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Porque meu leitorado é majoritariamente brasileiro, sei que se eu falar sabão em pó, camisinha e refrigerante de guaraná, a imensa maioria dos integrantes desta respeitável audiência vai criar uma imagem mental com os mesmos rótulos e identidades visuais para cada um desses produtos. Detergente é outro caso e por esses dias povoa a internet com memes, nesse costumeiro afã que temos de nos embebedar em impiedosas autocomiserações. Amido de milho, palha de aço e água sanitária, então, ninguém nem chama mais pelo nome: são daqueles itens cuja marca se tornou apelido — sonho de todo empreendedor, desejo de qualquer publicitário.

Este é o pano de fundo para meu lugar de fala, travestido em palanque de chororô. Já quase uma década de degredo e continuo me perdendo entre nomes comerciais estrangeiros enquanto zanzo de uma gôndola para outra no supermercado. Este amaciante é o mais cheiroso? Devo comprar o leite mais barato ou o que tem embalagem mais bonita? Qual é a melhor marca de pão de forma? Qual o nome do iogurte mais saboroso? E por que raios nunca tem farinha de mandioca nessas prateleiras? (OK, esta última frase não tem muito a ver com o tema, é só o desabafo aleatório que escapuliu porque tal questão constantemente permeia meus lamentos supermercatícios.)

Quando saímos da casa dos pais, carregamos um repertório capitalistas segundo o qual sabemos, meio no automático, o que escolher na hora de ir às compras. Há toda uma tradição que rege a decisão de preferir o produto A em vez do B. No começo, tendemos a seguir tal lastro. Fazer mercado é ritual mecânico, exercício de bagagem familiar. Mais do que comes e bebes, o carrinho é guardião de um campo semântico.

Aos poucos, vamos exercendo a autonomia e, ao escolher a marca que a mãe jamais compraria, acabamos quebrando a cara algumas vezes — e descobrindo produtos melhores ou mais baratos na maior parte delas.

O imigrante não tem essa. Parece que no supermercado a globalização nem pegou com tanta força assim — provavelmente por causa da perecibilidade dos víveres. Quase tudo é novo nome, nova marca, novas cores. Para piorar, com rótulos muitas vezes em idiomas indecifráveis. Não sou completamente analfabeto em alguns poucos idiomas, mas ainda assim é comum que eu me depare com invólucros em que as informações estão em oito línguas diferentes, das quais meus conhecimentos oscilam entre o “apenas identificar as letras” e o “nem isto”. Esta pasta de dente que acabei de pegar no armário, por exemplo: a embalagem traz os ingredientes em croata, em albanês, em grego, em checo, em búlgaro, em polonês, em russo e em algum idioma árabe — sobre o qual só concluo a origem por causa da grafia em “cobrês”.

Há uns 15 anos, eu morava no Brasil e passei parte das férias no enxerido papel de hóspede na casa dos amigos Regina e Rodrigo, que então viviam em Berlim. Na última noite, propus ir ao supermercado para comprar uns salsichões e uma meia-dúzia de cervejas para nossa derradeira janta juntos. Para minha decepção, o pacote daquilo que parecia ser a mais apetitosa das salsichas, aquela que tinha custado mais caro, não passava de um alimento em forma de patê para animais de estimação. Como felizmente não havia nenhum peludo ladrando nos arredores, o destino daquela iguaria foi a lata de lixo.

Ao menos as cervejas eram mesmo cervejas. E cervejas alemãs. Prost .

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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