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A infância, esse território mágico para onde se transporta o homem sempre que necessita de alento frente à dureza da existência, nunca suscita-nos memórias de como a vida fora em verdade. Escolhemos do que queremos nos lembrar, que passagens menos felizes preferimos varrer para debaixo do tapete, que circunstâncias merecem ocupar em nós um quinhão de nossas vivências. As brincadeiras, o que conversávamos com os colegas da sala e com os companheiros da rua, o cheiro do bolo do lanche da tarde preparado pela avó devotada ou as broncas de uma professora um pouco mais caxias, tudo o que vivemos ao longo de nossos anos mais verdes se nos desvela de uma forma eivada de fantasia em que nada é tão digno de crédito. O mundo se nos apresenta como o cenário de um filme um tanto comprido além da conta, cujo roteiro termina por nos vencer e nos fazer sonhar. Lacy sonha, ao lado de uma mãe amorosa, porém insegura, e as protagonistas de “Planeta Janet” preenchem 113 minutos de um drama agridoce, tragicômico, que escarafuncha uma solidão bastante peculiar. Sem pressa, Annie Baker envolve a menina e sua mãe, a Janet do título, num universo de emoções contraditórias, no qual esta é o astro mais importante e a primeira é um satélite fiel — embora elas nem sempre estejam alinhadas.

A culpa é da mãe 

À sorrelfa, Lacy deixa o quarto do acampamento de verão e telefona para a mãe, pedindo-lhe que a busque. Ela não se sente amada, acha que vai despertar a comiseração de Janet, mas só o que consegue é um sonoro dar de ombros, e termina esquecendo a vontade de se matar para usufruir o resto das férias entre dois adultos aborrecidos. Janet é acupunturista e atende em casa, o que a leva a ficar um tempo excessivo com Wayne, o namorado vinte anos mais velho e misterioso interpretado por Will Patton, um peso do qual por alguma razão não se livra. Baker é hábil em fazer o espectador tomar a história sob a perspectiva de Lacy, uma criança de onze anos na Massachusetts rural do início da década de 1990, e logo resta óbvio que há um pedaço generoso de sua própria vida na tela. Vencedora do Prêmio Pulitzer por “The Flick” (2014), peça sobre a vida de três funcionários de um cinema de arte de uma Massachusetts quase medieval, a dramaturga reforça aqui memórias felizes e nem tanto, colocando na boca das personagens de Zoe Ziegler e Julianne Nicholson impressões vívidas acerca dos sucessos e fracassos da maternidade.


Filme: Planeta Janet 
Diretor: Annie Baker
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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