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Certos traumas não passam. Mudam de lugar, aderem ao corpo, contaminam escolhas, atravessam relações e acabam encontrando no cinema uma forma bastante fértil de reaparecer. “Pássaro do Oriente” trabalha justamente nesse terreno, sem pressa de organizar tudo para o espectador, sem a boa vontade de resolver um nó para logo entregar outro, sem fingir que uma vida quebrada se recompõe em duas cenas. O filme de Wash Westmoreland, lançado em 2019, assume a condição de enigma e paga o preço por isso. Parte do público se irrita, parte se perde, parte cobra respostas imediatas, como se todo suspense tivesse de funcionar no ritmo de uma esteira industrial, limpando rebarbas antes que alguém perca a paciência.

A origem está no romance “Delito Sem Provas”, de Susanna Jones, publicado no Brasil dezoito anos antes pela Editorial Presença. Westmoreland não trata o livro como peça intocável. Usa o material literário como ponto de partida e desloca algumas ênfases para o cinema, com arcos que parecem se afastar da página para ganhar outro tipo de respiração diante da câmera. A passagem de uma obra de um meio para outro nunca garante fidelidade emocional, nem garante que a imagem vá traduzir aquilo que a prosa sugeria. Mesmo assim, quando a adaptação encontra uma temperatura própria, a história ganha outro corpo, menos dependente da imaginação solitária de quem lê e mais exposta à presença dos atores, dos silêncios, dos lugares e dos rostos.

O roteiro, assinado pelo próprio Westmoreland, escolhe o mistério como caminho mais áspero. O drama do livro permanece ali, mas cercado por uma tensão que raramente se desfaz por completo. Há momentos em que o diretor interrompe a frieza do suspense para tocar zonas mais sentimentais, quase pegajosas, e essas pausas não chegam como defeito automático. Elas tornam Lucy Fly mais difícil de classificar. O cálculo de um thriller precisa de precisão, mas a dor de uma personagem como Lucy não anda em linha reta. Ela aparece num gesto defensivo, numa resposta atravessada, numa incapacidade de se entregar sem antes arruinar alguma coisa.

Alicia Vikander poderia bastar para sustentar “Pássaro do Oriente”. Sua Lucy Fly é uma sueca autoexilada em Tóquio, carregando tragédias pessoais que a tornaram uma presença deslocada mesmo quando parece dominar a rotina ao redor. A atriz já havia mostrado uma intensidade rara em “Ex_Machina: Instinto Artificial”, de Alex Garland, embora ali apareça menos do que se desejaria, e em “A Garota Dinamarquesa”, de Tom Hooper, papel pelo qual venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante como Gerda Wegener. Aqui, Vikander trabalha com outra matéria. Lucy não é exatamente explosiva. Ela se fecha, observa, traduz, mede distâncias, desaparece por dentro antes que alguém note o estrago.

Desejo e suspeita

Lucy trabalha como tradutora, e essa função diz muito sobre sua vida no Japão. Ela entende palavras, atravessa idiomas, ajuda outros a se comunicarem, mas permanece inadequada num país que a acolhe sem lhe dar pertencimento pleno. Tóquio não surge apenas como cenário exótico ou cartão-postal de estrangeira melancólica. A cidade funciona como um lugar onde Lucy pode se esconder de sua história e, ao mesmo tempo, ser lembrada o tempo inteiro de que não pertence inteiramente a lugar nenhum. A protagonista parece sempre um pouco fora do eixo, como se toda conversa exigisse esforço demais e todo afeto cobrasse uma língua que ela ainda não aprendeu.

Essa inadequação escorre para o romance com Teiji, interpretado por Naoki Kobayashi. O vínculo entre os dois nunca se firma de maneira limpa. Há atração, desejo, curiosidade, algum conforto físico, mas também uma distância que Lucy não consegue atravessar sem recuar. Teiji funciona como presença e ameaça, abrigo e espelho. A relação avança por aproximações incompletas, sem entregar aquele tipo de intimidade que resolveria a solidão da protagonista. Lucy parece procurar nele uma saída para si mesma, mas também age como quem sabe que qualquer saída pode virar outra forma de prisão.

Lily Bridges, vivida por Riley Keough, entra nessa vida já desarrumada como uma perturbação calculada. A personagem vem dos Estados Unidos, carrega uma trajetória que passa pela enfermagem e chega ao trabalho de bartender em Tóquio, num deslocamento que conversa com o de Lucy sem jamais se confundir com ele. Lily tem algo de parasitário, uma doçura encenada, uma ambiguidade que o filme explora sem pressa. Keough sustenta essa duplicidade com segurança. Sua presença parece casual no início, mas começa a ocupar espaço, a invadir a atmosfera, a puxar olhares e a abrir rachaduras no frágil equilíbrio da protagonista.

Westmoreland arrisca ao deslocar parte da atenção para Lily. A história poderia permanecer colada a Lucy, sua culpa e suas lembranças, mas a entrada da americana altera o peso das cenas. Lily cresce pouco a pouco, sem precisar tomar a trama à força. Ela se aproxima, observa, seduz, depende, ameaça, ou talvez apenas exista num ponto vulnerável demais da vida de Lucy. O filme se alimenta dessa dúvida. A relação entre as duas não precisa ser explicada por grandes discursos, porque se instala em pequenas disputas de presença, em constrangimentos, em gestos que parecem inocentes até deixarem de parecer.

O desaparecimento que move a intriga não transforma “Pássaro do Oriente” num suspense convencional de pistas organizadas. A suspeita se espalha antes de se fixar. Lucy se vê implicada em circunstâncias estranhas, em perguntas que voltam sempre ao mesmo ponto, em lembranças que não oferecem abrigo. Ambientada na década de 1980, a história ganha uma camada de isolamento que favorece a paranoia. Não há facilidade tecnológica capaz de dissolver as sombras. Há ruas, apartamentos, bares, fotografias, olhares e versões incompletas de uma mulher que talvez conheça menos de si do que os outros imaginam.

A densidade do filme nasce desse acúmulo. Lucy não é uma investigadora de si mesma por vocação, nem uma vítima transparente à espera de absolvição. Ela tem zonas opacas, desejos mal resolvidos, uma fragilidade espiritual que se abre para presenças capazes de adoecer também seu corpo. Vikander não pede simpatia a cada cena. Sua atuação permite que a protagonista seja ferida e irritante, lúcida e autodestrutiva, inteligente e incapaz de escapar de certas repetições. É uma composição arriscada porque não oferece ao público uma chave confortável para julgar a personagem.

O mistério, em muitos momentos, importa menos que o estado emocional criado por ele. “Pássaro do Oriente” não se apressa em entregar respostas porque seu interesse está no modo como a suspeita corrói Lucy. Cada aproximação com Teiji parece carregar um resto de dúvida. Cada cena com Lily acrescenta um pequeno desajuste. Cada lembrança do passado empurra a protagonista para um ponto em que culpa e desejo começam a se misturar. Westmoreland sabe que o suspense psicológico não precisa apenas esconder informação. Pode também mostrar demais uma ferida sem explicar de imediato de onde vem o sangue.

Essa escolha torna o filme difícil para quem espera uma máquina narrativa de encaixe rápido. Há anticlímax, pausas, zonas sentimentais, curvas que parecem mais instintivas que calculadas. Algumas delas podem incomodar, e talvez devam. O diretor não facilita a vida de quem assiste. Não transforma Lucy numa figura didática, nem transforma o crime em simples quebra-cabeça. A protagonista tem um gosto estranho por se perder, por avançar justamente na direção daquilo que a ameaça, por confundir afeto com perigo e perigo com alguma forma de reconhecimento.

A relação entre literatura e cinema aparece menos como tema declarado e mais como procedimento. O romance de Susanna Jones oferece a ossatura, mas Westmoreland procura textura, presença, respiração. O que no livro depende do fluxo da imaginação ganha no filme a materialidade do rosto de Vikander, da figura dúbia de Keough, da reserva de Kobayashi e de uma Tóquio que cerca a protagonista sem precisar explicá-la. A adaptação não se limita a ilustrar o texto. Ela testa o que aquela história suporta quando colocada diante da câmera, quando a culpa precisa passar pelos olhos, pela pele, pela hesitação entre uma frase e outra.

“Pássaro do Oriente” não é suspense para todos, e isso pesa a favor e contra ele. A trama pode frustrar quem procura uma resolução cristalina e uma progressão sem desvios. Também pode prender por semanas quem aceita entrar nesse jogo de deslocamento, ciúme, memória e perigo íntimo. Westmoreland constrói um filme que incomoda porque recusa a limpeza. Lucy não atravessa Tóquio como heroína de mistério, mas como alguém que levou sua própria ruína para outro continente e descobriu que a distância não bastava. Depois que a terra treme, resta esperar se alguma ave ainda canta no escuro.


Filme: Pássaro do Oriente
Diretor: Wash Westmoreland
Ano: 2019
Gênero: Drama/Mistério/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
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