Em uma pequena cidade do interior do Ceará, durante os preparativos para uma festa oficial, uma mulher decide que precisa voltar ao palco a qualquer custo, e é justamente essa insistência que move “Pacarrete”, dirigido por Allan Deberton, um drama com humor que acompanha o esforço de uma ex-bailarina para recuperar um lugar que o mundo parece já ter retirado dela.
Pacarrete (Marcelia Cartaxo) vive em Russas e carrega consigo uma convicção inabalável: ela foi, e ainda é, uma grande bailarina. Logo nas primeiras cenas, essa certeza se manifesta de forma quase escancarada, quando ela dança na varanda de casa com uma vassoura, cantando e xingando quem passa na rua. É um momento ao mesmo tempo engraçado e constrangedor, que já define o tom instável do filme e a maneira como a personagem se coloca no mundo, sem filtro, sem medo e sem perceber totalmente como é vista pelos outros.
Dentro de casa, ela divide a rotina com a irmã doente, Chiquinha (Zezita Matos), e com a empregada Maria (Soia Lira). O ambiente doméstico funciona como uma espécie de zona de conforto, onde suas excentricidades são toleradas. Ainda assim, há uma tensão silenciosa: ninguém confronta diretamente Pacarrete, mas também ninguém valida completamente sua versão da realidade. Esse equilíbrio frágil mantém a personagem em movimento, mas sem direção concreta.
A apresentação
A situação muda quando ela decide que vai se apresentar nas comemorações do bicentenário da cidade. Sem convite, sem ensaio oficial e sem qualquer negociação prévia, Pacarrete entra na secretaria de cultura e comunica que fará um número de balé clássico como “presente” para a população. A funcionária responsável (Samya De Lavor) tenta recusar com cuidado, mas logo percebe que lidar com Pacarrete exige mais do que respostas formais. A insistência da personagem ultrapassa o protocolo e se torna quase um embate físico e emocional, até que ela é retirada da situação sem conseguir o que queria.
Até então, o comportamento de Pacarrete gera riso e certo encantamento, mas a recusa institucional evidencia o limite entre o que é tolerado como excentricidade e o que passa a ser visto como problema. Ainda assim, ela não desiste. Pelo contrário, continua tentando se afirmar, seja no contato com Miguel (João Miguel), dono de uma confeitaria por quem demonstra interesse, seja nas pequenas decisões do dia a dia que reforçam sua autonomia.
Relacionamentos
O relacionamento com Miguel traz leveza e até humor. Pacarrete flerta com ele de maneira direta, quase teatral, enquanto ele responde com gentileza, mas mantendo distância. Há ali um jogo delicado. Ele não a expõe ao ridículo, mas também não entra completamente na fantasia que ela constrói. Essa troca mostra uma das qualidades do filme, o cuidado em não transformar a personagem em caricatura, mesmo quando suas ações beiram o absurdo.
Em outro momento curioso, Pacarrete encontra um cachorro e passa a tratá-lo como filho, chegando a comprar um berço para ele. A situação é claramente exagerada, mas revela algo mais profundo: uma tentativa de preencher vazios afetivos e de criar vínculos em um mundo que, aos poucos, vai se fechando para ela. O humor, aqui, funciona quase como uma camada de proteção, para a personagem e para o espectador.
Isolamento
Com o passar do tempo, porém, o tom do filme muda. A energia expansiva de Pacarrete dá lugar a um recolhimento inesperado. Ela para de se cuidar, se afasta das pessoas e perde o ritmo que antes a mantinha ativa. Essa mudança não é explicada de forma didática, mas é sentida em cada gesto, em cada silêncio. O que antes parecia apenas excentricidade começa a revelar um estado mais delicado, mais vulnerável.
Mesmo assim, a ideia de se apresentar não desaparece. Quando a cidade finalmente entra em clima de festa, com música e movimento nas ruas, Pacarrete reage. Sem autorização, sem palco oficial e sem plateia garantida, ela decide seguir adiante com seu plano. É um gesto que mistura resistência, teimosia e uma necessidade quase urgente de existir diante dos outros.
Allan Deberton conduz essa trajetória com uma sensibilidade que evita julgamentos . O filme oscila entre o riso e o desconforto, entre o afeto e a estranheza, acompanhando uma personagem que não cabe em definições simples. Marcelia Cartaxo, em uma atuação intensa e cheia de nuances, sustenta essa ambiguidade com firmeza, tornando Pacarrete ao mesmo tempo difícil e impossível de ignorar.
O filme dá a sensação de ter acompanhado alguém que insiste em ocupar espaço, mesmo quando tudo ao redor parece dizer o contrário. E essa insistência já altera a forma como a cidade, e o espectador, passam a olhar para ela.

