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A humanidade nunca valeu grande coisa para muitos, percepção que se agudiza ainda em tempos de situações extremas como os que temos vivido. O homem desenvolve invenções revolucionárias — a exemplo do próprio cinema —, empreende negócios mirabolantes e lucrativos, dedicou-se a pesquisar e descobrir novos medicamentos para males cujo desaguadouro era a morte certa e outros que vieram com a evolução mesma do gênero humano, mas continua a se sabotar e se autodestruir. A ciência, a medicina, a arquitetura e, claro, a arte seguem seu propósito de aperfeiçoar a outrora chamada raça humana, mas neste momento diversas nações travam guerras — muitas vezes contra seu próprio povo —, a distribuição de renda é um escândalo por si só e muita, mas muita gente sequer tem o que comer. Ou seja, o homem continua irredutível naquele que parece ser seu projeto maior: ser seu próprio lobo. E o homem também segue sem encontrar a cura para todos as suas tantas enfermidades, mais preocupado em perseguir e difamar quem julga diferente, sem conseguir aprender que a vida passa tão rápido que às vezes nem se pode entender sua lógica e, ainda mais, sua falta de lógica.

Quando a rotina perde o chão

“Paddleton” (2019) já começa deixando claro ao espectador que aquilo até pode ser uma comédia, mas é uma comédia que não faz graça de tudo, apenas do mais importante. Mike, vivido por Mark Duplass, acaba de receber a pior notícia de sua vida, amparado pelo melhor amigo Andy, de Ray Romano, que fica tão alarmado quanto ele, ainda que tente disfarçar. O que os afeta é a possibilidade quase certa de que o diagnóstico do médico que consultaram seja mesmo a catástrofe que encerra e Mike sofra de um câncer no estômago em estágio avançado. O médico se comove com a dedicação extrema de Andy para com Mike, desvelo que nem todo marido tem em relação a sua esposa, ou vice-versa, mas não vai aqui nenhuma insinuação nesse sentido. A verdade é que os dois só tiveram na vida um ao outro, nunca puderam contar com o interesse das respectivas famílias — se é que as têm —, e aprenderam logo a conviver com a dificuldade em construir laços sociais, exacerbada graças a essa bolha de amor fraterno mútuo que insuflaram em torno de suas figuras melancólicas. Eles não sabem ao certo o que é a felicidade, mas felicidade para eles é comer pizza congelada todos os dias, assistir a filmes antigos de kung-fu, tentar decifrar enigmas bestas e, claro, praticar paddleton, um jogo inventado pelos dois. E essa vidinha um tanto monótona, mas tão cheia de certezas, poderia continuar assim para sempre, não fosse a rasteira que lhes deu o destino.

O filme de Alexandre Lehmann, roteirizado por ele e por Duplass, se fecha tão hermeticamente no que Mike e Andy representam um para o outro que não se admite qualquer interpretação jocosa ou malfazeja e qualquer outro personagem é encarado como um estranho, e mais, como dispensável. O único terceiro elemento possível em “Paddleton” é a própria memória de um e outro acerca do que têm vivido, um ambiente indefinido que a iminência da morte do primeiro ameaça desgastar e quiçá extinguir. A decisão radical de Mike, encarnado por Duplass com uma maturidade emocionante, a fim de preservar sua qualidade de vida e o pouco que lhe resta de sanidade mental, suscita discussões que perpassam dilemas éticos de parte a parte, tanto para o doente como para seu amigo, resolvido a encampar sua forma de lidar com o problema desde a primeira hora. A mera tentativa de se abordar a questão sob prismas sociológicos convencionais faz água, uma vez que esse estranho casal, para lembrar a comédia de mesmo nome de Gene Saks lançada em 1968, é capaz de subverter qualquer clichê, estique-se a corda para o lado do humor ou da tragédia.

Mike considera muito natural encerrar seu ciclo na Terra da maneira como se assiste em “Paddleton”, convicto de que essa é uma resolução que cabe a ele e a mais ninguém, por maior que seja o amor por Andy. Um exercício cênico de fôlego para os protagonistas, que transcendem a hesitação, o medo e mesmo a conformidade com o que de fato se passa; o espectador por sua vez tenta se equilibrar em meio à riqueza semântica do enredo, ora julgando o personagem de Duplass o grande vilão da história, por com seu egoísmo matar a si e fazer do amigo um mutilado espiritual, ora atribuindo a culpa do desfecho infeliz a Andy, que em nome da própria amizade com Mike, sempre pautada pelo respeito, compreensão e empatia, num primeiro momento apenas tolera o modo como o doente lida com sua nova condição, sendo um entusiasta fervoroso da ideia pouco depois, aquiescendo em partir com ele numa viagem, a derradeira, em que as novas experiências de que irão desfrutar têm o caráter do absurdo que lhes assalta sob a forma do pior acontecimento que poderiam viver, a cada dia mais próximo.

O adeus cobra um preço

Em “Paddleton”, os personagens centrais travam uma saudável batalha que visa a definir qual dos dois intérpretes se sai melhor, e para a felicidade do público, esse jogo resta empatado. Romano, com seu distanciamento algo brechtiano, como se Andy preferisse não dar o braço a torcer à autonomia do amigo, dividido entre não criar mais complicações num cenário já pleno de tanta conflagração emocional e deixar fluir o grande sofrimento que se assenhora dele, cria um tipo memorável. Seu temperamento entre ranzinza e desbragadamente amoroso, a moda não de um irmão, mas de pai, junta força e suscetibilidade na exata medida, exaltando a tristeza corajosamente, mas fazendo a leveza da relação com Mike sobressair. O clima mais adequado para uma despedida tão marcante.

Ao se aproximar do fim, o filme atinge a façanha de emocionar ainda mais ao explorar a emoção até a última gota, mostrando Mike e Andy declarando seu amor da maneira mais explícita que conseguem, o que certamente nunca haviam feito. Alexandre Lehmann faz de “Paddleton” o lembrete óbvio, da forma mais doce, de que a vida é passageira e incerta e que, em sendo assim, é melhor não pagar para ver e fazer com que as pessoas de quem gostamos o saibam com toda a clareza, sem nos importarmos com julgamentos de nenhuma sorte. Isso, sim, é jogar para vencer.


Filme: Paddleton
Diretor: Alexandre Lehmann
Ano: 2019
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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