Parece ser consenso que à medida que se dão por findas eras marcadas por pesar e sacrifício, inicia-se uma nova fase de mansidão para que, uma vez mais, se anunciasse um tempo de desesperança, medo, toda sorte de maus sentimentos recolhidos, e o ciclo recomeçava. Ser mulher já foi assim. Conquistar o respeito da própria família, dos amigos, da comunidade, do Estado passava por fazer tudo quanto os homens mandavam, primeiro o pai e os irmãos, depois os professores e quando se concluíam os anos de estudo destinados a seu gênero, casar-se com o marido que escolheram para ela, o homem a quem teria de obedecer para o resto da vida, seu senhor e seu dono eterno. Em “Garota Infernal”, Karyn Kusama vale-se do terror para pensar o mundo, os costumes, a vida, e… rejeitar o mundo, os costumes, a vida — ou determinados aspectos da vida. A erotização e a fetichização da protagonista, jovem e de beleza excepcional, serve ao nobre propósito de questionar esse clichê, numa autocrítica ao que acontece nessas histórias. Aqui é diferente.
Amigas para sempre (só que não)
O mundo, um lugar cuja hostilidade persegue-nos sem descanso, fica ainda mais perigoso depois de certas experiências, de certos passeios pelo que quase nunca se revela, cenário de que Kusama fala como poucos. Semelhantemente a “Aeon Flux – Operação Terminus” (2005), a diretora vale-se de narrativas fantasiosas, mas precisas, a fim de dar seus pitacos quanto às incertezas trevosas que habitam nossas almas enfermas e malditas. A diretora transforma o roteiro de Diablo Cody em sequências de apuro estético impecável, mormente na introdução, quando um flashback sugere algumas explicações para o que houve entre Jennifer Check e Needy Lesnicky, BFFs (ou EMAs, na jocosa tradução literal) que passam por uma ruptura traumática e definitiva. Como os opostos se atraem, a exuberante Jennifer não vive sem seu contraponto loiro, que sofre para escolher a roupa certa para os programas em comum, nem tão discreta nem tão apelativa. Um show de rock numa espelunca da cidadezinha onde moram, Devil’s Kettle, famosíssima pela catarata onde tudo desaparece — “o portal mágico de uma dimensão paralela?”, se indaga Needy —, inaugura uma nova fase no relacionamento das moças, irrigado com hectolitros de sangue, afinal é terror, não um romance gay. Megan Fox e Amanda Seyfried trucidam as simplificações.

