É cedo. Estamos no centro da cidade. Há um enorme container de lixo na calçada. O container pertence ao hotel. O hotel é remanescente dos anos 1970 e contém um restaurante de comida típica que atende clientes típicos ou atípicos, pouco importa, desde que paguem as suas contas. Sentado sobre a guia, do outro lado da rua, um homem caquético e maltrapilho mira o container. Parece desacorçoado, ao contrário do vira-latas caramelo que ressona com a cabeça pousada no seu colo sujo. Alguém pichou “Ditadura Nunca Mais” na estrutura do trambolho de metalão, supostamente, para fazer frente à nova onda fascista que seduz o imaginário de parte expressiva da população. O homem mostra-se indiferente às palavras de cunho político. Com o olhar paralítico, ultimamente, anda metido noutras prioridades. Aplacar a fome, por exemplo. E fazer a cabeça com o estômago cheio. Preguiçoso da vida, o caramelo boceja. Aliou-se ao novo tutor, por acaso, nas quebradas do centro. Irmanados na miséria, compartilham afeto e marmita. O olhar do homem é vacilante. Aparenta 50 anos de idade, embora, tenha apenas 30. Seis meses morando nas ruas e ainda não tinha revirado uma lixeira sequer. Levanta-se. Aplacado pela vertigem, balança o corpo feito um joão-bobo. Apoia-se no poste da rede elétrica, repleto de panfletos de propaganda: uma cigana que enxerga o futuro, um motoboy que carrega boys and girls, mulheres seminuas que se exibem no pole dance, um alguém que compra ouro e paga bem, à vista. Sente a vista tremer pela inanição. O vira-latas vê-se forçado a se levantar. Espreguiça. Bota a língua rosa para fora. Emite um ganido simples, suave, contente. E observa os próximos passos do tutor. Sem se atentar ao fluxo pesado de automóveis, o homem atravessa a rua e estaciona de frente ao container abarrotado, cuja tampa está entreaberta, sorrindo dentes nojentos de tanto lixo. O homem empurra a tampa metálica para cima. O dogue apruma o corpo, levanta as orelhas, prende a respiração e observa com enorme expectativa. Resignado, depois de vencer os escrúpulos da humilhação, o homem começa a garimpar o interior da lixeira, em busca dos restos de comida não azeda, dos pratos típicos não deteriorados que foram descartados na noite anterior em perfeito estado de conservação pela clientela conservadora do restaurante tradicional que pertence ao hotel antigo, recentemente tombado pelo instituto histórico e geográfico do estado. Animado com a operação, o caramelo abana o rabo. Se pudesse, pulava dentro da caçamba fedegosa. Uma ratazana dá um salto duplo twist carpado e escapa pelo bueiro. Surge uma sacola plástica de supermercado repleta de comida remexida. Prestes a encerrar o procedimento degradante, o homem se depara com um folder religioso que afirma, em letras garrafais, que Jesus o ama. Sentindo-se minimamente amado por algum ser supremo invisível que habita esferas intangíveis, o homem atravessa a rua, distraído, encantado com as informações alvissareiras, até ser colhido pelo caminhão da coleta seletiva de lixo.

