James Reed e Callum Webster fazem “A História de um Gorila: Com David Attenborough” girar em torno de um encontro antigo e muito concreto. No fim dos anos 1970, David Attenborough filmou gorilas em Ruanda e foi surpreendido pela aproximação de um filhote, Pablo. É desse momento que o documentário parte. Mas não para transformá-lo em cena sagrada de arquivo. O filme volta a ele para seguir adiante: acompanha o grupo que herdou o nome de Pablo, observa os descendentes no presente e deixa que essa continuidade dê forma ao relato. O risco, claro, era cair numa celebração meio automática de Attenborough, ainda mais com um personagem tão consagrado. Reed e Webster escapam disso na maior parte do tempo porque puxam o filme de volta para o que interessa: a vida do grupo, a troca de poder, os machucados, a pressão entre os machos, a rotina dos animais na montanha.
Attenborough está o tempo todo, mas entra menos como monumento do que como homem velho relendo cadernos. O documentário o mostra citando diários de 1978, reabrindo aquelas anotações, comparando o que viu na época com o que agora volta a ter diante dos olhos. Isso faz diferença. A emoção não vem de um discurso sobre legado nem da reverência pronta que o nome dele costuma despertar. Vem de algo mais simples e mais forte: a sensação de tempo passado sobre um mesmo grupo. Um filhote lembrado em voz alta virou nome de família. Décadas depois, ainda é por ali que a câmera anda. O filme encontra sua medida quando deixa essa passagem aparecer no atrito entre papel, lembrança e imagem recente, sem tratar cada retorno ao arquivo como grande epifania.
No grupo
A escolha de acompanhar o “Pablo Group” em vez de abrir o quadro para a espécie inteira dá ao documentário um centro firme. “A História de um Gorila” não quer dar conta de tudo. Quer ficar perto desse grupo e ver o que acontece ali. E o que acontece não tem nada de paisagem edificante. Há chefia sendo disputada, macho envelhecendo, desafiante testando espaço, corpo jovem apanhando. Gicurasi perde força. Ubwuzu avança. Imfura surge ferido. O filme funciona porque não traduz isso em tese sobre a dureza da natureza. Mostra a dureza. Mostra o bicho machucado, o desgaste do dominante, a instabilidade de uma ordem que depende de força física e permanência. Nesse recorte mais estreito, o documentário ganha nervo. Sai do tom de contemplação e entra numa observação mais áspera, mais interessada em comportamento do que em encanto.
Também ajuda o modo como a montanha é filmada e ouvida. O ambiente não aparece só como paisagem bonita para sustentar narração prestigiosa. Há uma sensação de território ocupado, cercado por presenças que nem sempre estão no quadro, mas estão no som, na vigilância, na ameaça de outros grupos e outros silverbacks. Isso impede que o documentário escorregue para o postal. Mesmo quando Attenborough volta a falar de Pablo, Reed e Webster parecem saber que o filme não se mantém de pé por memória afetiva apenas. Ele precisa dos gorilas no presente, da relação entre eles, da forma como se toleram, se enfrentam e se reorganizam. É aí que a história de Pablo deixa de ser anedota sentimental e passa a servir de acesso a uma vida de grupo que está sempre mudando de lugar.
Arquivo e montanha
A voz de Attenborough, claro, pesa. Aos 99 anos, ele já não precisa provar nada a ninguém, e o filme sabe disso. Seria fácil usar essa condição para construir um adeus solene, desses em que cada frase parece pedir moldura. “A História de um Gorila” fica melhor quando evita essa tentação. Seu gesto mais certeiro é pôr o arquivo ao lado do presente e não pedir licença demais para essa justaposição. O diário de 1978 conversa com a montanha atual; o encontro com Pablo reaparece, mas não para congelar o filme no passado. Serve para medir diferença, permanência, tempo corrido. Quando esse encaixe funciona, a emoção aparece sem empurrão. Não é um documentário que precise levantar a voz para se fazer notar.
Nem tudo, porém, tem o mesmo peso. Em alguns momentos, dá para sentir o filme dividido entre duas tarefas. Uma é voltar ao episódio famoso de Attenborough com Pablo. A outra é seguir com calma a dinâmica atual do grupo. Como a duração é curta, certas relações e conflitos parecem comprimidos. Faz sentido que parte da recepção tenha visto aí material para algo mais longo. Quando se inclina demais para o prestígio do narrador, o documentário chega perto de dramatizar o que já seria eloquente se fosse apenas observado. Mas, quando permanece junto aos animais — um silverback cedendo espaço, outro pressionando, um jovem carregando no corpo o resultado da disputa —, o filme encontra sua melhor forma. Fica mais preciso, mais limpo, mais vivo.
No fim, “A História de um Gorila: Com David Attenborough” vale pelo modo como organiza esse retorno sem transformá-lo em cerimônia. Há uma relação pessoal evidente entre Attenborough e Pablo, e o documentário não tenta esconder isso sob falsa neutralidade. Melhor assim. O que surpreende é que esse vínculo não fecha o filme sobre a figura do narrador. Ao contrário: abre caminho para observar um grupo de gorilas em movimento, em conflito, em envelhecimento, com uma atenção que raramente aparece em títulos de plataforma inclinados a mastigar emoção. Reed e Webster não fazem um grande filme de natureza no sentido mais vistoso do termo. Fazem algo mais específico e mais interessante: um documentário de retorno, de caderno reaberto, de olho atento para o que o tempo deixou de pé e para o que ele cobrou no corpo.

