolita
(Vladimir Nabokov)
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial.
O Jardim do Diabo
(Luis Fernando Verissimo)
Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça.
Dom Quixote
(Miguel de Cervantes)
Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. E, assim, o que poderá engendrar o estéril e mal cultivado engenho meu, senão a história de um filho seco, murcho, antojadiço e cheio de pensamentos díspares e nunca imaginados por ninguém mais, exatamente como quem foi engendrado num cárcere, onde toda a incomodidade tem assento e onde todo o triste barulho faz sua habitação?
Cem Anos de Solidão
(Gabriel García Márquez)
Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo.
  • http://www.facebook.com/daslei Daslei Emerson Ribeiro Bandeir

    acho que faltou o Neuromancer de William Gibson

    O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar.
    – Não é que eu esteja usando – Case ouviu alguém dizer ao abrir caminho na multidão aglomerada na porta do Chat. – Meu corpo é que desenvolveu uma deficiência maciça de drogas. – Era uma voz do Sprawl e uma piada do Sprawl. O Chatsubo era um bar de expatriados profissionais; você podia beber ali todos os dias durante uma semana e nunca ouvir duas palavras em japonês.

    • Lari

      Boa!

  • Luiz Fernando Gallego

    Toda lista é excludente, claro, mas acho que a abertura de “O Grande Gatsby” não deveria ficar de fora de qualquer lista de dez melhores inícios de romances. Aliás, se listassem os melhores finais, “Gatsby” concorreria a um primeiríssimo lugar com corpos (ou melhor, letras) de vantagem.

  • http://vanroses.tumblr.com/ Vanessa Gonçalves

    “A Menina que roubava livros”, do Markus Zusak, também tem um prólogo perfeito.
    Trecho:
    “(…) Você vai morrer. Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo. (…)”

    • http://definitivosimples.blogspot.com.br/ Aydil Franco

      sim sim.. lindo

    • Jonathan

      Ótimo livro.

    • http://www.facebook.com/carmen.martini.14 Carmen Martini

      É perfeito mesmo… aliás não só o prólogo, mas vários detalhes da narrativa.

    • http://www.facebook.com/ronan.azarias Ronan Azarias

      Só a primeira frase pra mim já está de bom tamanho. Simples, direta e com o tom perfeito do livro. Uma excelente citação!

    • Sally Barroso

      Concordo.

  • http://www.facebook.com/nelsonluis.santander Nelson L Santander

    Faltou a abertura de 1984, de George Orwell: “Era um dia frio e ensolarado de abril, E os relógios batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.”

  • Luize

    Cadê “Eu sou o mensageiro – Markus Zusak”?

  • http://twitter.com/patresio Patresio

    Nada haver essa lista. Onde estão grandes escritores como Jorge Amado, Rachel de Queiróz, José Saramago, Fernando Pessoa, Oscar Wilde, C.S Lewis e outros grandes da literatura nacional e mundial!
    Sinceramente, toda lista sim é tendenciosa, mas essa foi demais!!!

  • http://twitter.com/alef_murad Alef Murad

    que tal agora voces escolherem os X melhores meios de livros, sim a página central, porque já foram tantos inícios e finais, agora é a vez dos meios, fica a dica

  • Leilany Moreira

    Guimarães Rosa em “Grande Sertão Veredas” foi perfeito!!! Se bem que, o livro é perfeito!!!!

  • Isadora Ribeiro

    Lolita é o melhor desses todos,amo esse livro

  • maria helena

    A menina que Roubava Livros. Markus Zusk.Uma história envolvente, impossível de parar. Personagens(Liesel, Rudy), tem uma química do começo ao fim. Uma maneira de contar uma história, onde a Morte(a narradora),
    passa a ser uma “coisa” boa, e amiga.Para quem ama ler, está uma dica.

  • http://www.facebook.com/leley007 Wanderley Leley

    “O triângulo secreto as lágrimas do Papa” Didier Convard

  • http://twitter.com/NatanneCarneiro Natanne

    Comecei a ler a lista já esperando Ana Karênina e Lolita. São inícios perfeitos!!

  • http://www.facebook.com/renata.penzani Renata Penzani

    Difícil pensar em um começo de livro mais incrível que o de Lolita.

  • Rogerio Santana

    Sem sugestões, conhecia os inícios de boa parte (notas do subsolo, grande sertão, metamorfose, dom casmurro, dom quixote, cem anos e anna karenina), mas também me surpreendi com os demais, em especia lolita.

  • http://www.facebook.com/people/Diego-Vital/100000828713569 Diego Vital

    Amei o da Anna Karenina, estou louco para ler.

    Gosto muito do início do livro do Harry Potter e a Pedra Filosofal, pena não estar no meio:

    “O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, n°4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado. Eram as últimas pessoas do mundo que se esperaria que se metessem em alguma coisa estranha ou misteriosa, porque simplesmente não compactuavam com esse tipo de bobagem.”

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001910941438 Ignácio Concepcion Paez Jr.

    realmente não podia faltar “Dom Casmurro”… aliás, um dos meus processos decisórios é como se desembesta a história.

  • Vander Vieira

    “Nenhum Olhar” do José Luis Peixoto é coisa linda:

    “Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem de tarde. O ar queima como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu daqui parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu [...]“

  • Alini

    Um que sempre consta, é o prefácio de Os condenados da terra, de Franz Fanon, por Jean P. Sartre

    Não faz muito tempo a terra tinha dois bilhões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilhão e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado. Entre aqueles e estes, régulos vendidos, feudatários e uma falsa burguesia pré-fabricada serviam de intermediários. Às colônias a verdade se mostrava nua; as “metrópoles” queriam-na vestida: era preciso que o indígena as amasse. Como às mães, por assim dizer. A elite européia tentou engendrar um indigenato de elite; selecionava adolescentes, gravava-lhes na testa, com fero em brasa, os princípios da cultura ocidental, metia-lhes na boca mordaças sonoras, expressões bombásticas e pastosas que grudavam nos dentes; depois de breve estada na metrópole, recambiava-os, adulterados. Essas contrafacções vivas não tinham mais nada a dizer a seus irmãos; faziam eco; de Paris, de Londres, de Amsterdã lançávamos palavras: “Partenon! Fraternidade!”, e, num ponto qualquer da África, da Ásia, lábios se abriam: “… tenon!…nidade!” Era a idade de outro.

  • http://caricartunista.blogspot.com/ Robson F. Vilela

    “Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Re­cebi um tele­grama do asilo:
    ‘Sua mãe fa­le­cida: En­terro amanhã. Sen­tidos pê­sames’.
    Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”

    — O Estrangeiro – Albert Camus

    • clara del pilar

      esse foi o melhor livro que eu já li, totalmente anticonvencional e destruidor de toda falsa moral, fantastico

  • Marcos Maranhão

    Pois é, antes da lista citada, que tal um Evanildo Bechara ?

  • Tônio Caetano

    Gosto muito do prefácio do livro “O Encontro Marcado” do Fernando Sabino:

    “O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.

    Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

    • Leila manttovanni

      Adorei você ter citado O encontro Marcado. Parabéns!

    • Carolina

      Maravilhoso…

  • Júnior Cunha

    Trocaria O Apanhador no Campo do Centeio que não tem um início excepcional (é somente bom) por A morte do pai, primeiro livro da série Minha Luta do norueguês Karl Ove Knausgard. As primeiras cinco páginas são perfeitas. (Que quiser ler: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13088.pdf e podem comprar, é um ótimo livro, indico muito).

  • Laércio

    “No dia em que iam matá-lo”… O anuncio do clímax e a prévia resolução do suspense faz deste início de Crônica de Uma Morte Anunciada insuperável…

    • Marina Legroski

      concordo plenamente.

  • Gabriel

    Cem Anos de Solidão, com certeza. O livro é maravilhoso, mas tanto seu início como final são de arrepiar o pelo da nuca.

    Gabo eterno.

  • Nathalia

    “Quando eu era mais jovem e mais vulnerável, meu pai me deu um conselho que muitas vezes me voltava a mente.
    - Sempre que tiver vontade de criticar alguém – Recomendou-me -, lembre primeiro que nem todas as pessoas do mundo tiveram as mesmas vantagens que você teve.” O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

  • Adriana Scarpin

    ia começar a sapaterar se não encontrasse Lolita nessa lista…

  • Daniel Lima

    “O Estrangeiro” de Albert Camus.
    “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do
    asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não
    esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

  • Lenenane

    Faltou “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

  • Bárbara

    Mas gente, e “No Caminho de Swann”, do Proust? Pecado esquecer ele e colocar o Apanhador no Campo de Centeio.

  • Jacqueline Adam

    Bom lembrar de “Amanhã, na batalha, pense em mim” de Javier Marias.

  • Nazareth Lemos Maldonado Peres

    “A Metamorfose” Franz Kafka: Naquela manhã Gregor Samsa acordou…
    Cito de memória.

  • João Gabriel Granja

    Memórias Póstumas de Brás Cubas.
    “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”
    [de ASSIS, Machado]

  • walkiria

    Durante meio século, os burgueses
    de Pont-l’Évêque invejaram a sra. Aubain por sua criada Felicidade.
    “Um coração simples” a obra prima de Gustave Flaubert.

  • Elisabeth Nery da F Belem

    Voces se esquceram de: O Fio da Navalha, Sparkenbroke,O Amante de lady Chartelley, Amor em Tempos de Cólera, A Fonte, A Montanha Mágica, Morte em Veneza, O Castelo, O Processo e outros mais que não estou agora me lembrando !

  • victor leandro

    acrescentaria o início de O amante, de Duras. e tiraria o do Garcia Márques, que, para mim, quer pegar o leitor apenas pela curiosidade.

  • Ivana Sant’Anna

    Adoro o início do ‘Estrangeiro’, do Camus.

    • Tiel Del Valhe

      Também lembrei dele!

  • Kelly

    Sério que não citaram Memórias Póstumas de Brás Cubas?
    O melhor começo de livro de todos os tempos!

  • Marcus Martins

    Como me tornei estúpido

    (Martin Page)
    “Sempre parecera a Antoine contabilizar sua idade como os cães. Quando tinha sete anos, ele se sentia gasto como um homem de quarenta e nove anos; aos onze, tinha desilusões de um velho de setenta e sete anos. Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranqüila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez. Ele constatara muitas vezes que inteligência é palavra que designa baboseiras bem construídas e lindamente pronunciadas, e que é tão traiçoeira que freqüentemente é mais vantajoso ser uma besta que um intelectual consagrado. A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que lêem.”

  • Bárbara Reims

    Lotita… por suposto.

  • Leandro Dias

    Bonsai, livro de Zambra tem um começo maravilhosamente instigante: “No final ela morre e ele fica sozinho[...]“

    • Laura Pedrosa

      Verdade! Um ótimo livro!

  • João

    Esse não é o começo do Quixote. É o do prólogo. O romance começa de uma forma maravilhosa: “Num lugar da Mancha, de cujo nome não me quero lembrar, vivia, não há muito tempo, um fidalgo…..” O final é também dos mais sobriamente comoventes da história da literatura Universal

  • Adriano

    Talvez o ínicio de Crônica de uma Morte Anunciada seja mais interessante, por revelar o enredo do livro e lhe dixar intrigado já na primeira linha.

    “No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros.”Sonhava sempre com árvores”, disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata.”

  • Jorge Gomes

    Gosto muito do começo de Macunaíma.

  • Angelo Souza

    Faltou o velho safado: “O começo foi um erro”…
    Cartas na Rua.

  • José Carlos Aragão

    Uma lista como essa nunca vai agradar a todos. Mas, pra mim, se tem Grande Sertão, A Metamorfose e Cem anos de solidão, já é um bom começo de lista…

  • Alvaro

    “Quando eu me encontrava na
    metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e
    a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la!
    Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança
    me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível.
    Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que
    falar de outras coisas, que do bem, passam longe”

  • Marcos

    Concordo com Alex Pinho!

  • Raquel

    O mais brilhante livro de todos os tempos”Intermitências da Morte”…