Na delegacia, a porta está fechada, a mesa separa os dois homens e Batman pode alcançar o Coringa com as mãos. O problema já não está só naquela sala. Rachel e Dent foram levados para lugares diferentes, os prazos correm fora do prédio, e a polícia não tem como recuperar a vantagem apenas mantendo o prisioneiro sentado. Em “Batman — O Cavaleiro das Trevas”, Christopher Nolan junta Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart e Gary Oldman numa Gotham em que a máfia é atacada por uma promotoria em avanço, por uma polícia cheia de fissuras e por um vigilante que entra onde nenhum mandado chega. Os chefes do crime contratam o Coringa para tirar Batman do caminho, mas ele não se limita a esse serviço.
Antes dessa sala, um banco já tinha deixado de ser apenas banco. Homens com máscaras de palhaço entram, repartem tarefas, seguem para o alarme, o cofre, a saída. A quadrilha começa a perder membros pelas mãos da própria quadrilha. Não há infância, trauma, explicação arrumada. Há um roubo em que os cúmplices caem antes de qualquer divisão de dinheiro. Depois vêm a maquiagem borrada, as cicatrizes com relatos que não fecham, a fala irregular de Ledger, o corpo dele sempre um pouco deslocado dentro da roupa.
O rosto em público
Dent aparece onde Batman não pode aparecer. Aaron Eckhart lhe dá postura de promotor habituado a audiência, entrevista e acusação formal. Ele fala com o rosto descoberto, cercado por documentos, policiais, câmeras, criminosos que ainda podem ser chamados pelo nome dentro de um processo. Bruce Wayne observa esse caminho. Dent não precisa de armadura para entrar pela porta da frente. Também pode ser escoltado, interrogado pela imprensa, cobrado em público.
Gordon trabalha com menos limpeza. Gary Oldman mantém o policial cercado por suspeitas internas, acordos mal iluminados, operações que dependem de Batman e não deveriam depender. O bat-sinal aparece como instrumento de trabalho, não como ornamento. Criminosos mudam de comportamento ao vê-lo. Homens sem preparo vestem cópias ruins da roupa de Batman e surgem armados em situações que não controlam. Gordon aciona a luz, espera a resposta e volta para uma polícia que continua com seus próprios buracos.
Lau é arrancado de Hong Kong para ajudar o caso contra a máfia. A manobra coloca Batman longe de Gotham por alguns instantes e devolve à promotoria um homem útil. Dent tenta transformar isso em processo. Gordon tenta manter a operação de pé. Rachel fica entre o trabalho na promotoria, Bruce e Dent. Pouco depois, a cidade já está lidando com uma identidade falsa assumida em público, sequestros em endereços separados e uma corrida que começa tarde.
A moeda de Dent entra nessa parte sem pedir grande comentário. Primeiro, acompanha um homem que gosta de controlar a própria imagem. Depois, quando essa imagem é atingida, o objeto segue com ele para decisões que já não passam por audiência nem por testemunha. Eckhart não abandona a confiança inicial de Dent de uma vez. Ela fica atravessada, presa a um rosto que já não ocupa a cidade da mesma maneira.
Escolta e corredor
A escolta de Dent começa com viaturas, sirenes, túnel, uma tarefa policial de deslocamento. O comboio precisa atravessar Gotham. O Coringa aparece com armas pesadas. O Batmóvel perde utilidade, o Batpod sai da carcaça, um caminhão vira no asfalto. Gordon reaparece e prende o criminoso. A rua fica ocupada por metal, fumaça, homens saindo de veículos, uma operação que por instantes parece ter alcançado seu alvo.
Batman não atravessa essa passagem como figura intocável. Depende do veículo, perde o veículo, troca de máquina no meio da perseguição. A blindagem recebe o ataque. O túnel estreita a manobra. O caminhão tombado altera a rua. A captura do Coringa leva a ação de volta para dentro da delegacia, onde mesa, parede e porta fechada não bastam para segurar o que já foi preparado fora dali.
O hospital chega à lista de lugares retirados de sua rotina. Pacientes precisam sair, corredores são esvaziados, leitos ficam para trás. A explosão vem depois da evacuação, e a ameaça alcança um prédio onde a cidade guarda gente ferida. O Coringa já havia passado por banco, máfia, promotoria, polícia, comboio. Agora médicos, doentes, funcionários e quartos entram na mesma contagem apressada.
Lucius Fox recebe outro tipo de tarefa quando Bruce coloca o sonar diante dele. Celulares e telas passam a ajudar na busca pelo Coringa. Morgan Freeman olha para o recurso com a calma de quem sabe a diferença entre usar e guardar. Ele aceita aquela noite e exige que a máquina seja destruída depois. Enquanto a busca continua, a sala fica cheia de imagens, som, vigilância, uma ferramenta que ninguém deveria deixar pronta para a próxima crise.
Os 152 minutos dão tempo para esses personagens entrarem e saírem de salas diferentes, mas a pressão se acumula. Lau, Dent, Rachel, a fuga da delegacia, o hospital, as balsas, o sonar. A música às vezes sobe antes que a cena precise de tanto peso. Há trechos em que a urgência chega amontoada. O melhor material está quase sempre mais perto das coisas já colocadas em uso: máscara de palhaço, moeda, vidro, leito, túnel, telefone, detonador.
Nas balsas, não há corrida. Civis ocupam um barco, prisioneiros ocupam outro, a água separa as embarcações, cada grupo recebe um detonador. O desenho é insistente. Nolan marca a divisão com força, e a situação quase fica didática. Mas o botão está ali, perto dos dedos dos passageiros, enquanto o outro barco permanece à vista. Ninguém resolve aquilo com armadura. Ninguém sai correndo para buscar reforço.
Bale fica melhor quando Bruce observa e calcula sem anunciar tudo o que sente. A armadura permite entrar em lugares fechados, perseguir veículos, bater em criminosos, vigiar a cidade por aparelhos. Também pesa no corpo e na vida pública que ele não tem. Dent oferece por algum tempo uma alternativa com nome, cargo, rosto. Quando essa alternativa se rompe, Batman continua sendo chamado por um sinal que ninguém parece capaz de dispensar.
Gordon precisa falar em público depois do estrago. Lucius deixa a máquina depois de usada. Batman aceita versões que não podem ser explicadas a todos. A máfia, a promotoria e a polícia saem desse cerco com marcas diferentes. O banco foi invadido, o caminhão ficou no asfalto, o hospital esvaziou corredores, a delegacia perdeu controle, as balsas aguardam aproximação do cais.

