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Uma sala com estudantes em Rjukan parece segura demais para o que se conta ali. Gunnar Sønsteby, já velho, fala diante de jovens que escutam uma guerra recebida de segunda mão. Em “Número 24”, John Andreas Andersen divide esse homem entre Sjur Vatne Brean, na juventude, e Erik Hivju, na velhice, com Lisa Loven Kongsli e Ines Høysæter Asserson no entorno de uma rede clandestina feita de apoio, segredo e espera. A invasão nazista da Noruega, em 1940, empurra um jovem contador para a resistência em Oslo. Ele passa a usar nomes falsos, ajuda em sabotagens e se torna peça decisiva da Oslo Gang. A biografia parece pronta para a homenagem. Andersen prefere começar pela dificuldade de narrá-la.

Sønsteby aprende cedo que coragem mal preparada pode acabar em prisão, tortura ou morte. Depois de uma primeira experiência armada sem força suficiente, ele passa a se mover como alguém que calcula antes de entrar numa rua. Brean não interpreta um jovem feito para o brilho. Seu trabalho é mais ingrato. Ele endurece o corpo, reduz o gesto, deixa o personagem parecer quase sem charme. Troca de identidade, evita exposição, muda de cama, cobra disciplina. A rotina não tem grandeza. Tem repetição.

Os objetos mandam muito. Um documento falso abre caminho. Um endereço usado outra vez começa a ameaçar todos que dependem dele. Chapas de impressão de cédulas deixam de parecer assunto de banco e passam a carregar risco de captura, represália e fracasso político. “Número 24” fica perto desses materiais com paciência suficiente. Antes da explosão, há a porta. Antes da sabotagem, o nome que não deve ser dito. Antes do heroísmo, alguém precisa dormir em outro lugar.

Em Oslo

A cidade ocupada surge como uma rede de circulação. Apartamentos, ruas, instituições, esconderijos e alvos industriais aparecem menos como cenário de época do que como lugares que podem trair alguém. Andersen trabalha melhor quando deixa Oslo apertar os personagens. Há explosivos, perseguição, sabotagem. Há também deslocamentos curtos que exigem cuidado extremo. Ir de um ponto a outro já basta para criar perigo.

Essa escolha deixa Sønsteby menos disponível ao aplauso rápido. Ele não é caloroso. Não tenta ser. Quando repreende descuidos, quando impõe distância, quando parece mais fiel à regra do que ao afeto, o filme deixa entrar uma aspereza necessária. O homem que sobrevive é também o homem que cansa quem está perto. O controle protege, mas cobra.

A montagem, em alguns momentos, limpa demais esse caminho. A passagem entre guerra, palestra, Oslo, Londres e operações encurta trechos que poderiam pesar mais. O espectador entende que Sønsteby atravessa contatos, treinamentos, suspeitas e missões. Nem sempre sente o tamanho do deslocamento. Uma decisão aparece, a ação vem logo depois, e parte da espera desaparece no corte.

Hivju carrega outro tipo de tensão. Seu Sønsteby não corre por ruas ocupadas. Está sentado diante de perguntas. A palestra em Rjukan às vezes explica mais do que deveria. Um aluno pergunta, o veterano responde, o dilema entra organizado demais na cena. Em outros momentos, a pergunta bate melhor. O velho precisa encostar em mortes, colaboradores, escolhas feitas quando a ocupação já tinha destruído qualquer conforto. A sala deixa de ser solenidade.

As perguntas

Os estudantes impedem que “Número 24” permaneça apenas no retrato de um condecorado. A admiração continua lá. Está no lugar dado a Sønsteby, na inteligência operacional, no modo como a resistência se organiza ao redor dele. Mas a fala pública puxa para dentro do filme aquilo que a cerimônia costuma aparar. Quem morreu. Quem decidiu. Quem delatou. Quem poderia ter sobrevivido. Quem virou alvo porque a guerra clandestina também precisa escolher nomes.

As liquidações de colaboradores noruegueses dão ao filme sua parte mais incômoda. Não há só soldados alemães do outro lado. Há gente da mesma sociedade, pessoas que circulam pelas mesmas ruas, informantes, agentes ligados à repressão, homens que tornam insuficiente a divisão simples entre invasor e invadido. Andersen não transforma esse material em provocação. Também não rompe de vez com a reverência. Fica num ponto intermediário, às vezes prudente demais, mas atento ao estrago que a prudência tenta conter.

Essa prudência pesa em algumas passagens. Certas cenas parecem querer garantir que a pergunta moral chegue sem ruído ao público. A música, quando sublinha uma emoção já visível, ajuda pouco. A solenidade entra antes de a cena acabar. O filme confia muito no valor exemplar de Sønsteby e, mesmo quando mostra o custo dessa exemplaridade, mantém o personagem num lugar protegido.

O retrato que sobra é menos limpo do que parecia no começo. Sønsteby precisa saber onde dormir, que nome usar, qual porta evitar, que aliado pode falhar. Precisa conviver com decisões que não terminam quando a operação dá certo. “Número 24” observa melhor esse homem quando o mantém entre tarefas pequenas e efeitos grandes. Na sala com os estudantes, décadas depois, ainda há muita coisa entre o veterano e a frase que ele consegue dizer.


Filme: Número 24
Diretor: John Andreas Andersen
Ano: 2024
Gênero: Biografia/Drama/Épico/Guerra
Avaliação: 4.5/5 1 1
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