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A glória exige sacrifícios e cobra seu preço com rigor, como se analisasse o que cada um pode pagar à vida por querer chegar ao topo. Deixam-se de lado família, amigos, prazeres, momentos de reconexão com o espírito, e, claro, o amor, sem o que, em verdade, não se chegará a nada que se pareça com o triunfo. Dois tipos que deveriam se repelir e se odiar, mas unem-se num plano ambicioso de sucesso, é o ponto de partida de Michael Cimino (1939-2016) em “O Último Golpe”. Cimino busca inspiração no Sérgio Leone (1929-1989) da trilogia da fortuna, composta por “Por Um Punhado de Dólares” (1964) — que por sua vez deve muito de seu apelo pop à adaptação de “Yojimbo” (1961), levado à tela por Akira Kurosawa (1910-1998) —, “Por uns Dólares a Mais” (1965), e “Três Homens em Conflito” (1966). Como na mexicana San Miguel idealizada por Leone, Thunderbolt e Lightfoot, os personagens-título no original, perseguem interesses escusos num ambiente que vai ficando cada vez mais ruinoso, enquanto assumem um flerte com a zona cinzenta que separa mocinhos de vilões, bastante conhecida de um deles.

Siga o mestre

Quando a paz se desintegra e as leis perdem seu efeito prático, o que sobra é a barbárie. Aqueles que conseguem se impor ditam a regra; os mais vulneráveis pagam caro — até com a própria vida —; e a moral perece; tragada pela bruma do mais avassalador obscurantismo. Como resposta, floresce uma classe de indivíduos que, açulados pela cólera e pela fome de reparação, criam grupos de vingadores, que o homem comum louva e teme. Cimino mescla elementos dos filmes policiais clássicos com o que viria a ser sua marca.  Diálogos ágeis, a tensão permanente e os personagens ambíguos são perfeitos na abordagem de temas a exemplo da casmurrice e do desgosto tão próprios dos marginais, e não por acaso é nesse ponto que o filme cresce. Num preâmbulo antológico, o diretor-roteirista fornece algumas pistas do que se vai ver, e o público depara-se com Thunderbolt e Lightfoot deixando Idaho com destino a uma cidade onde o primeiro já estivera muito, muito tempo atrás. É aí é que surge a oportunidade do tal derradeiro grande esquema, um roubo milionário, ao termo do qual poderão se aposentar. A ideia de que a vantagem do crime é sempre instável cristaliza-se com o ótimo trabalho de Clint Eastwood e Jeff Bridges, juntos ou não. Um golpe de mestre de Cimino.


Filme: O Último Golpe
Diretor: Michael Cimino
Ano: 1974
Gênero: Ação/Comédia/Crime/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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