Depois de certa idade, sente-se que extremos ficam cada vez mais próximos. Tornam-se pateticamente mais comuns as situações em que a beleza tem sua porção de trágico, o monstruoso ganha tons menos sombrios e o horror, essa condição imanente a tudo quanto diga respeito à jornada humana, também pode ser terapêutico. “Calor Mortífero” é desses filmes que inspiram análises sob um vasto leque de perspectivas, mas quem gosta mesmo de experiências como a que Philippe Lacôte oferece está, por evidente, pouco interessado em elucubrações filosóficas sobre produtos destacadamente comerciais — embora elas caibam. Nas mãos de Lacôte, um enredo acerca de sentimentos nobres e desejos primitivos passa a uma crônica sobre as miudezas da alma do homem, esse animal colérico sempre em busca do que não pode ter. O roteiro de Roberto Bentivegna e Matt Charman transforma o conto “The Jealousy Man” (“o homem do ciúme”, em tradução literal; 2024), do norueguês Jo Nesbø, num noir curiosamente ambientado num viridário perdido no mar Egeu, desaguando numa trama labiríntica sobre relações patológicas. Com toda a classe.
Mal-estar camusiano
O respeito às diferenças é a pedra angular de qualquer sociedade que se queira civilizada. Baseando-se nesse argumento, as nações atravessam o tempo conservando-se íntegras, enquanto ainda reúnem ânimo para inspirar em sua gente aspirações e estratégias de ir mais além e não se conformar com qualquer coisa. Os Vardakis deram atenção especial à segunda proposição do silogismo e foram longe, até erguerem um império à prova de aventureiros. Lamentavelmente, como sói acontecer com quem recebe a graça de dominar o mundo, tragédias vêm a galope, e a morte chega de repente, impondo suas draconianas condições. Na introdução, Leo, um dos herdeiros da maior transportadora da Grécia, despenca do rochedo que escalava sem equipamentos de segurança na ilha de Creta e, por óbvio, suspeitas recaem sobre todos os nebulosos membros do clã. Estão por toda a parte as evidências para se esclarecer se a morte de Leo foi mesmo um acidente ou um homicídio, mas decerto o único capaz de decifrá-las é Nick Bali, o tal Homem do Ciúme que o título do conto de Nesbø destaca. Joseph Gordon-Levitt toma conta de um bom pedaço deste filme que, de forma voluntária ou não, evoca “O Estrangeiro” (1942), de Albert Camus (1913-1960), quase tão sagaz como o escritor argelino.

