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Cesc Gay não enfeita “53 Domingos”. Junta Javier Cámara, Carmen Machi, Javier Gutiérrez e Alexandra Jiménez num apartamento e põe três irmãos diante de um problema que não dá mais para empurrar: o pai, aos 86 anos, já não consegue tocar a vida sozinho. Alguém terá de decidir se ele vai para uma residência, se muda para a casa de um dos filhos ou se continua onde está até a próxima desculpa. O filme começa aí e faz bem em não sair prometendo mais do que isso. A primeira coisa que aparece não é um grande drama, mas o velho método familiar de fugir do assunto. Um chega atrasado, outro corta a fala, outro pega um desvio qualquer e vai embora por ali.

O pai quase não domina fisicamente a cena, mas pesa em tudo. Está no jeito como cada um entra na sala, no cuidado para não ser o primeiro a ceder, no cálculo para ver até onde a conversa pode ir sem que sobre trabalho demais no próprio colo. Gay acerta porque filma esse impasse como ele costuma existir: não em linha reta, mas aos trancos, entre uma provocação e outra, com a decisão principal sempre escorregando para o canto da mesa. Uma lâmpada já serve de distração. O romance escrito por Víctor, também chamado “53 Domingos”, vira munição. Quando a conversa ameaça chegar perto do pai, alguém puxa outra ferida e a casa inteira muda de assunto.

Sala pequena

O apartamento de Julián e Carol é o melhor aliado do filme. Sala, cozinha, banheiro, portas abrindo e fechando, gente se cruzando sem distância para respirar. Basta alguém sentar com mais espalhafato, outro levantar para evitar a resposta, outro surgir do corredor com a frase errada. O espaço faz pressão sem precisar de nada extraordinário. Gay conhece a origem teatral do projeto e não tenta disfarçá-la com correria de câmera ou efeito visual fora de lugar. Deixa os atores ocuparem o apartamento e confia que a falta de espaço fará o resto. Na maior parte do tempo, faz.

Há momentos em que o mecanismo aparece demais. “53 Domingos” repete com insistência o movimento de aproximar a conversa do centro e, logo depois, desviá-la para outro ponto. Isso tem função clara e combina com a família que o filme mostra. Mas nem sempre a repetição nasce da cena; às vezes parece nascer do desenho. É quando a adaptação fica mais presa ao dispositivo do que ao atrito vivo entre os personagens. Não chega a comprometer o longa, que é curto e não se derrama, mas limita um pouco o alcance. Gay percebe muito bem o desgaste; nem sempre consegue evitar que a engrenagem fique exposta.

Quem ocupa a sala

O elenco segura essa oscilação. Javier Cámara faz de Julián um homem que parece sempre perder alguns centímetros quando os irmãos chegam. Fala como quem já entra na discussão em desvantagem. Javier Gutiérrez dá a Víctor o impulso oposto: ele ocupa a sala antes mesmo de se acomodar, fala como se estivesse pondo ordem no que os outros não sabem nomear e trata o próprio ponto de vista como evidência. Carmen Machi encontra em Nati um meio-termo bom entre a pressa de resolver e a irritação de quem suspeita, talvez com razão, que a parte chata vai acabar no colo de sempre. Ninguém ali é símbolo de nada. Os três aparecem no modo como interrompem, provocam, devolvem uma frase com atraso.

Alexandra Jiménez fica com a tarefa mais delicada. Carol quebra a quarta parede no começo e corre o risco de soar explicativa demais. Em parte, soa. Ainda assim, a personagem não se reduz a esse recurso. É ela quem vê a rotina da casa sair do eixo enquanto os três irmãos voltam a se comportar como se tivessem parado muitos anos antes. Sua presença ajuda porque traz o problema de volta ao chão: a bagunça da casa, o tempo perdido, a invasão da rotina, o constrangimento de assistir a adultos fugindo de uma decisão concreta. Carol funciona menos como guia do espectador do que como testemunha do estrago prático daquela reunião.

“53 Domingos” funciona melhor justamente quando fica nesse plano. Não quando flerta com uma espécie de resumo da família moderna, mas quando se contenta em mostrar três irmãos incapazes de sustentar por muito tempo a conversa que os reuniu. O mérito de Gay está em não dourar o assunto do pai idoso nem buscar lição edificante no final de cada troca. Alguém vai ter de cuidar, pagar, abrir espaço, mexer na rotina, aguentar a parte menos confortável da vida do outro. O filme não faz discurso sobre isso. Fica na sala, nas interrupções, nos objetos, na frase dita de lado, no silêncio que vem depois. Não é pouco. E, no tamanho que escolheu, basta.


Filme: 53 Domingos
Diretor: Cesc Gay
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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