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“O Homem Sem Sombra” surgiu no começo dos anos 2000 como mais uma tentativa de Hollywood transformar paranoia científica em entretenimento de grande orçamento. Sob direção de Paul Verhoeven, conhecido por filmes como Robocop e Instinto Selvagem, a produção abandona qualquer delicadeza logo nos primeiros minutos. Sebastian Caine (Kevin Bacon) lidera uma equipe de pesquisadores financiada pelo governo americano dentro de um laboratório subterrâneo altamente protegido. O objetivo é desenvolver um soro capaz de tornar soldados invisíveis em operações militares. O problema é que Sebastian não suporta dividir mérito com ninguém.

Ao lado de Linda McKay (Elisabeth Shue), sua ex-namorada, Matt Kensington (Josh Brolin) e outros cientistas, Sebastian consegue tornar invisível um gorila e depois restaurar sua aparência normal. O resultado deveria ser comunicado imediatamente à comissão responsável pelo projeto. Sebastian, porém, prefere esconder a descoberta. Ele quer entrar para a história como o primeiro ser humano invisível. A decisão coloca todos os colegas em uma situação delicada, porque Linda e Matt sabem que qualquer erro pode destruir suas carreiras e levar o laboratório inteiro ao fechamento.

Kevin Bacon entende rapidamente o tipo de personagem que tem nas mãos. Sebastian é brilhante, sedutor e profundamente arrogante. Ele conversa com colegas como quem distribui ordens dentro de um quartel e trata qualquer dúvida como afronta pessoal. Mesmo antes da experiência humana acontecer, o personagem já transmite uma sensação desagradável. Existe algo infantil na forma como ele exige admiração constante. Quando finalmente se torna invisível, aquela arrogância ganha liberdade total.

O laboratório vira prisão

A primeira metade do filme trabalha quase como um suspense de escritório. Sebastian passa a circular pelos corredores sem ser visto, ouvindo conversas, espionando colegas e fazendo pequenas “brincadeiras” de gosto duvidoso. Paul Verhoeven insere humor perverso nessas cenas porque entende o ridículo daquele homem encantado com o próprio poder. Em determinado momento, Sebastian invade espaços privados apenas para provar que consegue. Ele age como uma criança rica quebrando objetos dentro de uma loja sem medo de punição.

Só que a situação piora. O procedimento para restaurar sua aparência falha violentamente, deixando Sebastian preso naquele estado invisível. O laboratório então deixa de parecer um centro científico sofisticado e começa a funcionar como uma prisão subterrânea. Linda tenta manter o grupo unido enquanto Matt procura soluções técnicas para estabilizar o experimento. Sarah Kennedy (Rhona Mitra), Carter Abbey (Greg Grunberg), Janice Walton (Kim Dickens) e Frank Chase (Joey Slotnick) passam a trabalhar sob tensão permanente. Ninguém sabe exatamente onde Sebastian está a cada minuto.

O filme cresce bastante nesse trecho porque Verhoeven usa os espaços fechados de forma inteligente. Elevadores travam, portas exigem códigos especiais e sensores térmicos substituem contato visual. A equipe inteira depende de equipamentos para localizar um homem que conhece cada canto do prédio melhor do que qualquer um ali dentro. Isso cria um clima sufocante. Há momentos em que os personagens conversam olhando para o vazio, tentando adivinhar se Sebastian está ouvindo atrás de alguma bancada.

Kevin Bacon também se diverte com o lado monstruoso do personagem. Sem rosto, sem identidade visível e sem testemunhas capazes de acusá-lo, Sebastian abandona qualquer resquício de ética. Ele invade apartamentos, espiona vizinhos e passa a agir com violência crescente. O roteiro exagera em alguns momentos, especialmente quando transforma perversão em espetáculo visual, mas ainda existe algo desconfortavelmente humano naquele cientista. Sebastian não enlouquece de repente. O poder apenas remove filtros que já eram frágeis desde o início.

Caçada nos corredores

Quando Linda e Matt finalmente decidem revelar a verdade para Howard Kramer (William Devane), responsável pela supervisão do projeto, Sebastian percebe que perderá controle sobre o laboratório. A partir daí, “O Homem Sem Sombra” deixa de lado o suspense científico e mergulha no terror físico. O laboratório vira território de caça. Sebastian desativa telefones, bloqueia elevadores e elimina colegas enquanto o restante da equipe tenta sobreviver usando óculos térmicos, tranquilizantes e equipamentos improvisados.

Existe uma energia quase cruel na forma como Paul Verhoeven conduz essas cenas. O diretor nunca romantiza o personagem de Kevin Bacon. Sebastian é apresentado como alguém intoxicado pela sensação de impunidade. Ele não quer apenas escapar, quer preservar o privilégio de existir sem consequências. Isso torna cada perseguição mais desconfortável. Linda e Matt já não estão tentando salvar o projeto militar ou recuperar prestígio profissional. Eles apenas procuram uma saída daquele prédio antes que Sebastian encontre todos primeiro.

Elisabeth Shue sustenta boa parte do peso emocional da reta final. Linda poderia facilmente virar apenas a “mocinha perseguida”, mas o filme permite que ela reaja, improvise e enfrente situações absurdas usando inteligência prática. Em uma das melhores sequências, ela transforma equipamentos médicos em arma improvisada enquanto o laboratório pega fogo ao redor dos sobreviventes. Josh Brolin acompanha bem como Matt, embora o roteiro concentre quase toda atenção em Sebastian e Linda.

Os efeitos visuais continuam impressionantes mesmo décadas depois. As cenas em que o corpo invisível ganha contornos através de água, fumaça, sangue ou fogo ainda funcionam muito bem. Verhoeven filma essas imagens com prazer quase perverso, como alguém exibindo um truque proibido numa feira científica clandestina. Existe exagero, violência gráfica e um senso de humor estranho atravessando tudo. Em vários momentos, “O Homem Sem Sombra” parece um experimento de terror feito por um pesquisador brilhante que esqueceu completamente onde termina curiosidade e começa desastre.


Filme: O Homem Sem Sombra
Diretor: Paul Verhoeven
Ano: 2000
Gênero: Ação/Ficção Científica/Suspense/Terror
Avaliação: 3/5 1 1
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