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A Espanha levou décadas para transformar seu cinema numa das forças mais vivas da Europa. A produção que enfrentou a sombra da ditadura de Francisco Franco, com mais força a partir dos anos 1960, deixou marcas como “Viridiana”, de Luis Buñuel, e “Carmen”, de Carlos Saura, antes de Pedro Almodóvar se tornar o rosto mais conhecido dessa cinematografia fora do país. O século 21, porém, mostrou que a Espanha não depende apenas de Almodóvar, nem mesmo quando seus dramas familiares, suas culpas antigas e suas feridas domésticas parecem atravessar filmes de outro registro. Em “Abaixo de Zero”, Lluís Quílez parte de um roteiro escrito com Fernando Navarro e coloca essa matéria num suspense de terror feito de frio, metal, estrada, presos e um policial obrigado a escolher enquanto a noite desaba sobre ele.

Cuenca aparece sob um inverno pesado, num turno em que ninguém parece esperar nada além de trabalho cumprido e volta para casa. Martín, vivido por Javier Gutiérrez, começa ali seu primeiro dia na função de conduzir um ônibus penitenciário com sete presos perigosos. A tarefa lhe chega como rotina de segurança, mas a noite já carrega mais pressão do que Montesinos, personagem de Isak Férriz, deixa transparecer. O colega trata normas como pequenos incômodos e atravessa o serviço com uma folga moral que, naquele ambiente, logo deixa de ser traço de personalidade.

Martín carrega família, disciplina e um senso de dever quase incômodo para quem precisa dividir o turno com Montesinos. O outro policial se move com um cinismo prático, capaz de desrespeitar regra menor, como a que impede agentes de usarem brincos durante o expediente, sem notar que a desobediência pequena também prepara terreno para falhas maiores. Quílez não precisa transformar um em santo e o outro em vilão para estabelecer a distância entre os dois. Basta colocá-los diante do mesmo ônibus, da mesma estrada e dos mesmos homens algemados, cada um reagindo ao serviço com um grau diferente de descuido.

A revista antes da saída tenta impor ordem a um grupo que entra no veículo já carregando histórico, pena e ameaça. Drogas, armas brancas e qualquer objeto suspeito precisam ficar fora da transferência, mas Ramis, papel de Luis Callejo, passa pelo controle com um pequeno artefato de metal que a inspeção não consegue barrar. Ao lado dele seguem Nano, de Patrick Criado, Rei, de Édgar Vittorino, Mihai, de Florin Opritescu, Chino, de Àlex Monner, Golum, de Andrés Gertrúdix, e Pardo, interpretado por Miquel Gelabert Bordoy. O ônibus não transporta apenas presos. Transporta rivalidades, cálculos, medo, bravata e sete maneiras diferentes de medir a fraqueza dos guardas.

A transferência noturna deveria reduzir riscos. Na prática, a escuridão deixa todos mais isolados. O nevoeiro cobre a estrada, o frio endurece o ambiente, a visibilidade diminui e a viagem se transforma numa passagem estreita entre a penitenciária deixada para trás e outra que ainda não apareceu. Martín e Montesinos vigiam os presos, tentam conter provocações e seguem por uma rota em que qualquer ruído pode ser ameaça. As grades separam corpos, mas não separam intenções, e cada homem no ônibus começa a entender que a segurança prometida pelo procedimento depende de muito pouco.

Ônibus sem saída

A parada brusca rompe a ordem antes que alguém consiga nomear o perigo. O ônibus trava no meio da noite, o interior se agita, os presos levantam hipóteses, os policiais procuram controle e a estrada não oferece resposta. Pode ser acidente, resgate, armadilha ou execução. Mihai tenta fazer a própria versão crescer, insinuando que criminosos conhecidos talvez tenham vindo buscá-lo, mas a fala também carrega vaidade, medo e desejo de impressionar homens que não costumam conceder respeito de graça.

Martín sai para entender o que aconteceu e encontra Montesinos dentro de uma confusão que já não se parece com operação policial. A noite engole distância, o nevoeiro apaga contornos e o ônibus passa de instrumento de transporte a abrigo frágil. Do lado de dentro, a falta de informação vira combustível. Do lado de fora, cada movimento pode trazer uma nova ameaça. O veículo feito para impedir fuga agora impede também qualquer saída segura, e a hierarquia entre polícia e presos começa a perder firmeza.

Miguel muda a natureza da crise. Karra Elejalde interpreta um homem empurrado para fora dos limites institucionais por uma perda que ele não pretende entregar aos trâmites da justiça. Ele busca Nano, autor de um crime bárbaro contra sua filha, e não chega àquela estrada para pedir explicação. Chega para cobrar. A partir de sua entrada, a noite deixa de girar apenas em torno do ataque ao ônibus e passa a colocar Martín diante de um dilema que nenhuma norma de escolta resolve com facilidade.

Nano deixa de ser apenas mais um detento quando Miguel se aproxima. Patrick Criado compõe o personagem com medo, cálculo e uma urgência que não permite conforto moral ao espectador. O crime que o acompanha pesa em cada tentativa de negociação, em cada gesto de autopreservação, em cada olhar lançado ao policial que ainda tenta manter a lei de pé. Não há absolvição fácil nesse espaço fechado. Há um homem perseguido por uma vingança direta e um agente que precisa impedir uma execução enquanto também tenta manter vivos outros homens que poderiam matá-lo.

Javier Gutiérrez evita transformar Martín numa figura heroica de superfície. O policial sente o peso da situação, improvisa, se desloca entre ameaça e obrigação, erra o passo e continua tentando preservar alguma ordem quando a noite já corroeu quase tudo. A autoridade dele não nasce de dureza exibida, mas de insistência. Ele precisa negociar com presos, encarar Miguel, lidar com a própria vulnerabilidade e impedir que o ônibus vire apenas um cenário de acerto de contas.

Miguel, por sua vez, não chega vestido de monstro. Ele traz uma dor que se converteu em método. Karra Elejalde já havia mostrado precisão em filmes de outro tom, como “100 Metros”, e aqui ocupa a tela com uma aspereza sem ornamento. O personagem não quer consolo, reparação simbólica nem espera institucional. Quer Nano ao alcance das mãos. Essa simplicidade brutal empurra “Abaixo de Zero” para um território em que a vingança aparece como resposta errada para uma ferida que continua real.

Ramis amplia a instabilidade por outro caminho. O pequeno metal escondido depois da revista lembra que toda segurança tem fresta, principalmente quando sete homens acuados dividem um mesmo espaço. Uma porta, uma algema, uma grade, um objeto mínimo e uma frase mal calculada podem deslocar a vantagem. Os presos não funcionam como massa indistinta. Cada um observa o outro, mede chances, tenta descobrir quem ainda manda e quem já perdeu controle. A ameaça externa não elimina a ameaça interna. Apenas obriga todos a dividir o mesmo frio.

Na reta final, a lembrança de “A Qualquer Custo”, de David Mackenzie, aparece na perseguição que evoca o personagem de Ben Foster. Quílez não procura a mesma paisagem nem a mesma secura americana. Trabalha com o confinamento espanhol, com o gelo, com o asfalto tomado por neblina e com um veículo transformado em ponto de combustão. O filme começa travado pela temperatura baixa e esquenta por atrito. Corpos presos, armas, culpa, grades e decisões urgentes produzem mais calor que qualquer explosão.

A estrutura de “Abaixo de Zero” evita permanecer numa única promessa. Primeiro vem a escolta. Depois a falha na estrada. Em seguida, a suspeita de resgate e a desordem causada pela parada. Por fim, Miguel traz a conta particular que desloca todo o peso da situação. A cada mudança, Martín perde um pedaço do controle que imaginava ter. Os presos também precisam recalcular posições, porque a ameaça já não pertence apenas ao Estado, à polícia ou ao código penal. A noite cria um tribunal improvisado, sem juiz, sem rito e sem tempo.

O parentesco com certos dramas espanhóis de família e culpa aparece de maneira enviesada. A filha de Miguel não vira enfeite emocional nem desculpa para discurso. Sua morte empurra ações concretas. Miguel persegue. Nano se protege. Martín tenta impedir que a punição privada substitua a sentença. O filme mantém o gênero em primeiro plano, mas deixa uma ferida doméstica contaminar o mecanismo de suspense. A dor não fica no passado. Ela entra na estrada, atravessa o ônibus e muda a conduta dos homens armados.

Os 106 minutos ajudam Quílez a encerrar a história antes que a engrenagem perca força. “Abaixo de Zero” não se alonga em busca de grande arremate, nem deixa seus arcos espalhados pelo caminho. A tensão chega ao ponto de fervura e o filme corta no momento em que ainda existe pressão. O resultado tem precisão, mas não fica frio, porque o medo, o sangue e a exaustão impedem a sensação de exercício calculado demais. A transferência começa como tarefa policial e acaba convertida num confronto em que sobreviver já não depende apenas de cumprir protocolo.

A vitalidade do cinema espanhol aparece justamente nessa capacidade de tratar gênero popular com elenco forte e sem medo de brutalidade. “Abaixo de Zero” usa a paisagem gelada como cerco, o ônibus como panela de pressão e o grupo de presos como matéria instável. Gutiérrez, Elejalde e Criado seguram os momentos de maior peso, enquanto Callejo, Férriz, Vittorino, Opritescu, Monner, Gertrúdix e Gelabert Bordoy mantêm o espaço interno carregado de cálculo e desconfiança. O frio nunca sai de cena, mas a violência faz o metal suar.


Filme: Abaixo de Zero
Diretor: Lluís Quílez
Ano: 2021
Gênero: Ação/Crime/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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