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Le Giuggiole já aparece com preço antes de virar promessa de romance. A propriedade em Belvedere in Chianti, com a rotina da família e a beleza fácil da região, muda de lugar quando Michele e Carlo chegam de Milão depois da morte de um tio. Em “Da Toscana, com Amor”, Laura Chiossone põe Matilde Gioli nessa encrenca como Elisa, mãe solo que administra o espaço com a irmã Giada e a mãe Mariana. Cristiano Caccamo vive Michele, o homem que volta com uma herança e uma venda pela frente. Sebastiano Pigazzi faz Carlo, o irmão que participa da decisão.

O reencontro entre Elisa e Michele não vem limpo. Ele traz lembrança, mas traz também documento, herança, conversa de venda. O que Elisa chama de casa e trabalho pode virar outra coisa nas mãos dos irmãos. A possibilidade de um campo de golfe tira o romance do vapor. Alguém pode decidir de fora o que acontece com o lugar onde ela criou uma rotina.

Elisa não está esperando que um homem do passado volte para reorganizar sua vida. Ela já tem uma filha, Linda, uma irmã, uma mãe e uma propriedade para tocar. Isso pesa nas cenas entre ela e Michele. A resistência não nasce só de orgulho ferido, embora “Orgulho e Preconceito” apareça como sombra conhecida da adaptação do romance de Felicia Kingsley. Há atração, implicância, desconfiança. Há também a irritação de ver dois herdeiros chegarem a um lugar que outras pessoas mantiveram de pé.

A casa à venda

Le Giuggiole dá ao romance um obstáculo melhor do que outro pretendente. A propriedade não fica parada atrás dos personagens. Para Elisa, é moradia, sustento, vínculo familiar. Para Michele e Carlo, é um bem recebido depois da morte de um tio. Pode ser vendido. Pode virar projeto. A diferença entre morar num lugar e herdá-lo de longe atravessa a comédia com mais firmeza do que algumas trocas de farpas.

Matilde Gioli segura Elisa sem transformar a personagem em pura defesa. Ela precisa parecer prática, mas não blindada. A casa envolve a filha, a irmã, a mãe e um tipo de estabilidade já construído antes da chegada dos irmãos. Michele, ao se aproximar, não entra apenas como possível par romântico. Ele entra como parte do risco.

Caccamo tem de evitar que Michele fique preso ao papel do herdeiro inconveniente. A história precisa que ele traga algum passado com Elisa, algum charme e alguma contradição, porque a venda não desaparece quando os dois se olham melhor. Essa mistura torna o par mais interessante do que seria se a Toscana resolvesse tudo sozinha. A propriedade continua ali, entre uma cena e outra, lembrando que afeto e escritura não ocupam o mesmo lugar.

Giada e Carlo abrem uma segunda frente amorosa. Ela ajuda a dar movimento a Belvedere e a tirar Elisa e Michele de uma exclusividade cansativa. Mas o centro não muda. A cidade pequena parece sempre atenta demais à vida dos outros. Elisa não está solteira em silêncio. A volta de Michele circula como assunto, como possibilidade, como pressão familiar e social.

Postal demais

A Toscana é bonita. O filme sabe disso e usa essa beleza sem pudor. Há um prazer imediato em ver Belvedere in Chianti como lugar de fuga, com luz, paisagem e promessa de acolhimento. O risco é a propriedade ameaçada parecer cenário de hospedagem romântica. Le Giuggiole precisa ser mais do que uma vista. Precisa continuar sendo casa de alguém.

“Da Toscana, com Amor” prefere a rota conhecida. A implicância inicial entre Elisa e Michele já carrega a direção provável. A volta do passado, a cidade observadora, a segunda dupla amorosa e o charme do interior italiano empurram tudo para uma zona confortável. O gênero vive também dessa previsibilidade, mas aqui ela chega cedo. Em alguns momentos, cedo demais.

O ritmo leve ajuda o pacote do Prime Video. As cenas evitam grandes rompantes cômicos e trabalham com conversas familiares, pequenas resistências e desconfortos de convivência. A mãe, a irmã, a filha, os irmãos herdeiros e a memória de infância formam uma rede de pressão sem muito barulho. O resultado é agradável, embora alguns coadjuvantes passem mais como função do que como presença.

A segurança também cobra preço. Os conflitos parecem dosados para não arranhar demais o conforto. Mesmo com Le Giuggiole em risco, há uma sensação de caminho protegido, como se a venda pudesse ameaçar a rotina de Elisa sem ameaçar de fato o tom do romance. A casa, a filha e a possibilidade de transformação do terreno dão ao filme uma urgência que a atração entre Elisa e Michele não sustentaria sozinha.

O cartão-postal continua ali, bonito e disponível. Mas a imagem que permanece não é a de uma paisagem curando adultos feridos. É a de Elisa diante de uma propriedade que outros podem tratar como item de inventário. Michele chega com passado e chance de amor. Chega também com uma venda. Para ela, uma coisa não apaga a outra.


Filme: Da Toscana, com Amor
Diretor: Laura Chiossone
Ano: 2026
Gênero: Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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