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A piscina vem antes da estrada. Em “Bom Caminho”, dirigido por Gennaro Nunziante, Checco Zalone aparece como um herdeiro rico, cercado por iate, empregados, casas confortáveis e amigos treinados para evitar qualquer forma de trabalho. Esse homem precisa sair atrás de Cristal, a filha adolescente vivida por Letizia Arnò, depois que ela desaparece e segue para o Caminho de Santiago. Beatriz Arjona também está no elenco, num filme que tira o protagonista de um mundo de sofás herdados e o coloca diante de uma caminhada de 800 quilômetros.

Checco não chega à busca como pai atento. Chega atrasado. A ex-mulher Linda o chama a Roma, e só então ele percebe o tamanho do buraco doméstico. Não sabe quase nada da filha. Não conhece direito sua rotina. Precisa procurar Corina, melhor amiga de Cristal, e compra dela a informação que não conseguiu merecer em casa. Esse gesto diz mais que uma confissão. Checco não pergunta até entender. Checco paga.

A viagem nasce desse atalho ruim. Cristal foi para a Espanha, e o pai vai atrás. A graça mais limpa de “Bom Caminho” está na distância entre o homem que sai da piscina e o chão que começa a exigir outra conduta. O Caminho de Santiago não é apresentado como cartão-postal de cura imediata. Há trilhas, vilarejos, hospedagens simples, corpos cansados, bolhas e desconhecidos que não pertencem ao circuito de empregados, amigos ricos e namorada jovem. Checco tenta atravessar tudo isso levando consigo a lógica da casa de onde veio.

Com pata negra

O detalhe do vinho caro e da pata negra no meio da peregrinação ajuda a entender o tipo de riso que Nunziante e Zalone procuram. Não é só a presença do luxo. É o luxo ocupando um lugar que não foi feito para recebê-lo daquele modo. A estrada pede pouco. Checco leva excesso. A caminhada pede repetição. Ele tenta impor exceção. A hospedagem precária, o povoado, o trecho de montanha e a mochila alheia criam um mundo onde a riqueza ainda pesa, mas começa a parecer inútil para certas tarefas.

Há uma comédia popular eficiente nesse contraste, mas também uma zona confortável. O alvo é um homem tão rico, tão mimado, tão alheio ao trabalho, que parte do incômodo já vem amortecido. É fácil rir dele. É fácil reconhecer o absurdo daquele sujeito que transforma a peregrinação em extensão de seus privilégios. Mais difícil é sentir a piada voltar para a plateia. Em filmes anteriores, Zalone muitas vezes se aproximava de tipos mais familiares, com preconceitos, espertezas e covardias menos distantes. Aqui, o herdeiro milionário oferece uma superfície mais vistosa e menos perigosa.

Nunziante conduz a busca sem complicar demais. Primeiro a filha some. Depois a amiga entrega o destino. Em seguida, a estrada passa a mandar no ritmo. O desaparecimento não vira suspense pesado nem investigação cheia de pistas. O que aparece é um pai que segue rastros sem saber que lugar ocupa na vida da filha. Cristal não facilita a aproximação. Isso impede que a caminhada seja apenas passeio de conversão paterna. Há recusa no caminho, e essa recusa dá alguma resistência ao filme.

Mesmo assim, o desenho é tão claro que às vezes parece limpo demais. Checco é colocado diante de pessoas, lugares e desconfortos que deveriam arranhar sua autossuficiência. Quando a piada apenas confirma que ele é ignorante, superficial e preguiçoso, a cena chega ao destino antes do personagem. Quando o objeto errado aparece no lugar errado, a comédia respira melhor. Um vinho caro numa rota de peregrinos trabalha mais que uma fala esperta sobre privilégio.

Consulta e canção

O corpo de Checco é outro obstáculo que o dinheiro não remove. A visita ao urologista, a próstata inflamada e a canção “La Prostata Enflamada” levam o filme para uma região menos nobre e mais produtiva. A idade pesa sem cerimônia. A caminhada não combina com a fantasia de um homem que se manteve protegido por piscina, iate e serviço doméstico. O riso vem do embaraço, da consulta, da palavra próstata repetida até perder a compostura.

Esse caminho corporal é mais interessante que algumas provocações políticas citadas no percurso. Piadas envolvendo Gaza, o 11 de Setembro e “A Lista de Schindler” carregam um risco diferente. Podem expor a brutalidade de quem as diz. Podem também apenas usar tragédias como combustível rápido para choque. Em “Bom Caminho”, esse limite parece depender da mira de cada cena. Quando a ignorância pertence de fato a Checco, a piada ajuda a medir o personagem. Quando o impacto vem antes da precisão, sobra uma esperteza menor.

O filme não abandona os bons sentimentos. A relação com Cristal puxa a comédia para uma zona de reconciliação possível, e isso reduz parte da acidez. Linda convoca, Corina informa, Cristal escapa, Checco segue. Há uma corrente de mulheres que empurra o protagonista para uma responsabilidade que ele não procurou. O roteiro usa essa corrente com clareza, mas nem sempre deixa que ela fira o bastante. A filha desaparecida vira motor, limite e promessa de reparo.

“Bom Caminho” chega com a marca de uma dupla que conhece o alcance da comédia popular. Sabe montar uma situação, sabe fazer um corpo ridículo ocupar um espaço inadequado, sabe terminar uma piada antes que ela precise ser explicada demais. Também sabe se proteger. O Caminho de Santiago oferece poeira, bolhas e pousos modestos, mas Checco atravessa a estrada carregando um colchão invisível. Às vezes ele tropeça. Às vezes só posa de tropeço.


Filme: Bom Caminho
Diretor: Gennaro Nunziante
Ano: 2025
Gênero: Comédia
Avaliação: 4/5 1 1
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