“Escola de Rock” parte de uma mentira que não fica exatamente menor com o passar dos anos. Dewey Finn, músico sem dinheiro, sem banda e sem muito senso de limite, assume o lugar de um amigo como professor substituto em uma escola particular. Ele não cai ali por acaso nem é vítima de um mal-entendido inocente: frauda uma contratação, engana a diretora, os pais e os alunos, e transforma a sala de aula em tentativa desesperada de salvar o próprio orgulho. A diferença é que o filme não funciona porque pede absolvição imediata para Dewey. Funciona porque entende que seu carisma é tão real quanto sua irresponsabilidade. O riso nasce dessa fricção.
Aos poucos, a bagunça do protagonista encontra uma turma treinada para a obediência, o bom desempenho e a contenção. É nesse encontro improvável que a comédia de Richard Linklater ganha corpo. “Escola de Rock” poderia ser apenas a história de um adulto inconsequente que ensina crianças a tocar guitarra. Seria pouco. O filme rende mais porque percebe a banda como uma forma de reorganizar afetos, inseguranças e papéis. Dewey chega querendo usar os alunos como meio para um objetivo pessoal. O que descobre, quase contra a própria vaidade, é que ali existe um grupo, e um grupo não se toca sozinho.
Linklater conduz esse material com leveza, o que não deve ser confundido com desleixo. A direção não tenta disfarçar a natureza popular do filme, nem força uma densidade que a história não comporta. A estrutura é conhecida, as viradas são previsíveis, a chegada ao palco parece programada desde cedo. Ainda assim, há uma vitalidade rara na maneira como cada etapa é ocupada. O filme não depende de surpresa. Depende de ritmo, presença e convivência. E nisso ele acerta muito.
Aula sem lousa
Jack Black é o centro de gravidade de “Escola de Rock”, mas sua atuação não se resume ao volume. Claro, há excesso: o corpo sempre em movimento, a fala acelerada, a convicção quase delirante de que o rock pode resolver qualquer constrangimento. Só que esse excesso tem cadência. Dewey é engraçado porque parece sempre um segundo atrasado em relação à vida prática e um segundo adiantado em relação à música. Ele fracassa como adulto funcional, mas entende instintivamente o que uma criança sente quando ninguém presta atenção ao que ela pode fazer além de cumprir regras.
Esse é o ponto mais esperto do roteiro de Mike White. Dewey não vira um bom professor no sentido convencional. Ele seria, com razão, motivo de pânico em qualquer coordenação pedagógica. Mas tem uma qualidade que falta a muitos adultos corretos do filme: olha para os alunos como pessoas em formação, não como boletins ambulantes. Ao notar quem toca, quem organiza, quem desenha, quem canta, quem tem medo de aparecer e quem quer ser levado a sério, ele cria uma espécie de sala paralela. Nada disso apaga a fraude inicial. Apenas torna a situação mais interessante do que uma lição simples sobre rebeldia.
O rock, nesse contexto, não é adereço nostálgico. O filme até se diverte com a mitologia das guitarras, dos solos e das bandas de garagem, mas sua força está menos na reverência musical do que no uso prático da música. Tocar junto exige escuta. Exige hora de entrar, hora de recuar, noção de função, confiança no outro. Para uma turma acostumada a responder certo, vestir certo e se comportar certo, a banda abre um espaço de erro produtivo. O barulho deixa de ser indisciplina e passa a ser linguagem. Essa virada é simples, mas o filme a trata com sinceridade.
Também por isso “Escola de Rock” evita virar um sermão contra a escola tradicional. Seria fácil opor criatividade e disciplina como se uma anulasse a outra. Linklater não precisa dessa caricatura. A escola é rígida, sim, e a diretora Rosalie Mullins representa bem esse universo de controle, cobrança e reputação. Mas Joan Cusack impede que a personagem seja só uma muralha burocrática. Há cansaço, solidão e uma pressão silenciosa na forma como ela tenta manter tudo em ordem. A graça de suas cenas está justamente na tensão entre o cargo que ocupa e a pessoa que ainda existe por baixo dele.
Carisma em grupo
O maior mérito da direção é não permitir que Jack Black engula todos ao redor. O filme sabe que Dewey precisa dominar a entrada, mas também sabe que a história só se completa quando ele começa a dividir a cena. A montagem dos ensaios, a atenção aos pequenos avanços dos alunos e a distribuição das funções dentro da banda dão ao conjunto uma presença própria. O prazer não está apenas em ver Dewey performar; está em vê-lo perceber que sua energia cresce quando deixa de ser propriedade exclusiva dele.
Essa generosidade faz “Escola de Rock” escapar de uma armadilha comum em comédias sobre adultos excêntricos cercados por crianças. Os alunos não existem apenas para confirmar a genialidade do protagonista. Eles devolvem algo, resistem, aprendem, testam, corrigem o ambiente. O filme não aprofunda cada um deles do mesmo modo, e nem sempre há tempo para isso, mas entende o suficiente para que a banda pareça uma experiência coletiva, não um cenário para a redenção de Dewey. Quando o grupo começa a soar como grupo, o filme encontra seu melhor pulso.
As falhas continuam ali. A transformação moral de Dewey é mais rápida do que convincente, e a narrativa confia bastante na disposição do público de tolerar suas atitudes em nome do humor. Algumas resistências se resolvem com facilidade, alguns conflitos parecem dobrar a esquina no momento exato, e a fórmula de comédia familiar aparece sem muita cerimônia. O filme também corre o risco, em certos momentos, de tratar irresponsabilidade adulta como charme. O que o salva é que o charme não vem sozinho. Há consequência, há constrangimento, há a percepção de que Dewey precisa mudar de lugar dentro da própria fantasia.
“Escola de Rock” permanece interessante porque não é tão limpo quanto sua embalagem sugere. Tem alegria, mas não é ingênuo a ponto de transformar Dewey em modelo. Tem afeto, mas não depende de sentimentalismo pesado. Tem música, mas não se apoia apenas no reconhecimento de clássicos ou na pose de quem entende de rock. Sua melhor ideia é tratar a banda como uma pequena comunidade provisória, dessas que surgem quando alguém, mesmo alguém equivocado, enxerga potência onde havia apenas comportamento esperado.
Por isso, o filme envelhece com mais força do que muitas comédias da mesma época. Não por ser impecável. Não é. Mas porque sua energia parece menos calculada do que poderia ser. Há uma alegria concreta naqueles ensaios, na descoberta dos papéis, na passagem do ruído para a coordenação. “Escola de Rock” sabe que rebeldia sem responsabilidade vira encenação. Também sabe que responsabilidade sem imaginação vira silêncio. Entre uma coisa e outra, encontra um acorde ainda eficiente: o de gente aprendendo a se ouvir enquanto faz barulho.

