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Gregory Hoblit dirige “Primal Fear”, lançado no Brasil como “As Duas Faces de um Crime”, com Richard Gere, Edward Norton e Laura Linney em um thriller de tribunal que entende rápido onde está sua força. Em Chicago, um arcebispo aparece morto e o principal suspeito é Aaron Stampler, coroinha de 19 anos visto saindo da cena coberto de sangue. Martin Vail, advogado criminalista que gosta de câmera e manchete, pega a defesa sem cobrar honorários. Do outro lado está Janet Venable, promotora do caso e sua ex-amante. A história poderia parar aí, na moldura conhecida do gênero. O filme anda porque põe frente a frente um homem que domina qualquer sala e um rapaz que mal parece conseguir ficar de pé nela.

Vail entra no caso como quem escolhe uma vitrine. Vê Aaron na televisão e percebe de imediato o alcance público daquela história. Gere pega bem esse traço. Seu advogado fala como quem já sabe qual frase vai render no jornal, onde deve fazer a pausa e quando convém posar de indignado. Aaron é o contrário disso. Norton faz dele um corpo encolhido, de voz falha, mãos perdidas, olhar baixo. Há um cálculo claro no contraste, mas ele funciona. Antes que o roteiro organize melhor o caso, o filme já tem uma tensão concreta: o réu parece pedir licença para existir; o advogado age como dono da sala.

Na vitrine

Hoblit filma o tribunal como lugar de trabalho, mas também como palco. O caso se decide na audiência, mas não só ali. O filme circula por corredores, salas, entrevistas, visitas, buscas por documentos, conversas atravessadas. Em vez de vender uma marcha reta rumo à verdade, acompanha a briga para impor uma versão mais forte que a outra. Janet ajuda muito nisso. Laura Linney faz mais do que a promotora da vez. Como a personagem conhece Vail por dentro, cada duelo entre os dois traz um ruído extra. Não é só acusação contra defesa. É profissão, vaidade, disputa antiga e a irritação de ver o outro ocupar o espaço com tanta facilidade.

O roteiro de Steve Shagan e Ann Biderman acerta quando dá peso a esse trabalho miúdo. Vail não move o caso sozinho no grito. Precisa de assistentes, de estratégia, de documentos, de laudos, da avaliação da psiquiatra vivida por Frances McDormand. Ela entra pouco, mas muda o rumo da defesa. Isso dá matéria ao filme. As cenas não avançam porque alguém explica tudo muito bem, mas porque uma peça aparece, uma fala muda de função, um comportamento passa a ter utilidade jurídica. Chicago também vai ganhando corpo desse jeito. Igreja, promotoria, imprensa e negócios imobiliários se aproximam sem esforço, como se já estivessem misturados muito antes de o crime acontecer.

O peso de Norton

Edward Norton é quem mais aproveita esse desenho. Sua estreia chama atenção porque ele entende o tamanho da cena. “Primal Fear” depende de fala, escuta e reação. Numa estrutura assim, qualquer mudança mínima no corpo do acusado altera o clima. Norton trabalha exatamente nesse registro. O espectador olha para Aaron tentando medir uma hesitação, um silêncio, um jeito de responder. Gere também acerta ao não adoçar Vail. O advogado continua vaidoso, exibido, muito satisfeito consigo mesmo. Melhor assim. O personagem não precisa ficar mais simpático para o filme funcionar. Precisa apenas ser bom no que faz. E é.

O problema é que o roteiro às vezes gosta demais do próprio mecanismo. Há momentos em que se vê a peça sendo encaixada antes que a cena respire por conta própria. Algumas viradas chegam com um pouco mais de cálculo do que o ideal. Ainda assim, Hoblit segura o filme com ritmo. Ele sabe cortar uma fala no ponto certo, sabe deixar uma reação durar um pouco mais e sabe extrair tensão de gente sentada, falando baixo, tentando ganhar terreno na palavra. Isso não é pouco. Muito drama de tribunal fala sem parar e não produz nada. Aqui, quase sempre há atrito.

“As Duas Faces de um Crime” funciona porque não tenta parecer maior do que é. Não força profundidade, não posa de grande radiografia institucional, não vende complexidade de vitrine. Entrega um thriller judicial firme, às vezes mecânico, mas quase sempre eficaz, apoiado em coisas concretas: um advogado que adora aparecer, uma promotora que não quer ceder, um réu que muda a temperatura da sala e uma cidade em que prestígio religioso, interesse econômico e exposição pública andam juntos. O filme fala muito. Mas, na maior parte do tempo, fala porque precisa.


Filme: As Duas Faces de um Crime
Diretor: Gregory Hoblit
Ano: 1996
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Thriller
Avaliação: 4.5/5 1 1
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