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Do homem que inveja as formigas e geme que lhe falta à paixão da vida, “tudo é maior que eu”, à crença de que se é o centro do planeta, a metafísica poética da gigante Adélia Prado reinventa mitos bíblicos em “O Jardim das Oliveiras”, antologia de 105 poemas inéditos da nonagenária autora que coleciona, entre tantos prêmios acumulados, reconhecimentos como o Jabuti, o Machado de Assis e o Camões — estes dois últimos conferidos a ela em 2024.

A semiologia religiosa cristã, saturada no presente livro, é coerente com as preocupações constantes da obra de Prado. Encanecida porém vigorosa, a autora retalha nos versos o que hoje é mais passado do que presente, a “memória forjada em pó”. Nesses exercícios, confere significados redivivos às narrativas bíblicas e às reflexões cristãs sedimentadas por pensadores como Tomás de Aquino. Para isso, traz às páginas o Jardim do Getsêmani onde Jesus teria orado na noite anterior à sua execução — daí o título do livro — e traça paralelos entre o divino e o literário.

A partir do mote da vivência pascoal cristã, portanto, a poeta se permite um passeio por reminiscências. Por um lado, o leitor ganha o aconchego, pois sabe e reconhece que a escrita de Prado é a garantia de um raro prazer; por outro, é inevitável pensar na memória como um recurso natural da vida que, em seu outono, tem mais gozo no olhar para trás do que no vislumbrar o adiante. O que é, afinal, o “fazei isto em memória de mim” instituído naquela derradeira ceia.

Trajada de eu-lírico, reconhece-se idosa. Em “Uma Lembrança e Sua Imagem Vívida”, escreve: “Estou duas vezes e meia mais velha que minha mãe/ e, de minhas avós, não conheci nenhuma.”

“Qualquer infância é antiga./ Aos quinze anos, já pósteros, nos lembramos de nós com comovida saudade./ Já nasce com mil anos a memória da alma.” — é o pequeno poema “Biografia”. Noutro, “Aniversário de Falecimento”, evoca as saudades do “homem jazente”: “Quem suporta comigo esta lembrança?/ Ó Deus, consolai-me de sua ausência.”

Em um dos textos, a poeta afirma chamar de Deus aquilo que “outros chamam poesia” — pungente declaração, não de amor e nem somente de fé, mas de devoção à literatura que a consagrou.

Talvez por isso ela também se permita navegar não somente na teologia da qual se embebeda mas também nas máximas escrituras da língua portuguesa em expressão brasileiríssima. O poema “Névoa” traz aos versos a relação entre Riobaldo e Diadorim, em uma gostosa confusão entre escritora e leitora na qual o deus não seria outro que não Guimarães Rosa.

Adélia Prado carrega, em estrofes impecáveis, uma religiosidade profunda que não pode ser confundida com a superficialidade que permeia o discurso dos púlpitos semiteocráticos dos confins do Brasil. Não, sua poesia não cabe no ambão. Para ela, o cristianismo assoberba-se enquanto espinha dorsal de emaranhados complexos, densos. E humanos.

Sua fé está na tinta posta no papel.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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