Will Smith já foi o homem do momento por muitos motivos, alguns melhores que outros. Mais de quatro anos depois do Oscar realizado em março de 2022, ainda é difícil falar de sua trajetória recente sem lembrar a cena em que o ator subiu ao palco e deu um tapa em Chris Rock, depois de uma piada do comediante sobre a alopecia de Jada Pinkett Smith. Foi um daqueles episódios que saem do controle na hora em que acontecem. A cerimônia continuou, os prêmios foram entregues, mas a imagem ficou maior que a noite inteira.
Na mesma edição, Smith recebeu o Oscar de Melhor Ator por “King Richard: Criando Campeãs”, drama de família dirigido por Reinaldo Marcus Green. No filme, ele interpreta Richard Williams, pai de Venus e Serena Williams, duas meninas negras e pobres que, sob a disciplina obsessiva do pai, chegaram ao topo do tênis, esporte associado por muito tempo ao dinheiro, à branquitude e a uma ideia quase aristocrática de elegância. A vitória de Smith poderia ter sido lembrada como ponto máximo de uma carreira construída entre o carisma, a comédia, o drama e os grandes filmes de ação. Não foi bem isso que aconteceu.
O tapa engoliu o prêmio. A conversa saiu do desempenho em “King Richard” e foi para o gesto, para a reação da plateia, para as desculpas, para o constrangimento geral e para a velha fome pública por queda, punição e espetáculo. Naquele momento, parecia impossível separar o ator do episódio. Hoje, a cena já não pertence apenas ao escândalo imediato. Entrou no catálogo das bizarrices de Hollywood, essa máquina que vende brilho, fabrica prestígio, encena espontaneidade e depois finge surpresa quando alguma coisa escapa do roteiro.
Ganhar um Oscar continua sendo sinal de prestígio em Hollywood, embora Cannes, Veneza e Sundance, cada um a seu modo, costumem estar mais próximos de uma ideia de cinema como risco artístico. Smith sabe disso. Antes da consagração e da pancadaria simbólica que veio junto dela, o ator já tinha voltado ao centro da conversa por causa de “Projeto Gemini”, filme de 2019 dirigido por Ang Lee. A produção foi mal recebida por boa parte da crítica, mas encontrou público na Netflix e continua tendo um apelo simples de entender. Will Smith luta contra Will Smith. O resto vem depois.
Em “Projeto Gemini”, Smith faz uma dupla jornada. Ele interpreta Henry Brogan, matador de elite cansado, já perto de abandonar o ofício, e também uma versão mais jovem de si mesmo, criada em laboratório para ser mais rápida, mais forte e mais obediente. A tecnologia digital faz o truque. O cinema já tinha usado recursos semelhantes em “O Irlandês”, de Martin Scorsese, embora ali o movimento fosse outro, ligado ao rejuvenescimento dos atores. Aqui, Ang Lee transforma a aparência jovem de Smith num inimigo de carne, osso e pixels.
O recurso visual contou com a colaboração do modelo brasileiro Victor Hugo, sósia mais novo do ator. O resultado nem sempre convence por completo, mas tem uma estranheza que combina com a história. O rosto jovem de Smith parece familiar demais e, ao mesmo tempo, deslocado. Não é apenas um clone. É uma lembrança agressiva. Um reflexo armado. Uma versão que ainda não sabe direito quem é, mas já foi treinada para matar.
O homem diante da cópia
Henry Brogan é um atirador de elite formado pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha americana. No presente da trama, trabalha ligado a uma agência de inteligência comandada por Janet Lassiter, personagem de Linda Emond. A abertura mostra Brogan em ação. A sequência é bem filmada, calculada, meio absurda, como quase tudo no filme. Ele cumpre a missão, mas percebe que alguma coisa saiu perto demais do erro. Para um homem acostumado à precisão, depender do acaso é uma forma de derrota.
Essa dúvida pesa. Brogan entende que precisa parar. Não por virtude, mas por cansaço. Ele já matou demais, viu demais, acertou demais. Decide se aposentar e tentar uma vida discreta na Baía de Buttermilk Sound, na Geórgia. Mantém um barco, conversa pouco, tenta ocupar o tempo com uma normalidade que não combina com ele. Ali conhece Danielle Zakarewski, funcionária da doca vivida por Mary Elizabeth Winstead. Ela parece apenas uma presença casual, uma mulher fazendo seu trabalho. Brogan desconfia. Ele sempre desconfia. E, dessa vez, tem razão.
Danielle não é exatamente quem diz ser. A descoberta empurra Brogan de volta para o mundo que ele queria deixar. A espionagem, a vigilância e a perseguição aparecem como uma doença antiga. Ele sai do sistema, mas o sistema continua grudado nele. Essa é uma das ideias mais fortes do filme, mesmo quando o roteiro prefere correr, atirar e explodir coisas no lugar de respirar. Henry Brogan quer descanso. O filme não permite.
Clay Verris, interpretado por Clive Owen, surge como o homem por trás da operação. O personagem deveria ter peso, ameaça, presença. Owen aparece estranhamente apagado, como se a própria estrutura do filme o empurrasse para uma função burocrática. Verris é menos um vilão de carne e osso que um gerente de laboratório com pretensão de deus. Ele acredita ter fabricado um soldado melhor. Mais limpo, mais controlável, sem as hesitações morais que começam a corroer Brogan.
A perseguição leva Brogan e Danielle para fora dos Estados Unidos. Eles chegam a Cartagena, na Colômbia, com a ajuda de Baron, vivido por Benedict Wong. Baron entra como respiro cômico, e Wong sabe fazer isso sem parecer perdido no meio da ação. Há uma leveza útil em suas cenas. O filme precisa dela, porque boa parte da trama se move numa tensão fabricada, entre conspirações, tiros, fugas e revelações que o espectador já espera antes de os personagens verbalizarem.
O jogo de gato e rato funciona pelo movimento. Motos, becos, telhados, barcos, armas, corpos lançados de um lado para outro. Ang Lee filma a ação com cuidado, às vezes com cuidado demais. Há momentos em que a técnica chama mais atenção que o perigo. A imagem parece polida, quase limpa, mesmo quando a cena pede sujeira. Esse excesso de nitidez cria uma sensação curiosa. O filme quer ser físico, mas a tecnologia aparece o tempo todo entre o corpo e o impacto.
Quando Brogan encontra sua versão jovem, “Projeto Gemini” assume de vez sua parte mais absurda. O confronto não é apenas entre dois homens. É entre o passado e o presente, entre potência e desgaste, entre obediência e remorso. O jovem clone não carrega memória suficiente para entender a dor que herdou. O velho Brogan olha para ele e enxerga aquilo que já foi, ou aquilo que talvez nunca tenha sido. A situação tem algo de ridículo, claro. Também tem algo de triste.
O roteiro de Billy Ray, Darren Lemke e David Benioff mistura drama de consciência, ficção científica, thriller de espionagem, conspiração internacional e melodrama familiar. Nem tudo se encaixa. Algumas falas explicam demais. Algumas viradas chegam com atraso. O desfecho é piegas, improvável e meio nonsense. Brogan precisa acertar as contas com o passado, salvar o rapaz que tem seu rosto e sair andando como quem encerra uma dívida moral. O filme compra essa solução com seriedade. Cabe ao público aceitar ou não.
Ang Lee tem talento suficiente para dar alguma graça a um despautério desses. “Projeto Gemini” não chega perto de “O Tigre e o Dragão”, mas lembra, de longe, o interesse do diretor por corpos em situação impossível. No filme de 2000, a coreografia flertava com sonho, voo e liberdade. Aqui, a tecnologia tenta dar forma ao medo de envelhecer, falhar e ser trocado por alguém mais novo. A comparação é desigual, mas ajuda a entender a obsessão de Lee por imagens que desafiam o limite do corpo.
O problema é que “Projeto Gemini” nem sempre sabe se quer ser um drama sobre identidade ou um filme de perseguição para passar sem compromisso. Talvez seja melhor quando não escolhe. A parte dramática é rasa, mas dá um motivo para a pancadaria. A ação é exagerada, mas mantém o interesse. A tecnologia envelhece em alguns pontos, mas ainda provoca estranhamento. E Will Smith, mesmo cercado por efeitos, continua sendo o centro da operação. Poucos atores sustentam tão bem um filme irregular apenas com presença.
Visto hoje, “Projeto Gemini” ganhou uma camada involuntária. Não porque antecipe qualquer escândalo, nem porque explique Will Smith, mas porque coloca o ator diante de suas próprias versões. O astro confiante, o homem cansado, o profissional treinado para agradar, o sujeito assombrado pelo que fez, a imagem jovem que insiste em voltar. O filme não tinha como saber o que aconteceria no Oscar de março de 2022. Mesmo assim, a ideia de um homem lutando contra o próprio reflexo ficou mais incômoda depois daquilo.
“Projeto Gemini” foi detonado por muitos críticos e abraçado por parte do público porque não exige reverência. Entrega ação, exagero, tecnologia, perseguição internacional e Will Smith em dose dupla. Não é um grande filme. Também não é o desastre que disseram. Tem cenas vistosas, momentos artificiais, humor pontual, sentimentalismo fora de medida e uma premissa forte o bastante para atravessar seus tropeços. Para entrar na brincadeira, é preciso aceitar o pacto. Crer no clone, no drama, na fuga e na ideia de que um homem pode encontrar, no rosto mais jovem de si mesmo, o inimigo que vinha evitando havia anos.

