Autor: André J. Gomes

Cuidado. Aquele que lhe puxa o saco quer mesmo é puxar-lhe o tapete

Cuidado. Aquele que lhe puxa o saco quer mesmo é puxar-lhe o tapete

Incapaz de um raciocínio mais complexo que contar os minutos para a hora da próxima refeição, ele nem desconfia de que pertence a uma espécie ordinária, a mais danosa entre todas as pragas que hoje assolam o mundo, mais daninha que o gafanhoto, a traça, o cupim, o spam ou as duplas sertanejas. Nem imagina o quanto encarna fielmente o clássico bajulador. Ele mesmo, o bom e velho puxa-saco. Acredite. Essa racinha miserável não tem mãe. Nasce em casulos pendurados nas protuberâncias que ficam na região pélvica de artistas, celebridades, endinheirados de alguma classe, políticos de qualquer cargo e chefes de toda sorte.

A vida e sua sequência lógica e louca de um dia depois do outro

A vida e sua sequência lógica e louca de um dia depois do outro

Noite dessas, uma passeata de pensamentos, aflições, pesares e culpas congestionou o fluxo tranquilo de seus sonhos. Inquietos e cheios de porquês, os manifestantes invadiram a avenida tranquila por onde caminha o homem sozinho quando dorme, olhando a nostalgia breve das vitrines que permanecem acesas em lojas fechadas, e fizeram barulho. Empunhando cartazes e entoando refrãos, clichês, gritos de guerra, espantaram-lhe o sono.

Nós e nossa grandiosa capacidade de supervalorizar ninharias

Nós e nossa grandiosa capacidade de supervalorizar ninharias

O universo que o perdoe, mas agora ele quer vingança. Desforra. Castigo. Retaliação. Isso não vai ficar assim. Mas não vai mesmo. Você não sabe com quem mexeu. Agora ele vai até o fim. Enquanto não varrer a sua raça do universo, ele não terá um só instante de descanso. Machucado no fundo da alma, ele sofre por não ter nascido de sangue frio e colhões em chamas. Tivesse o mínimo de coragem e um pouco mais de força, avançaria sozinho contra você, como um rinoceronte furioso, de sangue nos olhos e veneno nos chifres. E esfregaria no asfalto a sua cara lavada e sem vergonha.

Quando a máquina trava, a vida liberta

Quando a máquina trava, a vida liberta

Três e meia da manhã. Dezenove horas depois do início da lida diária, a pobre diaba mofando no trabalho insano, em alguma sala acesa de um prédio comercial obscuro, assiste estarrecida a uma tragédia: o maldito computador decidiu travar. Em sua insônia compulsória, a mulher sozinha e esgotada inveja a tela negra desabada em sono profundo. Queria dormir. Dormir até esquecer o próprio nome.

Faça a revolução lá fora. Mas só depois de mudar as coisas aí dentro

Faça a revolução lá fora. Mas só depois de mudar as coisas aí dentro

Amanhã você vai sair — ou voltar — às ruas e fazer a revolução. Sem medo, sem máscara, vai dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” a todos os conhecidos e desconhecidos que passarem por você. No elevador, no estacionamento, no ônibus, na fila da padaria. E se ninguém responder, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente. Porque é para frente que se anda.

Da beleza imunda, fedorenta e luxuosa que nasce à noite no meio do lixo

Da beleza imunda, fedorenta e luxuosa que nasce à noite no meio do lixo

A esta hora da noite, o trânsito na cidade definha. Um a um, os carros seguem para longe dali, tragados por seus destinos em ruas, vielas, garagens. O mundo adormece na intimidade de cada casa, a cidade aquieta, esgotada, apagando suas luzes por dentro. Aqui fora, o caminhão branco, sujo e forte avança lento, furioso pela rua repleta dos entulhos do dia, seguido de perto por dois homens que correm de uma calçada a outra, recolhendo os enormes sacos de plástico negro para lançá-los ao estômago imenso do rinoceronte de aço e rodas que avança esganado e barulhento.

Do risco de ser gentil em tempos grosseiros

Do risco de ser gentil em tempos grosseiros

“Sobe”, grita o homem correndo para o elevador lotado, prestes a iniciar sua viagem rumo ao topo do prédio comercial de 20 andares. A essa hora da manhã, perder o elevador significa chegar atrasado ao trabalho, então ele corre mais rápido. Nenhuma das tantas pessoas já embarcadas faz qualquer esforço para ajudá-lo em sua empreitada. Ninguém segura a porta de aço, ninguém aperta o botão que retarda a partida da nave, ninguém sequer lhe dirige um olhar de solidariedade e torcida, “corre, pobre diabo, você vai conseguir, eu acredito em você”. Nada. Ninguém.

Casamentos são para sempre — até que a vida os separe

Casamentos são para sempre — até que a vida os separe

Em nome da felicidade dos casais, as cerimônias matrimoniais religiosas deviam ser radicalmente reconfiguradas. Tá aí uma medida para anteontem. A ladainha do “até que a morte os separe” é uma incorreção flagrante, um equívoco. No mínimo, uma brutal ingenuidade. Porque a morte não separa nada! Ao contrário, com duas ou três exceções, alguém que enviúva fica ligado para sempre à lembrança do cônjuge que partiu. Ser viúvo é uma espécie de tatuagem emocional, um estigma indelével, uma cicatriz que até se pode amenizar, mas nunca se apaga totalmente.

O melhor e o pior do Facebook. Ou a vida como ela não é

O melhor e o pior do Facebook. Ou a vida como ela não é

O almoço termina e é hora de dar um passeio. Fazer a digestão. Não na praça, não há mais praças. Ali mesmo, à mesa. É tempo de passear os olhos por sua “linha do tempo”. Cachorro perdido, gente desaparecida, cachoeira, pôr do sol, frase feita, cerveja na praia, piada velha, indireta para ex-namorado, fulana mudou foto do perfil, pose com celular no espelho, Clarice Lispector, Mussum, cachorro desaparecido, gente perdida, “diga não ao preconceito” aqui, “mais amor, por favor” ali, “todos contra a homofobia” acolá.

A saga do andarilho cibernético

A saga do andarilho cibernético

Depois do novo-rico, do novo-classe média e do cada vez mais comum novo-pobre, mais uma categoria se tornou clássica em terras que Cabral descobriu, Caminha divulgou e Bill Gates incluiu digitalmente: a do novo-enfezado. Segundo os especialistas em distúrbios de personalidade, isso acontece principalmente porque, como as pessoas que apresentam intolerância a lactose, glúten e outras substâncias, o novo-enfezado padece de uma severa alergia a tudo que contradiga o que seus heróis e dominatrixes determinam como bom e ruim.