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“Todo o Dinheiro do Mundo”, dirigido por Ridley Scott, conta uma história baseada no sequestro de John Paul Getty III (Charlie Plummer), neto do magnata do petróleo J. Paul Getty (Christopher Plummer), enquanto sua mãe, Gail Harris (Michelle Williams), atravessa países e enfrenta o ex-sogro para tentar salvar o filho.

A abertura acompanha Paul circulando pelas ruas de Roma como alguém acostumado a viver sem limites. O rapaz frequenta festas, conversa com desconhecidos e aproveita a fama do sobrenome Getty como se carregasse um passe livre no bolso. Ridley Scott apresenta esse comportamento sem transformar o jovem em caricatura. Paul parece mais perdido do que rebelde. Ele gosta da atenção, mas também vive cercado por pessoas interessadas no dinheiro da família.

Quando o sequestro acontece, o filme abandona rapidamente o glamour europeu e mergulha em hotéis abafados, escritórios silenciosos e telefonemas tensos. Gail recebe a notícia do desaparecimento do filho enquanto tenta manter alguma estabilidade financeira depois da separação. Michelle Williams interpreta a personagem com uma mistura cansada de desespero e firmeza. Gail implora, mas nunca perde completamente a dignidade. Ela entende desde cedo que recuperar Paul será menos complicado do que convencer o ex-sogro a mover parte da fortuna.

Christopher Plummer constrói J. Paul Getty como um homem incapaz de enxergar pessoas sem calcular custos. O magnata vive cercado por obras de arte, funcionários e sistemas de segurança, mas mantém distância emocional até dos próprios netos. Existe algo quase absurdo na maneira como ele debate valores milionários com a tranquilidade de alguém escolhendo vinho em restaurante. Ridley Scott encontra até humor constrangedor nessas cenas. Getty parece tratar o sequestro como um problema administrativo.

A mãe contra o império

Gail entra numa batalha desigual porque não possui acesso ao dinheiro da família. Ela precisa atravessar corredores empresariais e enfrentar assessores que tentam controlar cada conversa. Enquanto isso, os sequestradores aumentam a pressão e deixam evidente que o tempo trabalha contra o garoto. O filme cresce justamente nesses detalhes práticos. Cada ligação interrompida piora a negociação. Cada atraso modifica o comportamento dos criminosos. Cada dúvida enfraquece Gail diante da imprensa e da própria família Getty.

É nesse cenário que surge Fletcher Chase (Mark Wahlberg), ex-agente da CIA contratado por Getty para acompanhar o caso. Fletcher funciona como intermediário entre os dois lados da família. Ele tenta proteger Gail, negociar informações com policiais italianos e seguir as ordens contraditórias do patrão. Wahlberg interpreta o personagem como um homem permanentemente cansado de justificar decisões alheias. Fletcher observa tudo em silêncio, mas percebe rapidamente que o milionário está mais preocupado em preservar patrimônio do que em acelerar o resgate.

Ridley Scott transforma reuniões em cenas de suspense. Um simples telefonema carrega peso dramático porque qualquer informação errada pode comprometer a vida de Paul. O diretor reduz a trilha sonora em muitos momentos e aposta no desconforto das pausas. Pessoas aguardam respostas em corredores enormes, fumam em silêncio e observam relógios enquanto o garoto permanece escondido em outro país. A sensação de demora irrita porque o público entende que dinheiro nunca foi exatamente o problema.

Charlie Plummer também ajuda bastante o filme a funcionar. Seu Paul Getty III começa a história como um adolescente privilegiado e inconsequente, mas o sequestro altera completamente o comportamento do personagem. O rapaz percebe que o sobrenome famoso talvez tenha complicado ainda mais sua situação. Dentro do cativeiro, ele tenta negociar pequenos favores, busca criar vínculo com alguns sequestradores e se agarra a qualquer informação sobre a mãe. O ator evita exageros e faz Paul parecer vulnerável sem perder personalidade.

Dinheiro como instrumento de poder

Existe uma cena particularmente cruel em que Getty discute impostos e vantagens financeiras ligados ao pagamento do resgate. Christopher Plummer conduz esse momento com frieza assustadora. O personagem fala sobre cifras enquanto Gail tenta lembrar que existe um garoto preso esperando ajuda. O desconforto cresce porque ninguém ao redor consegue desafiar completamente a autoridade do bilionário. Todos dependem dele de alguma forma.

Ridley Scott conduz “Todo o Dinheiro do Mundo” como um thriller clássico dos anos 1970. O filme aposta mais em tensão acumulada do que em perseguições exageradas. Carros circulam por estradas estreitas da Itália, negociadores entram em becos discretos e jornalistas se aglomeram diante das propriedades da família Getty esperando qualquer novidade. A câmera acompanha essas movimentações como se estivesse observando uma operação policial real.

Michelle Williams domina emocionalmente boa parte do longa porque Gail nunca recebe espaço para desmoronar completamente. A personagem precisa manter foco enquanto homens ricos discutem burocracia e policiais disputam autoridade. Existe uma ironia amarga no fato de a pessoa com menos poder financeiro ser justamente a única tratando Paul como prioridade absoluta.

O filme também mostra como riqueza extrema pode isolar alguém da realidade. Getty mora em mansões gigantescas, conversa com funcionários o tempo inteiro e controla cada detalhe ao redor, mas parece incapaz de construir qualquer relação afetiva verdadeira. Ridley Scott evita transformar o personagem em vilão simplório. O magnata acredita genuinamente que pagar o resgate abriria precedente perigoso para outros crimes. Ainda assim, a maneira como ele sustenta essa posição deixa marcas profundas na família.

“Todo o Dinheiro do Mundo” mantém o enredo sempre em movimento. Há negociações interrompidas, encontros clandestinos, mudanças de rota e discussões familiares acontecendo simultaneamente. Ridley Scott conduz tudo com ritmo firme e sem exagerar nos discursos explicativos. Quando o filme termina, deixa a sensação de que o dinheiro daquela família conseguia comprar quase qualquer coisa, menos humanidade para evitar sofrimento dentro da própria casa.


Filme: Todo Dinheiro do Mundo
Diretor: Ridley Scott
Ano: 2017
Gênero: Biografia/Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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