O coração de Maria João, a Meri, bate. E isto, condição que parece óbvia aos viventes, é o que importa, afinal. Para quem padece de um problema cardíaco, o natural se reveste de mágico. E a observação recai constantemente sobre aquilo que nunca é percebido, porque as palpitações indicam mais do que o ser, o estar, o respirar, o viver.
Em “Batida Só”, Giovana Madalosso mergulha de forma rara na intersecção entre doença, relações humanas e crenças, oferecendo ao leitor uma narrativa que não se limita ao melodrama nem ao lugar-comum da ficção sobre enfermidades. A autora já contou que o livro nasceu de uma cena banal, mas carregada de intensidade: a atenta, curiosa e sensível observação de uma mãe ajeitando o lenço na cabeça de sua filha carequinha em um ponto de ônibus. Essa cena, que poderia passar despercebida, tocou profundamente Madalosso — então lidando com um problema de saúde complexo da própria filha — e acabou por definir o tom do romance: atenção às emoções, à fragilidade, e à força que se encontra no cotidiano.
A escritora demorou dois anos até que a ideia amadurecesse, período em que percebeu que suas histórias anteriores, por mais envolventes, pareciam pequenas diante de experiências reais de vida e sofrimento. Essa maturação se traduz em uma narrativa econômica, direta, mas densamente emotiva, que alia cuidado com a forma e coragem ao explorar temas íntimos sem recorrer a sentimentalismo barato.

A protagonista, Maria João — ou Meri, como prefere — é uma jornalista de trinta e poucos anos que descobre sofrer de arritmia cardíaca. Diferentemente de muitas personagens literárias que enfrentam doença, Meri não se limita a sofrer ou se vitimizar; ela se prioriza, se observa, e se permite sentir cada efeito da enfermidade com honestidade. Seu corpo e sua mente são terreno de experiências intensas, das limitações físicas à anorgasmia, da apatia causada por antidepressivos à crueza de pensamentos que atravessam o humor e a reflexão. Essa abordagem permite à autora explorar a vulnerabilidade sem condescendência, oferecendo ao leitor uma intimidade que é profunda, mas nunca manipulativa.
O romance se amplia com a entrada de Sara e de seu filho Nico, personagens que são reconstruções da vida real e se transformam em contrapontos éticos e emocionais da narrativa. Sara, amiga de infância da protagonista, enfrenta a doença grave do filho, atravessando uma jornada que mistura medicina convencional e práticas espirituais, ao mesmo tempo em que lida com incoerências de fé e intolerância própria. Nico, por sua vez, torna concreta a dimensão da inocência e da resistência frente à doença. Por meio dessa dupla, Madalosso explora a fé de maneira plural: não há doutrina, nem dogma; há reflexão, dúvida, esperança e, sobretudo, um exame honesto de como crenças diversas podem se articular com a vida concreta. A narradora demonstra curiosidade e respeito pela complexidade do tema, oferecendo ao leitor diferentes perspectivas — desde a fé fervorosa à fé pragmática, incluindo aquelas mediadas pelo desejo de cura ou pela lógica do mercado.
São crenças emaranhadas, não uma religião. São crenças e descrenças, sobrepostas.
Além da densidade temática, o livro se distingue pelo cuidado estilístico. Madalosso transforma gestos corriqueiros — uma ida à farmácia, um deslocamento urbano — em momentos significativos, revelando sua habilidade de extrair profundidade do ordinário. Comparado às obras anteriores da autora, como “Tudo Pode Ser Roubado”, marcado pelo ritmo aventureiro, ou “Suíte Tóquio”, que mergulha no suspense psicológico, “Batida Só” privilegia a sutileza e o impacto emocional das relações, sem perder ritmo ou coesão narrativa. É um romance em que cada detalhe importa, e cada emoção, ainda que discreta, tem peso.
O amor, outro tema constante, é abordado de maneira madura: não há idealização nem romantismo exacerbado; há convivência, cuidado, respeito às individualidades e às crenças. Meri, ainda que ouça e dance sofrências, não se entrega ao sentimentalismo, e suas relações demonstram que o afeto pode se manifestar mais no agir do que no sentir exaltado. Essa escolha reforça o equilíbrio da narrativa, permitindo que o livro trate de temas pesados sem se tornar sombrio ou didático.
A escrita de Madalosso também evidencia refinamento: passagens curtas, quase aforísticas, reforçam o tom íntimo e reflexivo. Momentos de humor surgem naturalmente, inclusive em situações de sofrimento, criando contraste sem dissolver a seriedade da história. Há riso imiscuído em lirismo, sem risco, sem espaço para o banal — ou fazendo do banal o essencial. Essa mistura de gravidade e leveza, introspecção e observação externa, consolida “Batida Só” como uma obra bem sedimentada, em que a autora se coloca em diálogo com sua própria trajetória e com o leitor de forma transparente, sem artifícios narrativos.
O percurso da autora é outro ponto que adiciona camadas ao romance. Desde sua estreia com “A Teta Racional”, cujo título provocou resistência de editoras, até se tornar presença reconhecida na Flip e idealizadora de iniciativas coletivas como o projeto que reuniu mais de 400 escritoras no Pacaembu, Madalosso construiu um caminho de consistência e paixão pela escrita. Tudo a partir de um ponto de vista, um lugar de fala e uma expressão feminina e feminista. E muito consciente da importância disto. Essa trajetória reflete-se em “Batida Só”: uma obra que demonstra segurança narrativa, domínio de voz e maturidade temática.
Em síntese, “Batida Só” convida o leitor a revisitar conceitos de doença, amor, fé e vulnerabilidade, com olhar atento às nuances e às contradições humanas. É um livro que permite rir, refletir e se emocionar, sem recorrer a melodrama fácil ou clichês. Entre as passagens mais memoráveis, estão reflexões sobre a solidão, a empatia e o medo, que sintetizam a capacidade da autora de transformar experiências íntimas em literatura de relevância universal.
“Batida Só” reafirma Giovana Madalosso como uma escritora capaz de unir sensibilidade, rigor formal e coragem temática, e se consolida como o romance mais profundo de sua obra até o momento — um livro que não apenas conta uma história, mas instiga o leitor a sentir e a pensar de forma mais atenta sobre a própria vida.

