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Trazer para o reino dos vivos os que já partiram desta para uma melhor ou pior talvez seja a fórmula para acrisolar falsos pudores, até que o manipanso começa a perder o efeito, a bruxa cai da vassoura, o vampiro recusa pescoços e salve-se quem puder. A morte não é questão de gosto, mas um fato. Admiti-la ou não; desejar que venha o mais tarde (ou o mais cedo) possível; vencer o medo de presenciar o último suspiro de quem julgávamos imortal; entender que cabe-nos apenas o usufruto da vida; e que da finitude encarrega-se Deus, o diabo, a sorte ou o azar é uma missão com que arcamos respaldados, se muito, de nossa consciência. “Força Sinistra” sequer tenta emular o que o terror produz de mais nobre e, ainda assim, o filme de Tobe Hooper (1943-2017) continua a ser referência no gênero. Uma década antes, Hooper dirigira “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), o clássico dos clássicos do slasher, uma geleia sangrenta que conferiu sabor mais refinado a produções semelhantes. Livremente inspirado no romance “The Space Vampires” (“os vampiros do espaço”, em tradução literal; 1976), de Colin Wilson (1931-2013), o roteiro de Dan O’Bannon (1946-2009) e Don Jakoby esgrime assuntos sérios e mesmo trágicos chutando o balde, bem à moda dos anos 1980.

Eles vivem

O terror é, disparado, o gênero de filmes em que mais chavões pululam com maior insolência, e refinando-se o corte, conclui-se sem margem para grandes contestações que as narrativas que se passam em lugares isolados, escuros, hostis para os forasteiros são as que mais apresentam as chagas do copia-e-cola, muito em função da abjeta praga das continuações. As alegorias quase tolas de “Força Sinistra” sobre o medo da morte disputam espaço com as subtramas de criaturas monstruosas que acham de saciar sua fome de sangue numa aparente filial do paraíso, cuja falsidade não demora a se revelar. Na abertura, Hooper esclarece que uma tripulação britânico-americana descobre alienígenas numa nave de 240 quilômetros, ocultos na cauda do cometa Halley (!), que cruzava o firmamento à época. Um trio de humanoides nus chama a atenção dos integrantes da equipe, e o belo espécime feminino do conjunto encarna o torvelinho de sentimentos contraditórios que Hooper disseca. A Garota Espacial liga esses dois mundos, e o fato de Mathilda May renegar “Força Sinistra” diz muito sobre a pobreza da cultura pop de hoje. Procure-o, de preferência numa sessão maldita de um cinema decadente de um bairro afastado à meia-noite.


Filme: Força Sinistra
Diretor: Tobe Hooper
Ano: 1985
Gênero: Ficção Científica/Romance/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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