Caipira orgulhoso das raízes fincadas no solo escuro e fértil de Taquarituba, outrora terra do feijão, em dado momento da vida e da carreira embeveci-me da ideia que os troncos, galhos e ramos a mim constituintes iriam fotossintetizar, até a caduquice das folhas no inverno adunco que a todos consome, sob a quase sempre pobre qualidade do ar paulistana.
Que veio Bled no meio do caminho, que no meio do caminho havia um alívio Bled, que nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas, o leitor atento já cansou de me ouvir clamar. O que provavelmente me esqueci de compartilhar é meu hábito, coisa de jornalista velho, de acompanhar diariamente o noticiário da vetusta capital paulista— e que bom que as versões impressas dos jornalões agora podem ser folheadas no digital, do contrário sei lá com quantos dias de atraso eu saberia que o trânsito da véspera do feriadão foi do tamanho de um novo recorde ou que agora existe uma roda-gigante de nome piada-pronta para quem quer observar esse mesmo trânsito com conforto, mimos e privilégios.
Entre constrangido e desapoquentado, confesso que na grande maioria das vezes recebo essas notícias com misto de tristeza — inerente a elas, já que São Paulo merece alvíssaras e todo um evangelho — e um certo sentimento de satisfação pessoal — “olha só do que escapei”. Tenho saudades da boa e variada gastronomia? Sim, sem dúvida; mas não dos preços impraticáveis. Tenho saudades dos bons amigos? Também, mas olhando bem, metade deles igualmente se precipitou em tomar parte dessa avantajada diáspora, o que desinflaciona um tantinho da culpa que ameaça vez em quando irromper.
Outro dia li que o alcaide — a essa altura não me recordo se o municipal ou o estadual, posto que são semelhantes em espectro e quiçá em caráter — planejava converter a icônica esquina formada por Ipiranga e São João, aquela caetânica que fungava alguma coisa tão bonita e quentinha no coração, em uma afronta multimídia ao quase extinto ideal de Cidade Limpa. Jecamente, propala-se que São Paulo terá a sua Times Square, assim mesmo no idioma estrangeiro, subvertendo a lógica porque nela os reclames publicitários é que seriam as próprias atrações — e não o pano de fundo a custeá-las.
Talvez seja a diferença entre uma vermelhinha apple e uma maçã carcomida por vermes bem-nutridos.
Mas a prova de que não há limite para esse gargalo social, político e econômica que não nos cansa de surpreender eu leio na “Folha” de hoje (dia 21 de maio). A bolha da bolha da bolha é essa novidade: agora condomínios instituíram a “área comum de uso exclusivo”, informa a atenta repórter Priscila Mengue. Ao criar o paradoxo do comunitário, inventou-se o abadá condominial.
Em tempos de aquecimento global, o novo rei do camarote vai ser aquele com crachá que libera a catraca da piscina — mesmo que no elevador o aroma de cloro se misture cheirinho do suor do vizinho ralé, aquele que faz parte da mesma bolha mas nem tanto.

