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“O Preço do Amanhã” parte de uma ideia simples e cruel. Nesse futuro criado por Andrew Niccol, o tempo substitui o dinheiro. As pessoas carregam no braço um relógio digital que mostra quantos anos, dias ou minutos ainda restam de vida. Quando o contador chega a zero, acabou. Não existe segunda chance. O personagem Will Salas, interpretado por Justin Timberlake, vive em Dayton, uma região pobre onde trabalhadores passam o dia inteiro tentando ganhar horas suficientes para sobreviver até a manhã seguinte.

A rotina de Will já nasce cansada. Ele acorda cedo, enfrenta filas, trabalha em uma fábrica e calcula cada gasto com a mãe Rachel, interpretada por Olivia Wilde. Um café custa minutos. Uma passagem de ônibus custa mais do que muita gente consegue pagar. Quando os preços aumentam de repente, o bairro inteiro entra em desespero. Pessoas começam a correr pelas ruas porque perder alguns segundos pode impedir alguém de chegar em casa vivo. Niccol transforma um problema econômico em tensão física. Os pobres vivem correndo. Os ricos caminham devagar porque possuem séculos guardados.

Alvo das autoridades

Quando Will conhece Henry Hamilton, personagem de Matt Bomer, ele aparenta ter pouco mais de 30 anos, mas já vive há mais de um século. Ele frequenta bares de Dayton cercado por ladrões que querem roubar seu tempo acumulado. Will impede um ataque liderado por Fortis, interpretado por Alex Pettyfer, e salva Hamilton. Durante a madrugada, o milionário transfere mais de cem anos para a conta de Will antes de desaparecer da cidade. A doação transforma um operário pobre em alvo das autoridades.

Raymond Leon, vivido por Cillian Murphy, trabalha como guardião do tempo, uma espécie de policial responsável por investigar transferências suspeitas. Para ele, ninguém em Dayton receberia um século inteiro sem cometer assassinato. Raymond passa a perseguir Will pelas ruas, pelos terminais e pelos postos de controle que separam os bairros pobres das áreas milionárias. Murphy interpreta o personagem com frieza e cansaço. Ele fala pouco, observa muito e carrega a postura de alguém que já viu dezenas de pessoas morrerem por atraso de segundos.

Contraste social

Quando atravessa os portões de New Greenwich, Will entra em um universo completamente diferente. Os carros são luxuosos, os restaurantes funcionam sem pressa e ninguém parece preocupado com o relógio no braço. Andrew Niccol mostra essa diferença sem exagerar nos discursos. Basta observar o ritmo das pessoas. Em Dayton, todo mundo corre. Em New Greenwich, ninguém tem motivo para acelerar os passos. O contraste funciona porque o diretor coloca detalhes simples em cena. Um trabalhador conta moedas para pegar o ônibus. Um empresário aposta anos inteiros em um cassino sem alterar a expressão do rosto.

Will conhece Sylvia Weis, personagem de Amanda Seyfried, durante uma festa organizada pelo pai dela, Philippe Weis, interpretado por Vincent Kartheiser. Philippe é um dos homens mais ricos daquele universo e defende o funcionamento do sistema que mantém pobres morrendo cedo enquanto milionários acumulam séculos. Sylvia cresceu cercada por luxo, mas percebe rapidamente que Will carrega uma inquietação diferente dos homens que frequentam aquelas festas. A aproximação entre os dois surge no meio da perseguição policial e ajuda o filme a ganhar ritmo de aventura.

Depois que Raymond aperta a caça contra Will, Sylvia acaba envolvida na fuga. Os dois atravessam estradas, roubam bancos de tempo e distribuem horas para trabalhadores que vivem perto da morte. O roteiro assume uma estrutura próxima de filmes de assalto. Há perseguições de carro, invasões, tiroteios e corridas contra cronômetros que nunca param. Em alguns momentos, Niccol simplifica demais certas soluções, principalmente quando o casal consegue escapar de situações perigosas com facilidade conveniente. Ainda assim, o filme mantém tensão suficiente porque a ameaça é constante. Qualquer atraso pode matar alguém no meio da rua.

Personagens

Justin Timberlake atua melhor nas cenas físicas do que nos momentos mais dramáticos, mas mantém bem a energia do protagonista. Amanda Seyfried dá equilíbrio para Sylvia, que começa a história protegida pela fortuna do pai e aos poucos percebe a violência escondida naquele modelo social. Já Cillian Murphy entrega o personagem mais interessante do elenco. Raymond Leon persegue Will sem virar um vilão caricatural. Ele parece preso a uma função burocrática que perdeu qualquer humanidade faz tempo.

Andrew Niccol já havia trabalhado temas parecidos em Gattaca, mas “O Preço do Amanhã” aposta em ritmo mais popular e acessível. O diretor mistura ficção científica com suspense de perseguição sem abandonar a crítica social que atravessa toda a trama. A diferença é que aqui a desigualdade aparece estampada no braço de cada personagem. Quem possui milhões de anos vive protegido atrás de carros blindados e seguranças armados. Quem possui algumas horas tenta atravessar a cidade antes do relógio zerar.

O filme tem alguns diálogos mais expositivos perto da reta final, mas a ideia central continua eficiente porque nasce de uma pergunta simples e realista. Quanto vale uma vida quando ela pode ser comprada por alguém mais rico. Niccol transforma essa pergunta em perseguição policial, romance e corrida contra o tempo sem abandonar a sensação de urgência que acompanha Will Salas desde a primeira cena.


Filme: O Preço do Amanhã
Diretor: Andrew Niccol
Ano: 2011
Gênero: Ação/Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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