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Há uma armadilha quase inevitável em “Jay Kelly”: transformar a crise de um astro famoso em autopiedade de luxo. Noah Baumbach percebe o risco, ronda o problema e, em seus melhores momentos, consegue extrair dele algo mais incômodo do que um simples lamento sobre a fama. Em outros, porém, deixa que a elegância do projeto suavize demais aquilo que deveria machucar. O filme acompanha Jay Kelly, ator de cinema consagrado vivido por George Clooney, em uma viagem pela Europa ao lado de Ron, seu empresário, interpretado por Adam Sandler. O trajeto, claro, vale menos pelos lugares do que pelo acerto de contas que provoca. Jay passa a encarar uma vida construída sobre trabalho, admiração pública, ausências privadas e uma ideia de legado que começa a parecer menos sólida do que ele imaginava.

A escolha de Clooney é o centro do filme. “Jay Kelly” não funcionaria da mesma maneira com um rosto menos carregado de história pública. O personagem depende da proximidade entre ficção e persona, não porque se trate de confissão, mas porque a imagem de Clooney chega antes de qualquer explicação. Há ali charme, autocontrole, fama duradoura, um tipo de elegância que o cinema americano aprendeu a vender como se fosse natural. Baumbach usa esse repertório a seu favor. Jay Kelly entra em cena e o espectador já entende parte do impasse: ele é um homem acostumado a ser reconhecido antes de ser compreendido.

O peso da imagem

O melhor de “Jay Kelly” está nessa tensão entre presença pública e empobrecimento íntimo. Jay vive cercado por expectativas, lembranças e pessoas que orbitam sua importância. Seu drama não nasce da falta de sucesso, mas do preço de ter feito do sucesso uma forma de existência. O filme poderia seguir por uma sátira mais ácida sobre Hollywood, seus rituais de veneração e sua impressionante capacidade de absolver os próprios mitos. Baumbach, no entanto, prefere um caminho menos cortante. Observa a celebridade com inteligência, mas raramente parece disposto a desmontar a engrenagem até o fim.

Essa escolha não é apenas defeito. “Jay Kelly” evita transformar o protagonista em caricatura de vaidade. Há algo de patético, mas também de reconhecível, em um homem que percebe tarde demais as zonas de abandono deixadas por uma vida devotada à própria imagem. A fama, aqui, não aparece somente como privilégio vistoso. Ela também funciona como uma forma de isolamento. Jay é admirado, servido, lembrado, celebrado. Mesmo assim, parece cada vez menos capaz de sustentar relações que não passem pela mediação de seu nome, de sua importância, de sua aura pública.

O incômodo é que essa delicadeza por vezes amortece o conflito. O filme ensaia ferir o mito, mas hesita antes de aprofundar o corte. Em vários trechos, a melancolia toma o lugar do atrito. A crise de Jay ganha contornos quase nobres, como se o roteiro preferisse organizar perdas, culpas e arrependimentos numa moldura elegante demais. Há verdade emocional nessa escolha, mas também proteção. “Jay Kelly” quer investigar o narcisismo de uma estrela sem deixar que essa estrela se torne desconfortável por muito tempo.

É aí que Adam Sandler se revela essencial. Ron não é apenas o acompanhante funcional do astro, nem um alívio cômico colocado ao lado do protagonista para tornar a história mais leve. Ele carrega uma intimidade profissional feita de dependência, afeto, rotina, ressentimento e lealdade. A relação entre Jay e Ron tira o filme da abstração sobre fama e o aproxima de uma pergunta mais concreta: quem cuida da vida de alguém que todos pensam conhecer? Sandler trabalha num registro discreto, atento a pequenas variações de cansaço e desconforto. Sua presença dá ao filme uma temperatura humana que Jay, aprisionado na própria imagem, nem sempre consegue oferecer.

A suavidade do acerto

Baumbach sempre se interessou por personagens que falam bem demais, que transformam fragilidade em discurso e defesa em inteligência. Em “Jay Kelly”, esse traço aparece filtrado por uma escala maior e por um sentimento mais conciliador. O filme tem aparência de produção adulta, com elenco numeroso, acabamento refinado, deslocamentos internacionais e composição visual cuidadosa. Nada disso soa como ostentação gratuita. A elegância combina com o universo do personagem. O problema é que, em certos momentos, o controle pesa mais do que a instabilidade. Tudo parece tão bem arrumado que a crise perde parte de sua aspereza.

A duração reforça essa impressão. “Jay Kelly” avança como uma travessia de balanço existencial, costurando passado, família, carreira e posteridade. Quando encontra o ritmo certo, essa estrutura permite que Jay seja visto por ângulos diversos, sem reduzi-lo ao astro vaidoso ou ao homem arrependido. Quando perde força, o filme se aproxima demais de uma reconciliação sentimental com a própria premissa. Falta uma dose maior de risco moral. Não se trata de exigir cinismo, escândalo ou crueldade gratuita, mas de perguntar com mais insistência quanto do sofrimento de Jay ainda preserva o conforto de ser ouvido, perdoado e admirado.

Mesmo assim, “Jay Kelly” está longe de ser um filme sem vigor. Há inteligência na maneira como Baumbach aproxima vida íntima e performance pública. Há também uma percepção pertinente de que legado, palavra tão cara a artistas consagrados, pode ser menos uma herança generosa do que uma tentativa de organizar danos. Jay deseja ser lembrado, mas o filme sugere que ser lembrado não resolve tudo. O que fica de uma pessoa não coincide necessariamente com a imagem que ela passou décadas tentando administrar.

A crítica mais severa ao filme seria chamá-lo de indulgente. E ele é, em parte. Mas essa indulgência não apaga seus acertos; define seu limite. “Jay Kelly” prefere a tristeza à crueldade, o balanço emocional à acusação frontal, a fissura discreta ao desmoronamento. Essa opção reduz sua força crítica, mas sustenta uma melancolia coerente. Baumbach não faz uma autópsia da celebridade. Faz o retrato de alguém que percebe, com atraso, que a própria imagem talvez tenha vivido melhor do que ele.

Clooney entende bem essa contradição. Sua atuação não tenta esconder o carisma que o torna ideal para o papel. Ao contrário, trabalha a partir dele. O interesse está justamente em ver como o brilho pode se converter em prisão, como a naturalidade de uma estrela pode carregar algo de defensivo. Sandler, por sua vez, oferece o peso de quem esteve perto demais da máquina para se iludir completamente com ela. Juntos, eles sustentam um filme que talvez não vá tão fundo quanto promete, mas encontra verdade suficiente nas áreas de cansaço, afeto e vaidade que decide observar.

“Jay Kelly” vale mais pelas frestas do que pelos grandes gestos. Seu olhar sobre Hollywood é brando, sua crítica ao privilégio poderia ser mais severa e seu sentimentalismo às vezes deixa organizado demais aquilo que deveria permanecer áspero. Ainda assim, o filme encontra um eixo forte ao perguntar o que resta quando a admiração pública já não serve como resposta íntima. Não é a grande demolição do mito da estrela. É algo menor, mais elegante e mais limitado: a tentativa de enxergar um homem atrás da imagem que ele mesmo ajudou a transformar em monumento.


Filme: Jay Kelly
Diretor: Noah Baumbach
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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