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A menina deixada no orfanato não recebe uma cena grande. Gabrielle fica ali com Adrienne, e a infância passa sem que o abandono vire explicação pronta para cada gesto. Depois, quando Audrey Tautou surge adulta, não há entrada triunfal. Há cabaré, costura, bainhas feitas longe da frente da loja, homens olhando sem prestar muita atenção, noites em que cantar não muda a vida de ninguém. Gabrielle canta, mas não parece acreditar muito naquele palco. O trabalho de verdade está nas mãos.

Tautou evita qualquer doçura fácil. Sua Gabrielle é pequena no quadro, mas nunca dócil. Olha mais do que conversa. Guarda a boca fechada quando outros personagens esperariam uma resposta agradável. Não se move como alguém que já sabe que ficará famosa; move-se como alguém que aprendeu a contar moedas, favores e riscos. Essa mulher ainda não tem a proteção da marca Chanel. Tem um apelido, pouca margem, alguma insolência e a necessidade prática de sair do lugar em que nasceu.

A grife demora. Antes dela, há dependência, trabalho e cômodos onde Gabrielle precisa medir o próprio espaço. A alfaiataria, o cabaré e o quarto cedido não aparecem como degraus decorados rumo ao mito. São lugares de sobrevivência. Ela ainda não cria uma revolução. Procura uma posição menos estreita para o corpo, para a roupa, para o dia seguinte.

Quando Étienne Balsan aparece, a vida de Gabrielle muda de endereço. Benoît Poelvoorde interpreta o homem rico com uma mistura de graça, vaidade e descuido. Ele acolhe Gabrielle, diverte-se com ela, permite que ela entre num universo de cavalos, criados, refeições fartas e conversas de gente acostumada a mandar. A melhora é concreta. Há cama, há comida, há vestidos melhores que os do cabaré. Gabrielle continua dependendo da vontade de quem abriu a casa.

Quartos cedidos

A casa de Balsan é grande o bastante para recebê-la e estreita o bastante para lembrá-la de sua condição. Ela passa pelos salões como uma presença meio fora de lugar, sem que a humilhação precise ser sublinhada a cada cena. Balsan gosta dela quando sua diferença o entretém. Em outros momentos, essa mesma diferença vira incômodo. Poelvoorde não endurece o personagem até a caricatura. O privilégio aparece mais nos modos do que em explosões.

Gabrielle aceita abrigo, observa os hábitos, aproveita o que pode. Sua permanência tem cálculo, mas não cinismo de manual. Tautou deixa essa dureza à vista, sem pedir desculpas por ela. A jovem não agradece demais, não se enfeita para caber melhor, não finge ignorância diante da hierarquia que a cerca. Fica, mede, aprende, responde pouco. Às vezes, sua forma de resistência é apenas não se tornar decorativa.

A presença de Adrienne, vivida por Marie Gillain, abre uma possibilidade que logo perde espaço. As duas vêm do mesmo abandono e carregam a experiência comum de mulheres que dependem de combinações frágeis para atravessar a vida. No começo, esse vínculo tem peso. Depois, fica mais distante. A ausência não chega a romper a história, mas deixa uma falta perceptível, como se uma parte importante da origem de Gabrielle tivesse sido empurrada para fora da sala.

Arthur “Boy” Capel, de Alessandro Nivola, surge em outro registro. Ele não trata Gabrielle apenas como capricho ou estranheza. Reconhece nela uma competência que ainda não tem forma social clara. Nivola dá ao personagem uma elegância discreta, sem brilho de salvador. Com Boy, Gabrielle recebe afeto, apoio e oportunidade. O desconforto da casa de Balsan diminui; entram uma delicadeza maior e uma promessa mais arrumada.

Nada disso retira o incômodo do caminho. Gabrielle avança muitas vezes por portas abertas por homens. Tautou não encena gratidão como virtude. A personagem recebe ajuda, mas continua desconfiada do preço. Quando encontra chance de trabalhar, a chance vem atravessada por relações pessoais, desejo, dinheiro e posição social. Nada chega completamente limpo.

Roupas demais

As mulheres ao redor de Gabrielle carregam vestidos pesados, chapéus armados, cinturas presas, camadas de tecido que tornam cada deslocamento mais lento. Não é preciso explicar a violência delicada dessas roupas. O contraste aparece quando Gabrielle escolhe peças masculinas, formas mais simples, menos adorno. Antes de qualquer assinatura reconhecível, há um incômodo físico. Ela parece querer uma roupa que permita andar, montar, sentar, respirar sem cerimônia.

Nos figurinos de Catherine Leterrier, quase nada parece colocado ali apenas para anunciar a marca que viria depois. O uso cotidiano das peças pesa mais do que o brilho de coleção. Gabrielle escurece no meio de mulheres enfeitadas demais. Sua roupa parece improviso, defesa, solução. A elegância ainda não está pronta para ser vendida. Ela nasce primeiro como recusa do excesso, como ajuste ao corpo, como escolha de alguém que se irrita com o que atrapalha.

A fotografia e os ambientes mantêm tudo muito composto. A beleza é limpa, às vezes limpa em excesso. A pobreza de Gabrielle, a distância da irmã, a brutalidade discreta de certas relações de classe aparecem, mas raramente desorganizam a cena. Há momentos em que a emoção atravessa o quadro com cuidado demais. O sofrimento não se espalha, não suja a roupa, não altera a ordem dos cômodos. Tudo fica um pouco arrumado demais.

“Coco Antes de Chanel” permanece antes da glória, longe da pressa de empilhar feitos até transformar uma pessoa em monumento. Gabrielle ainda está aprendendo a negociar sua permanência nos lugares. A costura importa porque é ofício, não só sinal de genialidade futura. Uma bainha nos fundos da alfaiataria diz mais sobre sua posição do que um discurso sobre independência.

Audrey Tautou mantém a personagem num lugar áspero. Gabrielle pode ser antipática, impaciente, ingrata. Essa falta de polimento preserva algo vital. Uma heroína agradável, pronta para ser admirada desde a primeira cena, deixaria tudo mais pobre. A atriz trabalha com retenção. Um olhar para um vestido exagerado, uma resposta que não vem, um corpo que não se acomoda bem numa sala rica. A revolta passa por detalhes pequenos, sem precisar virar proclamação.

No fim, Gabrielle se aproxima da Chanel reconhecida, diante de modelos e de uma elegância consolidada. A solenidade pesa um pouco. Depois de tantas cenas em quartos emprestados, salões alheios e mesas onde ela ainda precisa medir o próprio lugar, a consagração parece arrumada demais. Antes disso, havia tecido nas mãos, roupa escura, gente rica por perto. Gabrielle permanece sentada.


Filme: Coco Antes de Chanel
Diretor: Anne Fontaine
Ano: 2009
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 3/5 1 1
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