No dispositivo high-tech caverna, os prisioneiros estão presos às suas telinhas, condenados a escrolar infinitamente os piores feeds já inventados — no caso, os de suas próprias redes sociais.
Já perderam por completo os princípios mínimos de civilidade. Assim, sem resquícios de educação e qualquer sinal de respeito ao espaço coletivo, nem sequer usam fones de ouvido na experiência aberrante do próprio entorpecimento, consumindo vídeos histéricos com roteiros de gosto discutível.
Acorrentados, cada qual a seu smartphone, assistem a stories, solitariamente riem de reels alheios, indignam-se com posts que espremem todo o suco do que há de mais violento nas relações humanas. Atônitos e à toa, tontos tão atentos às toadas das threads, fingem que vivem.
Por uma falha no dispositivo high-tech, o cabo do carregador de um dos condenados deixa de funcionar. Entre raivoso e estarrecido, telinha preta na palma da mão, ele se levanta.
Custa a recobrar o equilíbrio.
Ele coça a pálpebra esquerda, ajeita os óculos.
Os olhos demoram um pouco a se acostumar.
Ao fundo da caverna, uma luz. É o sol, sem filtro. Real, oficial. Lá fora, toda uma vida a ser vivida: paisagens onde é possível estar, um show musical previsto para a noite de hoje, garotas de biquíni, famílias pedalando ao entardecer, comida instagramável ao alcance das bocas e até um simpático cachorrinho vira-lata correndo atrás de um graveto qualquer. Chuva de likes.
O condenado volta correndo à sua bolha, pronto para compartilhar a descoberta, libertar a todos daquela tacanhice castradora.
— Fake news. Se fosse verdade, já teria aparecido no meu algoritmo — resmunga o primeiro, sem tirar os olhos do seu celular.
Os demais estão anestesiados demais para esboçar qualquer reação.

