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Há pessoas que cabem dentro de histórias — e histórias que escorrem pelas frestas das pessoas. Talvez seja essa a função secreta da literatura: dar forma ao que não tem nome, ou devolver, com estranheza terna, algo que já sabíamos sem saber. Nem todo autor espelha — e, quando tenta, falha. Mas há estilos que ferem de modo familiar, há frases que parecem saídas de silêncios nossos, há vozes que nos reconhecem sem nunca ter nos visto. Não se lê Kafka impunemente. Nem se passa ileso por Woolf. Certos livros não nos tocam — nos expõem. E, às vezes, o que mais revela não é a semelhança, mas a tensão. Você não é aquilo. Mas quase. O resto é abismo. Afinidade aqui não é gosto: é vibração disfarçada de leitura. Um deslocamento íntimo. Um eco que, de algum modo, te escreve por dentro.



Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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